Meu Guarda Roupa é Hype

MC Taya: “viciei em não usar sutiã porque é libertador!”

por: Brunella Nunes

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Segundo os astros, MC Taya é uma irmã perdida da cantora Rihanna: é pisciana com ascendente e vênus em áries. Um oceano separa ambas, mas podemos dizer que, pelos looks e pela personalidade, elas realmente têm muito em comum. Nascida e criada em Nova Nova Iguaçu e Japeri, na baixada fluminense do Rio de Janeiro, Taiane Oliveira é hoje uma estrela nas redes sociais, em prol do feminismo e do amor próprio.

Aos 25 anos de idade, ela já mudou a cor e o estilo das madeixas cacheadas mais do que muita gente ao longo de toda uma vida. A inquietude é traduzida como manifestação criativa, que pulsa nas veias de Taya desde a formação em artes cênicas pela Universidade Federal do RJ ao trabalho como figurinista no mercado artístico e audiovisual.

Depois de mergulhar nas redes sociais, acabou embarcando em outra carreira: marketing de influência e entretenimento. A produção de conteúdo é levada tão a sério que vai de trabalho à diversão, seja dançando, curtindo shows ou apreciando museus e teatros. “Mas também gosto de ficar em casa vendo séries. Tenho fases. Oscilo entre o muito caseira e o muito festeira quase sempre”, contou ao Hypeness.

Com cabelão, corpão e bocão, ela faz trabalho como modelo para algumas marcas, mas nem sempre foi essa fada da autoestima. Precisou passar por poucas e boas, inclusive por distúrbios alimentares, até amar a si mesma, do fio de cabelo ao dedo do pé. Foi só a partir da construção da autoaceitação, do empoderamento feminino e na autenticidade que começou a fazer sucesso no Instagram.

Hoje resgata no seu estilo as referências dos anos 2000 e se prepara para novos desafios, como o de se tornar, enfim, cantora. Depois de tocar contra-baixo, compor músicas e cantar numa banda de hardcore durante a adolescência, agora ela pretende abraçar a MC Taya que dá nome às suas redes sociais. O primeiro bordão ela já tem: “quem vê close, não vê corre“. Nasce uma estrela para fazer duo real-oficial com a Rihanna.


Hypeness: Quando que a Taya começou a virar influencer digital? Isso mudou você?

Taya: Em 2014, no boom do feminismo, eu comecei a fazer textão feminista e tive alguns compartilhamentos. No ano seguinte entrei em transição capilar e coloquei umas tranças rosas. Isso deu um efeito absurdo!

Como eu continuava com os textões, as meninas da minha cidade ou do meu rolê começaram a se identificar comigo. Até que eu apareci com umas tranças em degradê. Nessa época não vendia aqui no Brasil nem o jumbo - cabelo sintético que usamos como extensões das box braids - colorido, que dirá em degradê.

Ensinei as meninas no Facebook como elas poderiam pintar as próprias tranças. Descobri isso porque estava no final da graduação de Indumentária e havia acabado de fazer uma matéria de estamparia. Aí começaram a me pedir pra que eu fizesse um blog. Depois veio canal e tudo foi acontecendo…

E isso virou minha vida do avesso. Eu sou outra desde que isso tudo começou. De três anos pra cá eu mudei e cresci absurdamente, além de hoje estar trabalhando com algo que eu não trabalharia se não fosse essa loucura toda.


– Como você define a sua relação com os seus cabelos? Como foi pra você a fase da transição capilar?

Eu comecei a alisar o cabelo desde muito cedo. Quando criança, com uns 4 ou 5 anos, comecei a fazer relaxamento capilar que é um tratamento quimico, aos 13 me rendi a chapinha e com uns 17 conheci as escovas progressivas a base de formol e viciei. Eu detestava meu cabelo, não tinha amor próprio nenhum, queria ter o cabelo mais liso possível, era uma tortura.

– Tem algum tipo de regra na sua moda?

Nenhuma. Eu considero o meu jeito de fazer moda muito estranho, mas tenho um certo senso estético e as pessoas gostam disso. No começo me assustou um pouco, depois eu entendi que as pessoas realmente curtiam e queriam dicas de moda minhas.


– Existe Taya sem cabelón, sem lookão e sem maquiagem?

Nossa, existe muito! Eu preso muito por conforto, então geralmente estou de tênis, moletom e t-shirts no dia-a-dia. Costumo mostrar nos meus stories. Geralmente prefiro dormir mais um pouco do que acordar mais cedo pra me maquiar.

– O que não entra no seu armário de jeito nenhum e o que não sai nem por 1 milhão de dólares?

Caraca, agora eu não consigo pensar em nenhuma peça em especial porque sei lá, eu estudei história da moda na faculdade e a moda é cíclica demais. O que é feio numa década é sensação na outra. Então eu acho que só evito muito roupas que a modelagem não ajudam o meu biotipo. Tenho ciúme de todos os meus casacos e jaquetas e quando encontro jeans de cintura alta que a modelagem fica perfeita em mim eu crio uma obsessão pela peça.

 

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– Qual conselho você dá para as mulheres que querem ser felizes sem o sutiã, mas temem pela própria vida por causa do maldito assédio? 

