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Virada Cultural volta a dominar o centro de SP e se reafirma como o melhor evento da cidade

por: Gabriela Rassy

Um dia para me sentir onipresente. Depois de cobrir o MECAInhotim, aterrizei na Virada Cultural – vulgo melhor evento da cidade – às 22h e parti voando para o centro. Antes de mais nada, devo dizer que meus desejos expressados no relato da Virada de 2018 foram atendidos: ela voltou a acontecer majoritariamente no centro.

A 15ª e maior edição antes vista mostrou a que veio: arrastou 5 milhões de pessoas para as 1200 atrações. Mais que o dobro, diga-se de passagem, que a fragmentada edição do ano passado conseguiu angariar. Desejos atendidos, muito cansaço, mas muito amor no coração me levaram ao centro de São Paulo para um ousado roteiro de 25 rolês, entre shows e festas.

Deu para fazer tudo? Não, claro. Mas trago aqui um panorama bastante diverso e um balanço do que foi a festa de debutante do melhor evento de São Paulo – sim, sou tiete da Virada e não é de hoje.

Cheguei avoada para um dos palcos que mais me motivaram nesta edição: o Experimenta. Foi ali que o novíssimo Edgar reuniu uma multidão que sabia cantar suas sensatas e críticas letras. Momento pausa na litura para que você conheça esse performático músico que ainda vai dominar o mundo. Foi ali também que Edgar renomeou a praça. De Patriarca, passamos a chamar então de Praça da Matriarca. O público bateu o martelo.

De lá segui para o Edifício Sampaio Moreira, onde os shows aconteciam nas janelas e varandas, banhadas por projeções psicodélicas. O prédio que foi construído em 1924 para finalizar o projeto do Parque do Anhangabaú se viu iluminado, com a big band ocupando cada um uma fresta com seus metais e cozinha afiada. De músicas autorais a releituras, como “Máquina de Lucro”, do BaianaSystem, o Bixiga fechou a rua Líbero Badaró de um jeito que não passava um cabelo pelo meião.

Na sequencia, um dos shows mais aguardados da (minha) noite: Teto Preto com Maria Beraldo. Para quem não conhece essas duas maravilhosidades, sugiro aqui duas audições para fortalecer sua semana com muita performance e boas letras. Se juntas já são maravilhosas, imagina shallow now no palco da Virada? Laura também reafirmou a Praça da Matriarca em seu look perfeito isento de erros.

Laura Diaz, que assume os vocais e sintetizadores do Teto Preto e a produção da Mamba Negra há 6 anos, sempre usou o corpo nu como protesto e debate. Dentro do projeto da banda ela eleva sua performance com figurinos quase cibernéticos com a mesma proposta. Ela ainda é a responsável pela produção do álbum Cavala e alguns de seus clipes, da artista completíssima Maria Beraldo. Ela une habilidade com guitarra, sopros e sintetizadores com uma voz potente na suavidade e ainda letras empoderadas. Que momento, meu Brasil!

Como foi difícil deixar a Praça da Matriarca em direção a outras emoções. Partimos enfim rumo ao Palco Plural, em pleno Anhangabaú, que antes da minha chegada a SP recebeu o sensível show Ofertório, de Caetano com seus filhos. Passando pelo Viaduto do Chá, me deparei com a intervenção A Rua É Clássica e suas bailarinas negras que rodopiavam ao som dos tambores – naquela hora, tocados por Beth Beli, regente do Ilu Obá de Min, e outras duas percussionistas. Só vi beleza!

Com dores nos pés e uma fome razoável, parti ainda para o Vale do Anhangabaú que tinha um encontro marcado para matar as saudades de Seun Kuti & Egypt 80. Ele e sua banda foram os responsáveis pela ida da minha mãe toda linda para a Virada lá 2012. Gente, to velha! Foi um show emocionante na época e seu retorno não deixou por menos. O Vale foi abaixo com o poder dos batuques e da dança africana. Desta vez ainda teve participação da Iza na música final – mas estranhamente depois a banda saiu e ficou só a cantora no palco, ao som de DJ, tocando dois de seus sucessos pesadões-dões. Nada contra Iza – aliás, uma deusa – mas foi um encerramento um tanto estranho.

A força que me restava me levou ao Theatro Municial para ver uma das fanfarras que ocupava as escadarias, dentro da programação do Honk. O festival deu ares de Carnaval ao entorno do teatro com 14 fanfarras em 24 horas de evento. Vi um trecho da Manada, mas ainda passaram por lá a queridinha Charanga do França, o bloco de Pífanos e seu resgate à cultura popular e a Cumbia Calavera com suas caveiras performáticas e união latina.

Domingo teve mais? Opa. Respeita minha história! Mesmo acordando tarde, cheguei no centro às 14h a postos para Jaloo acompanhando de Gaby Amarantos e MC Tha. Sou suspeita para falar desse show. Entusiasta do Pará, sou apaixonada pelo calor, sabor e pela música dessas pessoas perfeitas e tão genuínas. Jaloo fez o pastor-brega-pop e reenergizou todo o público antes do fim, que com as mãos para o alto embarcou na última música entoada pelo trio. E que trio!

Numa tentativa de seguir para o show do Emicida, passei pelo palco Brasil 360 onde a negra e linda banda Aláfia mandava o som. Depois da saída de Xênia França para carreira solo, as irmãs Estela e Eloisa Paixão assumiram os vocais, ao lado de Eduardo Brexó e Jairo Pereira. A banda deve lançar em breve um álbum de inéditas, já com a nova formação.

Ainda tentando chegar no palco rap, encontramos a festa Pilantragi se preparando para colocar sua bateria na rua, ainda ao som do DJ Tahira. Seguimos e nos deparamos com a triste realidade: seria impossível chegar até um lugar confortável para ver Emicida recebendo a maravilhosa Mayra Andrade. O palco aparentemente ficou cheio em todos os shows. Pudera! A cidade que abraça o rap dessa forma tem que ter esses artistas num lugar como o Anhangabaú! Mas tá valendo.

Fui então até a Casa de Francisca para ver a Mariana Aydar nas varandas desse casarão musical tão lindo. Pr`além do forró clássico, a cantora mandou ver com o hino feminista “Triste, Louca ou Má”, da Francisco El Hombre. Momento mais emocionante do show que seguia com o crepúsculo alaranjando o centro da cidade.

Não perdi um minuto depois do fim e segui focada para um outro show que ando apaixonada. O Afrocidade me provoca uma coisa próxima do sentimento do Attoxxa e do Baiana. Um mete dança com roda, com baianidade fervida, com negritude latente. Apenas amo! O show foi ainda invadido pelas Maravilhosas Corpo de Baile que ferveram mais ainda a apresentação.

Para fechar, os caminhos levaram a Siba e seu delicioso show que dá um ar original para o som e a forma de poetizar regional de Pernambuco. Ufa. Foi show, hein?

A Virada Cultural bateu a 15ª edição em um cenário político que não só não valoriza, como cerceia a cultura. Ainda assim, o centro ficou lotado e a cultura se provou mais uma vez o melhor ponto de encontros e de ideias rumo à evolução. Agora bora dobrar a meta, vivendo e valorizando a cultura o ano todo. Tem sempre show de graça e isso é muito bom, mas é preciso também fortalecer nossos artistas de forma consciente. Dos grandes aos pequenos. Que sem cultura a gente não é nada.

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Gabriela Rassy
Jornalista enraizada na cultura, caçadora de arte e badalação nas capitais ensolaradas desse Brasil, entusiasta da cena musical noturna e fervida por natureza.

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