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Acordos e mais acordos. Como definir uma abertura no relacionamento?

por: Clariana Leal

Não existe situação mais clássica num relacionamento, do que aquela onde alguém quer uma coisa enquanto a outra deseja algo completamente diferente. E nisso eu coloco aqui todas as relações. Familiares, de amizade, românticas, com colegas de trabalho, etc. Todo mundo discorda em algum momento, e isso faz parte da convivência humana. Acontece porque somos únicos e temos diferentes bagagens emocionais.

Mas os acordos devem ser ajustados em conjunto, pro bem de todos os envolvidos. Porque isso é sobre consentimento. E não existe relação sem consentimento. Pessoalmente, acredito que a base de qualquer relacionamento romântico é respeito, comunicação/consentimento e tesão (não só o tesão sexual, já pararam pra pensar que, às vezes, admiração e afeto também são formas de tesão?). 

Conversando com meus queridos seguidores do Instagram pra saber qual a maior questão deles dentro de um namoro, uma pergunta foi quase que unânime: “Como faço pra abrir meu relacionamento?”. É o que muitos querem saber e eu não fico nada surpresa com isso.

 

É importantíssimo entender, antes de tudo, que relacionamento aberto NÃO salva nenhum namoro com bases fracas e já se encaminhando pro fim. Não adianta. Na verdade isso só piora, e a pobre da abertura que acaba ganhando toda culpa do término. Portanto, certifique que o terreno esteja sólido antes de se aventurar. Saber que os dois estão genuinamente dispostos a conversar sobre as aberturas também é importante. Tem que ser uma via de mão dupla. Nada de entrar em algo só pra agradar o outro, isso é perigoso e pode machucar.

Existe todo um espectro das aberturas. As formas de se relacionar além da monogamia são quase infinitas. E só vocês podem entender qual tipo de abertura que vai funcionar melhor. Tem gente que é 100% tranquilão com tudo. Mas tem gente que vai querer que o outro não durma fora, ou não tenha outro namoro paralelo, ou sei lá, que não se apaixone por outras pessoas. Essa última eu já acho meio complicada, já que não escolhemos por quem nos apaixonamos, e isso é inclusive o maior motivo de mentiras e brigas em relações fechadas. Mas o principal, mais uma vez, é a comunicação. Eu sei, eu sei, lá vai de novo essa coisa, acho até que vocês vão cansar do tanto que eu vou falar da importância do diálogo, mas é importante reforçar. E não existe maneira errada de viver essas aberturas não, viu? Tá tudo certo desde que o cuidado, respeito e equidade andem sempre junto.

Existem dois jeitos possíveis para que vocês entendam qual a melhor conjuntura nessa relação: se conhecendo e tentando. Se conhecer nesse caso é primordial porque só vocês mesmos que podem verbalizar e ajustar seus limites, ciúmes, inseguranças e questões a serem acertadas. E é só tentando pra saber o que funciona na teoria e o que funciona na prática. Muitas vezes nos damos bem com um modelo que nem tínhamos imaginado antes, e é arriscando que se descobre esse tipo de coisa. Assim como algumas vezes, algo que parecia ser uma ótima ideia acaba sendo uma decepção na hora. Portanto contem com adaptações e ajustes constantes pelo caminho. 

ilustração: Jochen Schievink

Saibam também que nada do que vocês decidirem deve ser eterno e ponto final. Existem pausas, momentos de introspecção e outras coisas que vocês podem decidir aplicar sempre que acharem necessário. Dá pra ser não-monogâmico e passar longos tempos sem se relacionar com mais ninguém. 

Lembrem-se: relações abertas não são bagunça.

É realmente muito tranquilo adentrar nesse mundo depois que entendemos isso e outras coisas. Tipo que sentir atração por outras pessoas não te torna menos apaixonadíssimo pela pessoa que você já ama, ou que ter uma relação que difere daquele padrão que nos foi imposto a vida inteira não nos torna pessoas menos sérias (bons profissionais, bons pais, bons amigos), que esperar que uma única pessoa nos ofereça tu-do aquilo que queremos talvez seja um peso cruel demais pra depositar no outro, que isso também é sobre amor, e uma lista infinita de coisas importante que a sociedade nos ensinou exatamente o contrário. 

E por último mas não menos importante, além do que já disse antes de honesto consigo mesmo, ser honesto com TODOS os envolvidos nessa relação é extremamente necessário! Seus parceiros, peguetes, flertes, etc, todo mundo tem o direito de saber em qual campo está entrando e até onde pode ir. De novo, isso é consentimento.

No mais, meus amores, amem o quanto vocês conseguirem. Descontruam as ideias posse e apego (e como lidar com ciúmes vai ser um outro texto). E estejam prontos pra gozar de um novo jeito o companheirismo e o respeito que tanto buscamos nessa vida. 

Pra ler ouvindo o que Caetano nos disse em 1968:

“Não importa com quem você se deite

Que você se deleite seja com quem for

Apenas te peço que aceite

O meu estranho amor

Ah mainha deixa o ciúme chegar

Deixa o ciúme passar e sigamos juntos”

(música Nosso Estranho Amor – Caetano Veloso)

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Clariana Leal
Clariana Leal, educadora sexual e criadora da Climaxxx, primeira sex shop focada pro prazer feminino no Brasil. Estuda, fala e ensina de sexualidade de forma sensível, inclusiva e sempre sem nenhum climão.

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