Diversidade

Funcionários denunciam Loja Três por racismo, gordofobia e assédio moral

por: Redação Hypeness

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O Universa apresentou longa reportagem narrando casos de racismo, gordofobia e assédio moral praticado contra funcionários da Loja Três.  Com duas lojas no Rio de Janeiro e duas em São Paulo, o estabelecimento comercial criado há seis anos por Guta Bion, 61 anos, se destacou no mercado pela valorização da diversidade e das pessoas.

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Só fachada, é o que dizem funcionários ouvidos pela reportagem, que narram casos de constrangimento, racismo velado, ofensas, abuso de poder e até irregularidades trabalhistas praticadas por Guta e seus dois filhos, a estilista Fernanda Bion e o economista Francisco Bion, que são sócios da mãe na empresa.

Diversidade? Loja Três precisa explicar racismo, homofobia e gordofobia

11 pessoas foram ouvidas ao todo e o discurso segue pelo mesmo caminho. Publicamente, a Loja Três apresenta roupas com a etiqueta decorada com foto da costureira responsável pela peça. Na internet, funcionários negros ostentam seus cabelos crespos e sorrisos de orelha a orelha.

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Juliana Neves, no entanto, diz que foi condicionada a escolher entre manter as tranças ou continuar trabalhando. A jovem estava em período de experiência na loja do Shopping JK Iguatemi, em São Paulo.

“A princípio, eu tinha feito as tranças para usar só no Natal e no Réveillon, ia tirar em janeiro. Mas depois que aconteceu tudo isso, eu me recusei a tirar. Decidi que não ia abaixar a cabeça por preconceito”, explica.

A estudante de moda de 22 anos preferiu a primeira opção. Suas tranças. “Dizem que são uma marca que abraça a diversidade, que respeita os outros, mas isso não acontece lá dentro”.

A loja do JK Iguatemi encerrou as operações em abril. Mas, de acordo com os funcionários, a regra era ‘controlar’ o cabelo crespo. O mesmo valia para as vendedoras negras da unidade de Pinheiros, na zona oeste da capital paulista.

Ruth de Oliveira, de 23 anos, atuou como operadora de caixa da Loja Três. Ela revela que as orientações eram “manter o black arrumadinho, não poderia aparecer desleixado”.

Os donos Guta, Fernanda e Chico Bion

Os relatos colocam Guta Bion e seus filhos como responsáveis pelas orientações racistasRuth, que estuda Sociologia e Política, pretende processar a loja por danos morais.

“Ela [Guta Bion] achava que o negro é necessariamente favelado e dizia isso de forma muito pejorativa. Ofender uma estoquista pelo nível social ou falar mal de ‘pessoas de cor’, como se referiam a pessoas negras, me afeta diretamente”comenta.

A gerente da unidade de Pinheiros, em São Paulo, que preferiu não ter o nome exposto, revela que a contratação de funcionários negros se deu por imposição sua. “A Guta costumava dizer que eu adorava misturar, que a loja de Pinheiros era a mais misturada”, denuncia.

Para ser estoquista deve ser favelada. Ela mora em Heliópolis, pode ter um namorado bandidinho. [É fácil] para ela ir lá e fazer a limpa sem ninguém ver?, assim que Guta falou sobre uma funcionária. A versão foi confirmada pelas pessoas ouvidas pelo Universa.

Mahmundi

A Loja Três fechou parceria com a cantora Mahmundi para a gravação de um clipe publicitário. ‘Tempo de Amar’ foi gravada em um teatro de Botafogo, na zona sul do Rio de Janeiro.

Os funcionários dizem – proibidos por Guta e Fernanda – que passaram horas sem comer. O lanche era exclusividade dos artistas. A tarde de trabalho teve ainda ofensas racistas. Confira o relato abaixo.

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“Chegamos ao teatro, em Botafogo, por volta das 13h. Tinha maquiadora, uma pessoa para fazer penteado e arrumar as meninas [funcionárias]. Soube que uma das mulheres que participou do clipe comentou com a Guta que achou muito legal ter cabeleireiro lá e que gostava de se cuidar. São pessoas muito carentes. Mas a Guta virou e respondeu ‘nossa, se eu tivesse o seu cabelo também ia querer alguém para cuidar dele’. Ela faz esses comentários de graça e ainda faz rindo”.

Funcionários dizem que não podiam comer durante gravação com Mahmundi

A fala segue:

E o pessoal [da Mahmundi] perguntando se a gente queria se servir, mas estava todo mundo sem graça. No final, depois de gravar o clipe com a cantora e com a nossa família, todo mundo foi liberado para comer na tal mesa do lado de fora, que teoricamente era pra gente. Mas quando chegamos lá não tinha comida, não tinha nada, só uns petiscos e um cafezinho, mas nada que matasse a fome. Fizeram aquilo tudo, aquele teatro todo para dizer que valorizam os funcionários, mas é uma farsa.