Infelizmente não são todas que podem,né? As meninas com seios grandes precisam usar de qualquer jeito, pois há a funcionalidade pra elas. Eu acho que as meninas que podem e querem, primeiro precisam fazer uma autoavaliação da sua segurança e confiança, pois precisa estar bem segura de si e também entender seu contexto social.

Algumas têm o privilégio de morar em ambientes menos machistas…enfim, é complicado. Mas no começo, quando eu tomei a iniciativa, morria de vergonha na rua, parecia que todo mundo estava olhando pros meus peitos, depois resolvi ignorar e viciei porque é libertador!

– O que você faz naquele dia que “nada tá bom, nada tá bem”?

Geralmente me mimo. Se eu estiver com dinheiro, eu vou jantar fora. Se eu não estiver, eu vou fazer uma máscara na pele, hidratação no cabelo, vejo alguma série ou filme preferido, converso com amigos…

 

– Você sente saudades de ser screamo? Esse estilo ainda te inspira?

Hahah que pergunta ótima! Poxa, foi uma época difícil,mas sinto saudades. Trago uma memória deliciosa de uma paixão verdadeira pela música. Foi ali que eu entendi que eu amava muito a moda, porque eu ficava buscando referência dos gringos pelo MySpace, Fotolog e outras redes sociais da época.

Eu curtia muito a MariMoon e tinha todo um acervo de roupas, maquiagem e cabelos do estilo. Eu estava sempre mudando de cabelo com cortes e cores diferentes, não muito diferente de hoje haha. Ainda me inspira sim, voltei a beber muito da água dos anos 2000 por causa de todas as tendências que voltaram e o screamo foi um marco.

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Em 2009, nessa foto eu tinha 16. Muitos sonhos e frustrações já na conta, terminando o ensino médio e estudando em duas escolas diferente (eu fazia um técnico em Telecomunicações no CEFET de manhã e Ensino Médio Técnico em Publicidade em outro colégio). E aí eu era muito hardcore/screamo/metalcore lokona, eu vivia o lifestyle real. Eu estava todos os finais de semana em shows e mosh pits, amava uma roda punk e um stage dive. Eu tinha uma crew, Massacre Crew e eu era a Tay Massacre kkk Mano que saudades, a gente arrumava confusão até com as crews daqui de São Paulo. Foi aí que tive meus primeiros contatos com movimentos sociais mas também quando sofri bastante racismo dentro desse estilo de vida. Enfim 10 anos se passaram… e hoje eu sou a #McTaya. #10yearschallenge

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– Você já foi do rock e depois quis ser MC. Cadê a Taya cantora, gente?

Opa, ela vai aparecer em 2019, com certeza, já está tudo sendo feito pra isso acontecer. Tem muita gente que logo me associa ao funk, mas quando eu lançar estarei mais pra Cardi B.

– Representatividade na moda te ajudou a abraçar sua cor, seu cabelo e seu estilo?

Mais ou menos. Nunca vi muita representatividade na moda, ainda mais na brasileira. Eu buscava representatividade por outros meios. Mas claro que quando começaram a agregar umas e outras, ajudou a fortalecer esse amor próprio.

 

– Você trampa diretamente nesse nicho. Ainda passa por situações preconceituosas dentro do seu ambiente de trabalho?

Ah sim, aqueles velados…às vezes as pessoas são sem noção mesmo. Mas tenho o privilégio de hoje trabalhar num ambiente com mais diversidades.

– Você fez um relato dizendo que, um dia, “renasceu” para assumir sua negritude. Mas ser uma mulher negra no Brasil não é nada fácil. Ainda te dá medo? Você acha que as coisas estão diferentes? 

Marielle morreu no último ano e várias outras mulheres negras morrem o tempo todo, já que a taxa de mortalidade de mulheres negras só aumenta. Em 10 anos cresceram em 15%, então ainda me dá PAVOR ser mulher negra na sociedade brasileira. E nem sei quando pode melhorar, algumas têm a sorte de fugir das estatística, mas pode ser qualquer uma de nós.

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Essa foto me marcou muito. No momento em que estava me orgulhando, e finalmente, amando todos os meus traços negróides. É difícil você crescer em um lugar vivendo de mentiras, alimentando falsas verdades suas, se desconhecendo e se culpando por isso. É estranho pensar como o nosso físico, emocional e mental se separam tão bem quando falamos de racismo. Eu sempre soube que era negra, os insultos, as ofensas, os assedios nunca fizeram que eu pensasse do contrário, mas doía tanto que eu não queria ser… Até o dia em que renasci e todo esse ódio direcionado a mim já não me dava mais medo, já não fazia mais eu abaixar a cabeça e o mais importante de tudo: meu deu forças pra gritar e ter minha voz ouvida. #diadaconsciencianegra #resistiréexistir

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Fotos: Bruno Gomes | Vitoria Leona | acervo pessoal


Brunella Nunes
Jornalista por completo e absoluto amor a causa, Brunella vive em São Paulo, essa cidade louca que é palco de boa parte de suas histórias. Tem paixão e formação em artes, além de se interessar por ciência, tecnologia, sustentabilidade e outras cositas más. Escreve sobre inovação, cultura, viagem, comportamento e o que mais der na telha.


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