Matéria Especial Hypeness

No Brasil, 9,3% tem algum tipo de transtorno de ansiedade — 3 vezes mais que a média mundial

por: Gabrielle Estevans

Publicidade Anuncie

A professora Ana Carolina Gil estava no segundo ano como concursada da Prefeitura Municipal de Florianópolis quando percebeu que a tristeza que vinha sentindo, duradoura e constante, não era um sentimento normal. Foi, então, em um dia de trabalho que uma crise de pânico confirmou a hipótese que a rondava: sua saúde mental estava abalada. “Entrei no berçário da creche e travei. Tremia e chorava. Comecei a sentir falta de ar. Minha mãe e minha irmã tiveram de ir me buscar porque não conseguia dirigir.”

Ao sair da escola em que trabalhava naquele dia, foi, pela primeira vez, a um psiquiatra. O diagnóstico veio como um baque: depressão. Ana Carolina faz parte das estatísticas divulgadas pela Organização Mundial da Saúde (OMS) em 2017. No Brasil, estima-se que 5,8% da população seja afetada pela doença e que 9,3% tenha algum tipo de transtorno de ansiedade — um número três vezes superior à média mundial. Quando trazemos à equação o sexo feminino, o resultado é ainda mais preocupante. Minorias invisibilizadas estão mais vulneráveis frente a pressões e opressões e não encontram nas políticas públicas e no acesso gratuito à serviços de qualidade o apoio que precisam — e que têm direito. Raça, etnia, classe, orientação sexual, idade, maternidade por exemplo, não devem ser desconsiderados de uma análise profunda sobre saúde mental no Brasil e no mundo.

Em 2001, a OMS já havia publicado em seu Relatório sobre a Saúde Mental que mulheres tendem a ter uma propensão maior aos riscos de desenvolver transtornos mentais. Um dos principais pontos de atenção levantados pelo estudo: quando há o adoecimento psíquico feminino, a mulher tem dificuldade em aceitar o diagnóstico porque não consegue sair do lugar de cuidadora, imposto pela sociedade, para ser aquela que precisa de cuidados.

Mulheres e autocuidado: uma estratégia de sobrevivência

No ano passado, o termo “autocuidado” ganhou as prateleiras de mercados, farmácias, lojas de departamento. Foi cooptado pelo mercado e transformado em máscaras faciais, banhos de espuma e outros atos momentâneos dedicados a atrair quase que exclusivamente o público feminino. Nesse contexto, o conceito se esvaziou, prejudicando uma prática já tão complicada para as mulheres. Cuidar-se, como exercício contínuo, visa melhoria da qualidade de vida e, muitas vezes, é também uma estratégia de sobrevivência para grupos ainda mais socialmente invisibilizados.

E, apesar dos modismos, o autocuidado é tema de estudo há décadas. A enfermeira norte-americana Dorothea Orem criou, em 1959, sua teoria do autocuidado, dando vida ao vocábulo como uma prática de atividades que cada indivíduo realizaria em prol do próprio bem-estar, saúde e do contínuo desenvolvimento pessoal. Orem também reforçou em sua obra que a capacidade de cuidar de si mesmo é afetava por condicionantes básicos, como idade, sexo, estado de saúde, fatores ambientais e disponibilidade de recursos. Para a enfermeira, a capacidade de cuidar-se poderia ser desenvolvida gradualmente, no dia a dia, seja pela própria experiência adquirida na execução do processo, seja pela instrução e supervisão de outra pessoa.

Publicidade

Mais que atividades corriqueiras e indulgentes, o cuidado é um exercício contínuo e, nem sempre, prazeroso. Estar atenta às próprias necessidades e desenvolver hábitos que visam o próprio bem-estar pode envolver deixar de lado vínculos tóxicos, criar redes de apoio consistentes, suprir exigências genuínas do corpo e da mente e estabelecer seus limites são algumas das práticas que atuam como zelo individual, mas que também têm potencial de corroborar com o bem-viver do coletivo.

Para mulheres, olhar com atenção para si e para suas demandas é um exercício de autopreservação. “Vivemos um momento, inclusive político, em que a mulher está sendo muito massacrada. Temos de ter posturas de enfrentamento, muitas vezes agressivas, para validar o que sentimos, para provarmos do que somos capaz.”, pontua a psicóloga Ana Paula Patrício, que atua no Centro de Referências de Promoção e Igualdade Racial.

