Matéria Especial Hypeness

Por que você pode – e deve – lutar pela descriminalização ao lado da Marcha da Maconha

por: Gabriela Rassy

A Marcha da Maconha São Paulo desse ano será sábado, dia 1º de junho. Mais uma vez, dezenas de milhares de usuários, pacientes, ativistas, jovens e movimentos sociais se concentrarão no Vão Livre do MASP para protestar pelo fim da guerra às drogas, pela legalização da maconha e pela justiça social. Em seu 11o ano de organização na cidade, a Marcha da Maconha sairá pela Av. Paulista, descerá a Rua da Consolação, seguirá pelas avenidas Ipiranga e São João até o encerramento previsto no Vale do Anhangabaú.

Com o tema “Para o Povo Vivo e Livre: Legalize!”, a Marcha 2019 seguirá a tradicional organização em blocos temáticos com forte presença de feministas, LGBTQ+, pacientes de cannabis medicinal e movimentos negro e pelo desencarceramento. Neste ano, a pressão social se faz ainda mais importante, tendo em vista o atraso dos parlamentares envolvidos da possível descriminalização.

Com o Supremo, com Tudo

Enquanto o velho-novo governo dá passos para trás em relação à educação e segurança pública, mais um processo social segue com ares de mofo. A falida guerra contra as drogas vislumbraria um possível fim com o julgamento de um recurso que discute a descriminalização do porte de drogas para consumo pessoal. A audiência estava marcada para o dia 5 de junho, mas, segundo coluna da Mônica Bergamo, um “pacto” entre Bolsonaro e os poderes Executivo, Legislativo e Judiciário deve levar o Ministro do Supremo Com Tudo, Toffoli, a retirar da pauta a ação.

Parte da organização da Marcha, o Coletivo DAR (Desentorpecendo A Razão), que luta pelo fim absoluto da guerra às drogas, recebe a notícia da possível remoção da pauta com muita indignação. “Vai ser mais uma demonstração do judiciário se dobrando aos interesses mais conservadores e reacionários no que diz respeito à política de drogas. O movimento acredita que a descriminalização do porte de drogas para consumo pessoal seria um passo importante, vemos isso como o mínimo”, disse Gabriela Moncau, militante do Coletivo DAR, da Marcha da Maconha SP e do Bloco Feminista da Marcha da Maconha SP.

Uma das ações em paralelo à Marcha da Maconha de São Paulo, o Coletivo DAR organiza um julgamento simulado da guerra às drogas. A ação vai no sentido de abrir diálogo com a sociedade a respeito da urgência deste tema. “Não é a toa que o Brasil já tem a terceira maior população carcerária do mundo. A gente vive sob uma guerra civil e a gente sabe quem é alvo dessa guerra: a população negra, pobre, periférica. Então todo mundo está implicado no diálogo e não só os usuários. Independente do que aconteça a gente vai seguir”, diz Gabriela.

No julgamento simbólico, ao invés de 11 ministros, foram convidadas 11 pessoas que, de diferentes formas, são afetadas diretamente por essa política de guerra. São essas as pessoas que vão fazer os seus votos e explicar por que essa descriminalização é o mínimo e o que a gente quer é o fim da guerra. O evento está marcado para sexta, dia 31, às 19h, na Sala dos Estudantes da Universidade de Direito da USP, no Largo São Francisco.

A discussão sobre a descriminalização gerou comentários recentes como o do parlamentar Styvenson Valentim (Pode-RN) que mesmo tendo passado 16 anos como policial numa luta nenhum sem sucesso contra as drogas, ainda acredita que a tolerância deve ser zero. Para ele, a sociedade corre risco, já que “quando a pessoa se vicia e é capaz de matar a própria mãe para conseguir dinheiro para comprar drogas”.

