Reportagem Hypeness

Demos um rolê entre as pérolas da arquitetura modernista de Higienópolis

por: Brunella Nunes

São Paulo é cheia de pérolas, mas por vezes suas brutas silhuetas impedem as pessoas de enxergar além. Na vontade de mirar o céu, quem olha para cima geralmente só vê uma infinidade de prédios em diversos tamanhos. Só que existe beleza nisso tudo, sabia? Te convidamos a fazer um rolê com a gente para se encantar pela arquitetura modernista em Higienópolis, um bairro que vai te deixar até com vontade de pagar ainda mais caro no aluguel. Ou quase isso.

É engraçado notar como a verticalização mudou na metrópole ao longo dos anos. O que antes era cheio de graça e singularidade agora parece insosso, com raras ressalvas de grupos que investem em construções mais criativas. A cada esquina surge um novo empreendimento, com grandes chances de tornar o cenário ainda mais tedioso a quem já se acostumou com os muros, câmeras, andares de garagem horrorosos, uma cafonice pseudo “neoclássica” e os inúmeros portões que os cercam. Zero convidativo, inclusive para os olhos.

Mas nem sempre foi assim. No período de pós-guerra da Europa despedaçada, tudo precisava ser reerguido de uma maneira econômica, salubre e em grande volume, para atender um grande número de pessoas desamparadas. Em solo brasileiro, o modernismo se instalou como movimento cultural, dividindo-se em três gerações distintas. A primeira foi em 1922, sob a alcunha de grandes artistas como Mário de Andrade, Oswald de Andrade e Manoel Bandeira, com o objetivo de valorizar a identidade do país e romper com as regras importadas. Uma tentativa que perdura até hoje, diga-se de passagem.

Sediando a polêmica Semana de Arte Moderna de 1922, São Paulo acabou por alastrar as características modernas do país que, até então, desprovia da mesma tecnologia europeia. Embora os conceitos modernistas tenham cruzado o oceano, chegou através de mentes interessadas em adaptá-los às características tupiniquins. Na arquitetura, tínhamos nomes como Le Corbusier, Donat Agache e Marcello Piacentini, que não encontravam seu lugar ao sol diante da crise econômica do Velho Continente.

Assim chegou também o ucraniano Gregori Warchavchik*, responsável pelo o que foi considerada a primeira casa moderna no Brasil. A hoje chamada de Casa Modernista  -  aberta para visitação  - , era sua antiga residência, erguida em 1928 no bairro Santa Cruz, causando grande alvoroço na época. Inspirado pela Escola Bauhaus, da Alemanha, queria transcender. E assim fez.

As obras assinadas por ele se espalham por muitos lugares da cidade, pingando também entre Higienópolis e Pacaembu, com uma Casa Modernista na Rua Itápolis. Quando abriu as portas para uma exposição em 1930, chegou a receber 20 mil pessoas, incluindo a galerinha intelectual que penava para fazer o modernismo acontecer e ser aceito no país.

“Exemplos de elementos que caracterizam a Arquitetura Moderna Brasileira são o concreto armado, que se difundiu tecnicamente de uma maneira bastante particular; o brise-soleil, que atende as premissas da fachada moderna e ao mesmo tempo protege da insolação abundante; e o cobogó, que tem origem na cultura árabe, também herdada, mas que se atualiza nas concepções modernas”, explicou a arquiteta Camila Oliveira, que atualmente trabalha com Gerenciamento de Obras no Rio de Janeiro e fã autodeclarada de Warchavchik.

No meio do rebu todo, a verticalização começou. E trouxe na mala de ideias edifícios munidos de uma grande quantidade de apartamentos bem amplos, com janelas do chão ao teto, colunas, pastilhas, painéis artísticos, grades de ferro fundido, materiais nobres e jardins tanto no chão quanto nas alturas. Para quem acha que telhado verde é inovação, estes prédios provam que não. Valorizava-se a integração da arquitetura com o paisagismo e as artes plásticas, seguindo formas geométricas definidas.

Em meados do século 20, Higienópolis foi planejado e despontou nessa leva de construções feitas para abrigar mais gente, sob a tutela de outros gênios vanguardistas como João Artacho Jurado, arquiteto autoditada que assina alguns dos mais belos edifícios de São Paulo. Certamente os pedestres mais atentos não escapam de suas obras inventivas, que são a cara do Brasil: tudo junto e misturado.

Antiga moradora do bairro, Camila aprecia a região por ser arborizada e ter ruas largas, além de ser um lugar onde as pessoas andam muito a pé. Voltando de Barcelona, teve a sorte de morar no Edifício Apracs, ou Parque das Acácias, projetado por Artacho no final da década de 50, porém concluído apenas em 1960. “O edifício com uma plástica espetacular. O que eu mais gosto é o espaço do térreo, o entrar e sair de cada dia, e o da cobertura, visitado com pouca frequência. Também me encanto com os materiais: as pastilhas coloridas, o granilite bem feito, como não se faz mais hoje em dia, as formas e as cores”, disse.

Lá do alto, o edifício mostra que a paisagem urbana também tem seu valor. É possível ver o vizinho, o edifício Parque das Hortências, também assinado por Artacho, o centro de São Paulo, e ao fundo, a Serra da Cantareira.