Além disso, Patrício também explica que, em muitos casos, a supressão de dores que, em vez de serem tratadas, acabam silenciadas: “Existe um estudo da psicologia chamado Psicossomática que diz que dores, conflitos, negligências, sentimentos e tudo aquilo que não é expressado ou é mascarado vai ter de eclodir de alguma forma. Aquilo que a gente não concorda, que a gente gostaria de fazer e não faz fica armazenado na nossa mente. A consequência são mulheres deprimidas, síndrome do pânico, ansiedade generalizada”.

Foi o que aconteceu com Ana Carolina. Frente às fragilidades e dificuldades da rede pública de educação, viu-se de mãos atadas. “Eu me sentia muito inútil ao presenciar tudo que estava presenciando. Era incapaz de mudar uma realidade que é muito diferente da minha. Acho que isso que me fez adoecer. Na minha cabeça, não era justo que uma criança de um ano e meio usasse uma meia de adulto — e que isso a prejudicasse no desenvolvimento da locomoção — porque a família não tinha dinheiro para comprar uma meia infantil. Ao mesmo tempo, também via o descaso da prefeitura com a própria comunidade e com a unidade em que eu estava trabalhando. Aquilo me doía, entristecia. Eu me sentia impotente, incapaz e sozinha.”

Ninguém solta a mão de ninguém

Apesar das singularidades, como maioria minorizada muitos dos transtornos que afetam mulheres devem ser compreendidos também dentro de um contexto mais amplo da classe. Quando uma mulher se cuida, consegue estender o cuidado de forma mais natural às outras. Reforçar vínculos familiares e comunitários é essencial para a manutenção do bem-estar feminino. É no amparo afetivo das suas, muitas vezes, que mulheres encontram forças para lutar contra as violências cotidianas. “Há violências que nós cometemos contra nós mesmas. Por isso, precisamos desses espaços de conversa. Temos de nos acolher, em vez de nos atacarmos. É fazer valer a máxima ‘ninguém solta a mão de ninguém’”, completa Patrício.

Coletivos, iniciativas e projetos têm surgido pelo Brasil para incentivar e inspirar o autocuidado feminino. A Comum, uma plataforma de desenvolvimento humano para mulheres, criou, no ano passado, uma jornada especial sobre o tema. Também disponibilizou gratuitamente um manual de autocuidado — com a boa referência do manual Bem-viver para a Militância Feminista. Já o Coletivo Feminista Sexualidade e Saúde oferece atendimentos a partir de uma perspectiva feminista e humanizada. Por lá, por exemplo, é possível agendar consultas com o grupo Rede de Atendimento Psicanalítico Inconsciente Real. Além disso, há uma série de redes espalhadas pelo território nacional com consultas psicológicas gratuitas ou a preço popular e atendimento psicológico on-line e demais serviços realizados por meios tecnológicos de comunicação a distância.

Para Vania Assaly, médica com pós-graduada em Cuidados Integrativos pelo Hospital Israelita Albert Einstein e diretora científica da Associação Latinoamericana de Medicina do Estilo de Vida (LALMA), a ação do autocuidado não é uma fórmula pronta e genérica: “Cada pessoa irá encontrar seu método, o caminho simbólico e subjetivo para cuidar-se. Pelas práticas integrativas, as abordagens direcionam para o olhar sistêmico, não apenas no cuidado de uma doença, mas sim do ser que irá buscar amparo para restabelecer saúde. Nesse sentido, diversas ferramentas podem abrir os caminhos para encontrar a sua forma de sentir-se amparado e manter o estado de equilíbrio”.

Menos um chamado de mercado e mais uma ação cotidiana e perene, o autocuidado é um projeto de vida. Individual, em primeiro plano, mas também com benefícios sistêmicos para o coletivo feminino. Para isso, Luana Landeiro, médica do Instituto Assaly e também especialista em Cuidados Integrativos, diz que só é possível cuidar de forma efetiva de alguém quando cuidamos primeiro de nós mesmos: “É fácil se perder nas demandas diárias, nos cuidados com os demais e se esquecer disso. É preciso coragem e amor para olhar para o que está nos incomodando. E, também, pedir ajuda sempre que necessário”.

Publicidade Anuncie


Gabrielle Estevans
Jornalista, escreve sobre gênero, cultura e política. Também trabalha com pesquisa, planejamento estratégico e projetos com propósito e impacto social.


X
Próxima notícia Hypeness:
PF conclui: Polícia e milícia tentaram atrapalhar investigação de morte de Marielle