Todos sabemos que a maconha, ainda que proibida, é bastante acessível, além de ter efeitos mais próximos da calma que da violência. “O mais comum é que os pacientes que consomem cocaína, crack ou álcool, que é uma droga liberada e muito difundida, sejam mais violentos em momentos de abstinência ou intoxicação – que pode levar à morte da própria pessoa ou à violência familiar”, explica a psiquiatra e ativista pela legalização da cannabis Mariana Muniz.

Ainda segundo a médica, o primeiro ponto é que a violência em casa é fruto do machismo e não da droga, seja qual for. Porém isso não acontece com o uso de Cannabis. “A abstinência é sutil e gira em torno da irritabilidade, porém dura algumas semanas e não leva a consequências graves”, conclui.

“Ele tem um discurso muito reacionário é desinformado que junta todas as drogas criminalizadas no mesmo balaio, isso não é o que acontece na realidade”. Mariana compara ainda a frase de Valentim às usadas no filme Refeer Madness, que foi uma grande peça publicitária do proibicionismo nos anos 30. Esse é o nível do atraso em questão.

Para Gabriela Moncau, a afirmação do senador é de uma imensa hipocrisia. “É importante destacar que a proibição não impede que as pessoas que queiram usar drogas às usem. Lidar com pessoas que fazem uso abusivo de alguma substância com base na bala, na internação compulsória e no encarceramento não vai em defesa da saúde dessas pessoas”.

A ativista ainda expõe o genocídio histórico do Estado contra sua própria população. “Nossa sociedade que tem 30% da população carcerárias – que é a 3ª maior do mundo – respondendo por tráfico. O Estado está em guerra contra sua própria população. Não existe risco maior do que a própria proibição das drogas. A mudança é para ontem”.

Não à toa o eixo deste ano é fala exatamente do povo vivo e livre. “Para que parem de nos matar, nos prender e para que a gente possa lidar com as drogas de uma forma mais respeitosa, digna, inclusive para defender a saúde das pessoas que por ventura façam uso abusivo de qualquer substância”.

A importância da Marcha da Maconha em 2019

No último ano, em plena greve de caminhoneiros, mais de 100 mil pessoas participaram da Marcha da Maconha, marcando 10 anos de ativismo e liberdade de expressão e consolidando um dos maiores movimentos populares a romper o binarismo que marca o atual ciclo político. De quebra, o “maconhaço” promovido anualmente pelo movimento consolida-se como o maior movimento de desobediência civil organizada do país.

Para este ano, o coletivo passou o mês promovendo atividades preparatórias e panfletagens em diversos cantos da cidade, incluindo Marchas da Maconha nas zonas Norte, Sul e Sudoeste, além de Santo André e Francisco Morato. A Marcha ainda tem em vista pressionar o STF, que no dia 5 de junho voltará a debater a descriminalização da posse de drogas para consumo pessoal – decisão que o movimento considera “o mínimo”.

As ações da Marcha passam ainda por uma campanha de financiamento coletivo no site Vakinha para arrecadar fundos pra construção da Marcha

No momento em que o Brasil vive o aumento do autoritarismo, conservadorismo e militarização da vida e da política, a Marcha da Maconha SP mantém seu compromisso com a autonomia e o direito ao protesto. Apesar das intimidações e ameaças ao ativismo verbalizadas por autoridades de vários níveis, a Marcha fará valer seu direito ao protesto amparada pela Constituição Federal e por decisão unânime do Supremo Tribunal Federal, proferida depois da repressão ao movimento em 2011.

Marcha da Maconha São Paulo 2019
Data: sábado, 01/06
Horário: concentração a partir de 14h20; saída 16h20
Local: Vão Livre do MASP
Encontre o evento na sua cidade!

Mais informações e contato: + 55 11 9 4115 0033
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Fotos: @marcelopaixao85, Brunella Nunes e Agência Brasil/Antônio Cruz


Gabriela Rassy
Jornalista enraizada na cultura, caçadora de arte e badalação nas capitais ensolaradas desse Brasil, entusiasta da cena musical noturna e fervida por natureza.

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