Roteiro Hypeness

Genebra: um roteiro pela menor e mais cosmopolita cidade da Europa

por: Clara Caldeira

Se eu tivesse que escolher um lugar no mundo para me perder (ou me encontrar), eu provavelmente escolheria Genebra. Os motivos são muitos e você vai conhecê-los em breve, mas em primeiro lugar deixo no ar a pergunta: o que vem à sua mente quando pensa em Genebra, na Suíça?

Se você disser fondue, queijos, chocolates, neve e montanhas você não está totalmente equivocado. Não totalmente, mas há um universo inteiro de arte, cultura, design, gastronomia, natureza, qualidade de vida, alto astral, tecnologia, ciência, cores e sabores que você ainda está por conhecer. Genebra no verão é a capital da qualidade de vida e da tranquilidade, o lugar perfeito para se desconectar e se reconectar, consigo mesmo, com a natureza e com o planeta.

O Hypeness foi a Genebra a convite da Geneva Tourism, fundação de fomento ao turismo na cidade, cuja missão é tornar simples e seguro o dia a dia dos viajantes que passam por lá. São eles também os responsáveis por algumas das diversas facilidades que encontramos, mas já já você vai entender melhor do que eu estou falando.

Pra sacar por que essa é a cidade do mundo que eu escolheria para me perder, preciso começar falando de transporte público. Em Genebra, qualquer visitante que se hospede em hotéis ou hostels ganha, automaticamente, o Geneva Transport Card, um cartão que dá acesso gratuito e ilimitado a todos os meios de transporte públicos disponíveis, incluindo barcos.

“Ok, mas e antes de fazer checkin no meu hotel/hostel e pegar meu Transport Card?”. Quando você chegar ao aeroporto, nem pense em chamar um Uber. Ali, existe um guichê onde é possível retirar um bilhete de trem que te dá acesso gratuito ao centro da cidade, onde estão localizadas as melhores opções de hospedagem.

Não se preocupe também com internet. Tanto no aeroporto quanto na estação central de trem, e em diversos outros pontos da cidade, existe wi-fi gratuito, disponível para que você consiga se virar até conseguir adquirir um chip ou roteador portátil com internet.

Sobre língua e moeda

A Suíça não faz parte da União Européia e por isso a moeda utilizada por lá não é o Euro e sim o Franco Suíço. Mas caso você não encontre Francos Suíços na casa de câmbio da sua cidade ou decida ir pra Genebra de última hora, não precisa esquentar a cabeça. Praticamente todos os estabelecimentos da cidade aceitam Euro, o único porém é que seu troco será devolvido em Franco Suíço e a cotação pode variar um pouco de um lugar para o outro.

Quando o assunto é língua também não há motivo para preocupação. Genebra integra a parte da Suíça em que a língua oficial é o francês, mas praticamente todo mundo na cidade fala inglês. Pra melhorar, os genebrinos são extremamente abertos, generosos e simpáticos, além de muito acostumados a conviver com estrangeiros. Todo mundo vai se esforçar para estabelecer uma comunicação com você. Não se preocupe! Isso sem falar no número enorme de brasileiros e portugueses vivendo por lá. Dependendo de onde estiver, pode ser até que você consiga falar português.

Dia 1: o centro antigo e seus tesouros

Chegamos a Genebra a perto do meio-dia e fomos direto almoçar no L’Artisan, restaurante que fica no Hotel Rotary, onde ficamos hospedadas. Tocada por um jovem chef, a cozinha do L’Artisan trabalha com produtos frescos e locais, revisitando clássicos com um olhar moderno e criativo. Uma delícia! O hotel fica na Rue du Cendrier, região central da cidade, a poucos minutos a pé do Lago Lèman e do Centro antigo, sem dúvida a melhor área da cidade para procurar hospedagem.

Em seguida, partimos para um maravilhoso passeio guiado pelo bairro que abriga as construções mais antigas da cidade. O dia estava frio, mas ensolarado e resolvemos pegar um barco (de graça, pois Geneva Transport Card, lembra?) para chegar mais rápido até lá e aproveitar a vibe maravilhosa das águas cristalinas do lago com seus cisnes e patinhos nadando bem tranquilos.

Depois de andar um pouco conhecendo as ruas e as histórias da cidade, subimos os 500 degraus da torre norte da Catedral de Genebra (Cathédrale de Saint Pierre, em francês) para ver a cidade do alto. A catedral protestante tem uma arquitetura sóbria e, por dentro, uma decoração belíssima com pinturas que combinam as cores de forma única.

 

Para entrar, usamos nosso Geneva Pass, um pacote que funciona da seguinte maneira. Você paga um valor fixo e durante o período selecionado (1 a 3 dias) pode entrar em todas as 48 atrações turística selecionadas livremente, quantas vezes quiser, sem pagar entrada. Vale super a pena. Para contratar o seu é só acessar o site da Geneva Tourism.

Dia 2: relógios, fondue e a origem do Universo

No segundo dia de viagem, fomos convidadas a participar de um workshop para aprender como são montados os famosos relógios suíços. A Initium é um espaço que oferece oficinas de relojoaria para os curiosos com a opção de sair com um relógio no pulso que você mesma montou.

