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Por que assistir ‘Mid90s’, o filme de skate que faz graça da masculinidade tóxica dos anos 1990

por: Brunella Nunes

Imagine uma versão de “Lords of Dogtown”, que se passa em meados de 1970, com 20 anos a mais, diálogos mais crus, temas mais complexos e boas doses de risadas. Se embriagando dessa fonte e dos anos 90, o ator Jonah Hill estreia como roteirista e diretor em “Mid90s”, um lindo filme adolescente sobre amadurecimento, amizade, tretas, skate e descobertas da flor da idade. Apesar de novo, já tem tudo para ser um daqueles clássicos no melhor estilo “Os Goonies”, que a gente ama para o resto da vida.

A história de Anos 90, título que chegará ao Brasil em 30 de maio, se desenrola a partir do pequeno Stevie, de 13 anos, que vive em Los Angeles com a mãe e o irmão mais velho, com quem mantém um relacionamento abusivo, movido a muitos chutes e socos. Tímido, rejeitado e indefeso, resolve se arriscar em busca das partes que lhe faltam.

Nos anos 90, o skate vivia uma de suas melhores épocas e foi exatamente aí que o garoto, como tantos outros, encontrou uma válvula de escape. O carrinho é não apenas uma convite para sair correndo de casa, mas também uma maneira de encarar novos desafios e criar laços com novos parceiros de aventuras, cada qual com sua personalidade: Fuckshit é o sem noção; Ray é o mais sábio; Fourth Grade é o mais introspectivo; e Ruben é inseguro. Era o então “mascote” do grupo até a chegada de Stevie.

A busca por identidade, afirmação e por uma turma de camaradas mais velhos, descolados e “experientes” do que ele são o fio da meada da comédia dramática. Ele consegue entrar na turma que admirava e, mesmo que seja de um jeito torto, ganha a admiração deles também. Stevie desenvolve uma nova paixão que o tira dos dramas domésticos e familiares, como acontece com uma imensidão de meninos e meninas no esporte urbano.

Deixando mais de lado toda a romantização de histórias tipicamente teens, o longa também joga luz aos dilemas e dramas familiares, que impulsionam o comportamento hostil de um garoto antes doce. Mas não é que ele perde a doçura, apenas aprende a se defender da camada áspera da vida adulta que vai se aproximando a cada ano que passa. A rebeldia vem como um presente.

Seguindo a premissa de mostrar “a vida como ela é”, é também um filme sobre primeiras experiências. O primeiro beijo, o primeiro contato sexual, o primeiro trago, o primeiro porre, a primeira revolta e a primeira queda no skate. Revela como a transição entre infância e adolescência é conturbada mas, ao mesmo tempo, naturalmente conflitante.

Outro ponto positivo é que, por meio da turma de meninos, o roteiro adentra no mundo masculino sem deixar de falar sobre sentimentos que, até hoje, são renegados ao gênero: ciúmes dos amigos, choro, frustração, demonstração de afeto e gentileza, e todas as outras coisas que desconstroem a ideia de virilidade. A masculinidade tóxica e sua construção não é tema central, mas se encaixa sutilmente. Em certo ponto se escancara, quando a gente se lembra do irmão mais velho valentão que, para se afirmar e se sentir superior, precisa bater no outro.

Os diálogos toscos, cômicos e ainda assim profundos entre os amigos traduzem em poucas palavras o que é essa fase da vida onde a gente grita para poder calar, esnoba para impressionar e faz besteiras que seriam impensáveis na vida adulta só para ser notado. Sim, dá vontade de voltar no tempo e ser inconsequente.

Junto à cenografia, o figurino e a fotografia, a memória afetiva da geração MTV pulsa como a daqueles que se renderam à “Stranger Things” . O olho chega a brilhar! Jonah sabe aproveitar bem as referências do ano que escolheu retomar, inclusive por recriar aqueles filmes de skate em VHS, com uma trilha sonora sensacional de clássicos do rap e hip-hop noventinha.

Mid90s resgata a época em que ouvíamos CDs no discman, colávamos pôsteres de banda pelas paredes, jogávamos Nintendo 64, líamos revista para driblar o tédio e não perdíamos um tempão olhando linhas do tempo (se é que isso faça algum sentido) no smartphone. É tudo muito nostálgico mesmo, até para quem não viveu esse período, agradando boa parte dos millennials e, provavelmente, influenciando ainda mais os que nem chegaram a respirar sem celular, mas que desejam sugar todas essas referências.

O pequeno notável Sunny Suljic fica grande no papel e mostra que tem tudo para ser gigante no cinema. A atuação é brilhante, floresce como a puberdade e os hormônios em transe. Seria injusto não mencionar que o elenco todo age com uma naturalidade invejável, fazendo a gente acreditar às vezes que estamos diante de um documentário, sem diálogos previamente ensaiados.

Independente da geração, ser adolescente não é das tarefas mais fáceis. Por vezes, é infinitamente cruel, porque é quando começamos a dar adeus à infância, temos que mostrar quem somos no mundo a partir de agora e ainda corremos contra o tempo para não encarar de vez as responsas chatas da vida adulta. São muitos desdobramentos, cobranças e confusões para administrar. Os sentimentos estão sempre em erupção. Mas com amigos de verdade do lado, até parece uma fase boa de recordar.

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Brunella Nunes
Jornalista por completo e absoluto amor a causa, Brunella vive em São Paulo, essa cidade louca que é palco de boa parte de suas histórias. Tem paixão e formação em artes, além de se interessar por ciência, tecnologia, sustentabilidade e outras cositas más. Escreve sobre inovação, cultura, viagem, comportamento e o que mais der na telha.

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