Outra pessoa que preferiu preservar a identidade, relata situações de homofobia e gordofobia.

“Na hora de contratar, eu tinha que ter certos cuidados. Eu não podia contratar mães com filhos pequenos. Você também não vai ver um vendedor gay muito afeminado, que ela chamava de ‘gay munheca’, porque ela diz que causa muito frenesi. Eu sabia que se eu selecionasse uma menina acima do peso ela ia recusar. Ela dizia que não contrata quem não entra na roupa dela”, lembra a funcionária identificada com o nome fictício de Raquel.

Além de xingamentos do tipo “sua mãe é burra”, feitos por Guta e Fernanda, funcionários da Loja Três tinham celulares confiscados e papel higiênico regulado.

A Loja Três

O estabelecimento comercial se manifestou por meio da assessoria Loures Comunicação e negou denúncias feitas por 11 pessoas.

“A Loja Três recebeu com enorme surpresa as denúncias enviadas pela reportagem do UOL. Elas envolvem, entre outros aspectos, a prática de crimes que a empresa considera inaceitáveis e se dedica desde sua criação a combatê-los. A Loja Três existe há seis anos e hoje possui uma fábrica, um escritório e quatro lojas em São Paulo e no Rio de Janeiro. A empresa preza pela diversidade e pelo respeito à individualidade das pessoas. Dos seus 154 funcionários, 85 são negros. Ao todo 97% do que é vendido nas lojas é produzido pela fábrica da empresa. A valorização de toda a cadeia de trabalho está entre nossas principais preocupações”.

A Três nega que tenha impedido uma funcionária de usar tranças.

“Ninguém da empresa está autorizado a fazer este tipo de solicitação, muito menos ameaças a funcionários. Prezamos a diversidade de gênero e raça e trabalhamos com os mais diversos tipos de modelos, como demonstra claramente nosso site e nossas campanhas de marketing. Em nossas lojas trabalhamos com funcionárias de diversos estilos. Somos uma empresa transparente, que não é perfeita, porém que trabalha todo dia com muita dedicação e esforço para proporcionar um modo melhor de trabalho e vida para nossos colaboradores. São 154 pessoas e a grande maioria está satisfeita com o seu crescimento pessoal e profissional”.

Mahmundi se manifestou pelo Instagram e se disse desmotivada com a situação. “O racismo nesse país é estrutural. bem articulado, cheio de nuances. Me sinto feliz e orgulhosa de ver mulheres denunciando maus tratos, tendo voz para expor violências verbais diárias”.

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Comecei meu dia recebendo várias mensagens sobre a matéria envolvendo a @lojatres. Fico muito triste, estou bem triste. bastante desmotivada. Trabalhar com marcas é sempre cansativo. é sempre o mesmo papo, é sempre o mesmo fim. Não importa se sua marca descolada de perfume, cerveja, maquiagem e roupas estampam negros, gays, gordas e periféricos. É sempre o mesmo fim. Empresas querendo inclusão. Empresas. O que me alegra saber é que minha decisão de me conectar com aquelas pessoas faz real sentido. Quando fui convidada para fazer um projeto com a Loja 3, pensei na oportunidade de me comunicar com as trabalhadoras desse Brasil. Eu amo. Convidei meu amigo @loucascudo pra gente pensar em algo que trouxesse uma comunhão com elas e com as famílias. Lembram minha mãe, minhas tias, minhas avós. O racismo nesse país é estrutural. bem articulado, cheio de nuances. Me sinto feliz e orgulhosa de ver mulheres denunciando maus tratos, tendo voz para expor violências verbais diárias. Quando eu tinha 18 anos e sofria constantes humilhações numa famosa rede de Fast Food, nunca fui capaz de tentar mudar aquele panorama. Que bom que essas mulheres tiveram coragem. Só fortalece meu amor e admiração por elas. Quanto a loja, não estou assustada, como disse antes: Estou triste apenas pelas amigas trabalhadoras. Me apeguei a esse trabalho. Isso ressoa. Muitas sequelas, muita saúde mental debilitada. Cada dia abre uma loja nova no Rio de Janeiro, uma cidade de herdeiros racistas e inseguros sobre si mesmos. Amanhã, uma nova notícia impactante abafa essa, e estaremos de novo sofrendo racismo de todos os cantos. No mais, é isto. Você ficou chocado com tudo isso? Acredite, na fábrica da sua marca de maquiagem preferida, tênis descolados, cervejas inclusivas e roupas antenadas, tem sempre uma rede de funcionários sofrendo a mesma coisa todos os dias. Ainda bem que dessa vez foi diferente. Houve voz. E eu tenho o maior orgulho e prazer de ter conhecido essas mulheres. E apesar de tudo isso, sei que eu e elas – juntas – fizemos um projeto e uma noite muito especial. Mahmundi, 20 de Maio de 2019

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Fotos: foto 1: Reprodução/Instagram/foto 2: Bárbara Lopes/Reprodução/O Globo/foto 3: Reprodução/Instagram


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