Quando eu cheguei, fui recebida por um especialista na arte da relojoaria, que primeiro me explicou a parte teórica. Honestamente, achei que seria impossível conseguir manipular tantas pecinhas miúdas e entender todo aquele complexo mecanismo. Mas a verdade é que foi só começar a ‘botar a mão na massa’ pra perceber que o processo é muito divertido e eu, no final das contas, acabei me saindo muito bem. Recomendo a experiência.

Depois de almoçar no Capocaccia, um italiano pertinho da Initium, fui em busca da estação de ‘tram’ (como eles chamam os modernos bondes elétricos por lá) para chegar até o CERN, Organização Europeia para Pesquisa Nuclear (Organisation Européenne pour la Recherche Nucléaire, em francês).

É no CERN que fica o laboratório internacional de física de partículas, onde foi desenvolvido o maior acelerador de partículas do mundo, o Grande Colisor de Hádrons (LHC), com seus 27 quilômetros de diâmetro. Foi graças a este projeto que foi descoberto o bóson de Higgs, a chamada “partícula de Deus”, um elemento subatômico que, segundo cientistas, seria o que resulta no surgimento da massa a partir de partículas como átomos e elétrons.

Dentro deste acelerador acontecem pequenas explosões controladas, similares ao que possivelmente foi o Big Bang. A partir daí, os pesquisadores estão cada dia mais perto comprovar teorias que explicam a formação do universo e a composição das partículas elementares, que deram origem à vida.

Aos visitantes, o centro de pesquisa oferece duas exposições permanentes e gratuitas. A primeira delas, explica por meio de reproduções, miniaturas e instalações interativas, as pesquisas realizadas pelo CERN e um pouco do dia a dia dos cientistas que trabalham por lá. A segunda, é um mergulho audiovisual nas origens do universo para provocar a reflexão: afinal, de onde nós viemos? Também é possível contratar uma visita guiada, mas que deve ser agendada com três dias de antecedência.

Em janeiro deste ano, o CERN anunciou que pretende construir um novo acelerador, quatro vezes maior que o primeiro, com cerca de 100 quilômetros, em formato circular. O laboratório responsável pela nova instalação, o Futuro Colisor Circular (FCC), também ficaria em Genebra, próximo à fronteira entre a França e a Suíça.

Depois deste mergulho nas origens do Universo, fomos até o restaurante Edelweiss, um espaço tradicional suíço com uma decoração super divertida e acolhedora, onde tivemos uma aula de preparação de fondue com o chef especialista Stephane Doncho. Para finalizar, curtimos uma noite muito divertida na parte de baixo do restaurante com direito a música típica e a garçonetes portuguesas super simpáticas (Genebra está repleta de portugueses).

Dia 3: Carouge, chocolate, almoço no barco e estrela Michelin

O Carouge é um bairro descolado em Genebra onde acontece boa parte da boemia da cidade e que reúne também restaurantes, ateliês e lojas dos mais variados e criativos possíveis. Quarta-feira, quando fomos até lá, é dia de ‘food market’, um mercado de rua bem parecido com a nossa feira livre, mas repleto de barracas com produtinhos suíços (queijos, pães, compotas, comidinhas, vegetais frescos) de dar água na boca. E as flores, claro! Pra não dizer que não falei delas.

O Carouge é famoso também por seus jardins internos, que ficam dentro dos prédios e residências. Alguns desses jardins ficam abertos ao público durante o dia para visitação. Vale a pena passear por eles, escutando os passarinhos e observando as diversas espécies de plantas, árvores e flores bem diferentes das que conhecemos no Brasil.

Foi no Carouge também que mergulhamos no maravilhoso mundo da arte suíça da produção do chocolate. Visitamos a fábrica da loja Philippe Pascoët e fomos recebidos pelo próprio. Pascoët é um chocolatier premiado que começou no ramo com apenas 17 anos, inspirado pela paixão de um padeiro da pequena vila italiana onde vivia na época. Nascido na França, o chocolatier vive em Genebra há 30 anos e hoje comanda a produção de 18 toneladas ao ano da pequena grande loja no Carouge.

Na hora do almoço, corremos para a beira do Lèman para embarcar no Savoie, um barco que navega pelo lago proporcionando vistas incríveis enquanto serve um sofisticado menu suíço. O dia estava nublado, mas isso não nos impediu de apreciar as paisagens dramáticas da cidade e das montanhas genebrinas.

E para manter o alto nível gastronômico do nosso terceiro dia de viagem fomos jantar no Le Flacon, restaurante com uma merecidíssima estrela Michelin. Sentamos num balcão de frente para a cozinha envidraçada para acompanhar o preparo dos pratos e ficamos fascinadas pelo sabor das receitas, pela simplicidade do ambiente e preços acessíveis. Sem sombra de dúvidas essa foi a refeição mais inesquecível da viagem.

