Debate

Organizadores de competição excluem atleta trans e expõe preconceito no esporte

por: Tarsila Döhler

Em relato emocionante, o pai de Maria Joaquina Cavalcanti Reikdal, de 11 anos, vice-campeã brasileira em patinação artística, desabafou à Marie ClaireGustavo Uchôa Cavalcanti é treinador da filha, que, após ganhar o segundo lugar na competição nacional, garantiu a vaga para participar do campeonato sul-americano. Maria é uma atleta transsexual. Ela não recebeu a convocação para o torneio, que aconteceu no dia 22 do mês passado, em Joinville.

A família recorreu à Justiça para que a filha tivesse permissão para competir, o que aconteceu. Mas ela foi excluída da foto oficial, não recebeu o agasalho oficial e não pôde fazer o reconhecimento da pista. Maria patina há 2 anos, mas os treinos para competições iniciaram no ano passado. Depois de muito esforço, ela foi aceita. O documento que recebeu, porém, informava que os técnicos e dirigentes votaram pela proibição da criança ao uso de qualquer banheiro que fosse. A família, então, correu atrás do cancelamento da ata e conseguiu.

Com o campeonato sul-americano, um novo impasse: o mesmo advogado tentou vetar a participação de Maria, já que em seus documentos o nome de registro e sexo estão como ‘masculino’. Isso, no entanto, só pode ser alterado quando a pessoa tem 18 anos. Antes disso, a mudança ocorre mediante processo judicial, que já está em andamento.

O pai da menina contou que o foco da filha estava em conseguir uma chance de competir. “Maria nos dizia que só queria participar, não importava o lugar que ficasse. Podiam deixá-la em último. Isso nos deu força para lutar. Não estávamos preocupados com colocação, mas sim com sua aceitação. A cada dia que passava víamos o sofrimento de nossa filha e isso nos dava mais força para lutar”, lembrou.

Quando finalmente chegou o momento de se apresentar, Gustavo conta que “mesmo ela tendo liminar que garantia seu direito como todos no campeonato, ela foi a única atleta que não pode ter o reconhecimento de pista e a única atleta do Brasil que não tinha o uniforme da delegação”. A atleta seria a 17ª a se apresentar, mais ou menos às 9h30, mas às 7h25 foi informada de que o regulamento havia sido mudado e ela se apresentaria em cinco minutos. Às 7h30, Maria entrou na pista às pressas e chorando. Gustavo se diz decepcionado com a confederação pela situação imposta à sua filha de apenas 11 anos e sabe que precisa se preparar para mais luta. “Conversando nos bastidores, nós descobrimos que as pessoas (principalmente, pais de algumas atletas) se incomodam por ela usar o banheiro feminino, o que pra mim é algo surreal, por se tratar de uma criança. Nós já soubemos também que muitos não a aceitam competindo com outras meninas, por ela ter nascido um menino e que já disseram que vão entrar com processo contra isso e contra a gente no ano que vem”, contou. 

Maria precisou lutar não apenas pela colocação no campeonato, mas também contra o preconceito fora da pista de patinação

Agora, a família relata sua história em busca de apoio. E tem encontrado: de acordo com o pai de Maria, o estilista Alexandre Herchcovitch expressou o desejo de criar uma roupa para que a atleta use em uma competição.

Publicidade

Foto: Reprodução/Instagram


Tarsila Döhler
Jornalista, pisciana, apaixonada por brechó, cerveja gelada e livros. Natural do interior, com sonho na cidade grande. Divide a vida entre textos, diagramação, bordados e os 360 dias de espera pelo carnaval.

Branded Channel Hypeness

Marcas que apoiam e acreditam na nossa produção de conteúdo exclusivo.



X
Próxima notícia Hypeness:
Igreja separa José e Maria em jaulas em crítica contra política de imigração