Dia 4: ONU, Cruz Vermelha, ateliês e galerias de arte

O escritório da ONU e o Museu da Cruz vermelha ficam do ladinho um do outro em Genebra. Então, se você for conhecer um já vale a pena aproveitar para conhecer o outro. Primeiro, fomos à ONU, onde só é possível circular com uma visita guiada que acontece de hora em hora. Lembre-se de levar seu passaporte pois o esquema de segurança para entrar no prédio das Nações Unidas é semelhante ao de um aeroporto. Com a ajuda do guia conhecemos as instalações e entendemos um pouco da rotina de quem trabalha por lá.

O Escritório da ONU em Genebra é a segunda maior das quatro principais sedes da organização no mundo, sendo a primeira a sede oficial em Nova York. Além da administração das Nações Unidas, o complexo também abriga os escritórios para várias organizações e programas, tais como a Conferência das Nações Unidas sobre Comércio e Desenvolvimento (UNCTAD), o Escritório das Nações Unidas para a Coordenação de Assuntos Humanitários (OCHA) e a Comissão Econômica das Nações Unidas para a Europa (ECE).

Em seguida, partimos para o que se revelou uma das maravilhosas surpresas da viagem. O museu da Cruz Vermelha conta com instalações tecnológicas interativas que relatam o trabalho humanitário da organização contexto de guerras e catástrofes climáticas. Por meio de depoimentos de pessoas atingidas podemos ter uma dimensão do sofrimento que aflige populações das mais diversas origens e regiões do mundo, numa experiência impactante e transformadora.

Uma das partes mais interessantes do museu e a área que explica o trabalho de documentação e gestão de pessoas desaparecidas realizado pela organização. Além de conferir os arquivos físicos organizados pela Cruz vermelha ao longo das décadas, é possível consultar os arquivos digitais em busca de nomes, pessoas, antepassados, numa oportunidade única de pesquisa e análise de dados.

No fim da tarde, rumamos para o bairro Eaux-Vives, onde tivemos a sorte de presenciar a terceira edição do evento Un Soir aux Eaux-Vives (Uma Noite em Eaux-Vives) em que ateliês, galerias e escolas de arte abrem as portas ao público e oferecem pequenas mostras e exposições com comes e bebes.

A coisa mais maravilhosa é ir de espaço em espaço, descobrindo artistas e cantinhos escondidos que podem ser encontrados com a ajuda do mapa. Simplesmente sensacional! Na primeira galeria que entramos, demos de cara com uma mostra do pintor, fotógrafo e designer brasileiro Geraldo de Barros, que reunia móveis, pinturas e fotografias do artista. Ô sorte!

Dia 5: Monte Salève e cervejaria Père Jakob

Meu último dia em Genebra foi épico e começou com a subida ao monte Salève, uma das belas montanhas que adorna a paisagem da cidade. Apesar de ficar numa área rural repleta de natureza o Salève está a apenas 30 minutos de ônibus do centro de Genebra, pois lá tudo é super pertinho. Para chegar até ele é preciso cruzar a fronteira com a França, que nada mais é que uma rua tranquila (risos), mas não se esqueça de levar seu passaporte, que pode ser solicitado na passagem.

Uma das opções mais divertidas para chegar ao topo do monte é o teleférico (tipo bondinho do Pão de Açúcar), que você também pode pagar usando seu Geneva Pass. Enquanto ele sobe você vai curtindo a vista e quando chega lá no alto pode fazer uma das muitas trilhas disponíveis em meio à natureza ou ainda almoçar no restaurante Le Mont-Salève. Um almoço com uma senhora vista.

Na descida do Salève, pegamos um táxi e fomos direto para a micro cervejaria Père Jakob, que às sextas vira uma espécie de bar e abre para receber visitantes para degustação. Também numa área rural não muito distante do centro, a cervejaria está localizada em meio a campos floridos e plantações. Os próprios ingredientes base utilizados para produzir as cervejas da casa não são cultivados muito longe dali.

O espaço limpinho e acolhedor oferece poltronas mesinhas e até um balanço pra quem quiser curtir o happy hour. Uma vitrola e alguns vinis terminam de deixar o ambiente perfeito e, pra melhorar, ainda fomos convidados para um tour pela fábrica para aprender como as cervejas são produzidas.

Da Père jakob eu fui direto para o aeroporto ainda tentando digerir a quantidade de experiências inesquecíveis que eu vivenciei em apenas cinco dias. Genebra é incrível e fica a apenas 3 horas de trem de Paris, um passeio que sem sombra de dúvidas vale muito a pena. Em três dias é possível fazer um belo tour pela cidade e seus refúgios. Pequena, cosmopolita e com uma mobilidade urbana de deixar os brasileiros de queixo caído, Genebra precisa estar no roteiro da sua próxima eurotrip.

 

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Clara Caldeira
Jornalista, comunicóloga, frenética, dona de brechó frustrada, mora no meio do mato e gosta mais de comer que de dormir. Acredita em ET, saci e horóscopo, mas duvida de um monte de outras coisas que se diz por aí. Gosta mais de arte que de lasanha (contradição?) e acredita que a cultura pode salvar o mundo.

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