 

Detalhes do Edifício Apracs

As obras de Artacho realmente são um deleite. Ao adentrar no Condomínio Bretagne, você se sente meio Alice no País das Maravilhas, uma criança curiosa por todos aqueles elementos diferentes entre si que, de alguma forma mágica, combinam, se completam. Não apenas fazem sentido, mas trazem sentido. Ao notar minha cara de deslumbre, o fotógrafo e empresário Sidney Haddad logo comentou, empolgadíssimo: “como ele era doido, né! Olha essas colunas”, apontando para a decoração marajoara em uma das pontas.

Coisa mais kitsch do mundo é esse prédio. Construído em formato de L, conta com pastilhas coloridas, cobogós, painéis pintados ao lado de cada elevador, luminárias Art Déco, azulejos, mármore e estátuas clássicas. O encantamento fica ainda maior para os privilegiados que chegam ao topo, onde paira um jardim cheio de cores e vistas alucinantes. Nessa área do prédio é possível ter a certeza de que você seguiu o Coelho Maluco ou o caminho de tijolos amarelos, de O Mágico de Oz.

Foi por causa dos pais apreciadores de arte que Haddad foi parar ali. O apartamento foi comprado em 1958, em pleno lançamento, e servia para acolher a família quando vinham do interior para a capital. Entre idas e vindas ao longo da vida, ele morou em outros países e ao retornar para o Brasil, até tentou morar em outros edifícios, mas o bom filho à casa torna.

Para o fotógrafo, é a área comum, que salão de festas, sala de música, sala de jogos, espaço para crianças pequenas, playground, piscina e um bar escondido, os responsáveis pela escolha. “Isso permite um nível de convivência, talvez pelo tempo em que estes aparelhos funcionam, que nunca vi em prédios mais modernos e com o mesmo aparato. E, consequentemente, o contato e a possibilidade de troca de informações entre todos que ali vivem, como em uma espécie de pequena cidade.

Hoje é estranho pensar que nas décadas de 1970 e 1980 o bairro entrou em decadência. Mas os sortudos que garantiram um concorridíssimo apartamento na modernista Higienópolis realmente se deram bem, porque uma década depois, a revista inglesa Wallpaper divulgou que aquele seria um dos melhores lugares do mundo para se morar. Pronto, foi o suficiente para o mérito prevalecer até os dias atuais.

A sala de música do Edifício Bretagne tem paredes de vidro. Seria uma estufa artística?

Ainda assim, tanto o Apracs quanto do Bretagne já enfrentaram outros desafios, mais recentes. O primeiro teve uma mobilização dos moradores com relação às propostas de reforma, que pareciam descabidas e apontavam para a descaracterização do edifício; já o segundo luta contra os possíveis impactos do setor imobiliário nos arredores. Em 2017, o terreno ao lado foi vendido para uma construtora, que planejava erguer um grande edifício. Essa briga por território é infinita, mas caberia às empreiteiras utilizarem um pouquinho do bom senso e respeito à história de SP.

Entre altos e baixos, o melhor a se fazer é realmente tirar um tempo para apreciar as obras arquitetônicas enquanto permanecem intactas. O Parque das Hortênsias (na Av. Angélica), o Cinderela (rua Maranhão) e o Piauí (rua Piauí) também saíram da delirante (e kitsch) prancheta de Artacho. Já o Edifício Prudência é assinado por outra mente brilhante: Rino Levi, com azulejos e paisagismo de Roberto Burle Marx. No Edifício Arper e no Edifício Alomy, outro nome conhecido na assinatura: David Libeskind. Vale a pena incluir no roteiro paradas no Condomínio Edifício Alagoas (da construtora Barreto Xandi & Cia), o Edifício Buenos Aires (Majer Botkowski), o Edifício Santo André (Jacques Pilon), o Edifício Lausanne (Franz Heep) e o Edifício Louveira (Vilanova Artigas).

Mas estes são os mais famosos. Andando pelas ruas do bairro você encontra muito mais exemplos de arquitetura modernista, com detalhes interessantes, como o Edifício Irajá (de Rubens Corsi, com painel artístico de Clovis Graciano), o Edifício Paquita (de Aldred Josef Duntuch), o Edifício Nobel (de Maria Bardeli) e o Edifício Corina (de Bernardo Rzezak).

Camila avalia que desse período, ficou para a cidade um significativo patrimônio cultural com muitas obras de alta qualidade em uma área relativamente restrita, o que não ocorre em outros bairros da cidade. Continuo acreditando que os conceitos modernos são atemporais e que podem e devem existir na arquitetura atual. O que nos impede de ser fiel a eles hoje em dia é o preço do metro quadrado que restringe os espaços livres e o medo da violência, que segrega os edifícios cercados e isolados, perdendo a integração deles com a cidade”, argumentou.

A insegurança é realmente um problema em São Paulo. E concreto virou munição contra o crime. Mas no final das contas quem fica preso são os moradores, não os supostos criminosos. A liberdade é sempre uma escolha, e se faz necessária no resgate da criatividade e funcionalidade de outros tempos. Enxergar além dos muros que isolam é sim uma tarefa árdua, mas não impossível.

 

No parapeito das janelas, um corredor verde: aparato difícil de encontrar nos edifícios atuais.

O Edifício Parque das Hortênsias também conta com detalhes os lúdicos e coloridos de Artacho

Detalhes revelam as misturas criativas que Artacho Jurado colocou no Edifíco Bretagne

Edifício Lausanne e suas janelas coloridas. Cada uma delas pertence a 60 apartamentos de 180 m², erguidos em 1958.

Se integrando com a Praça Vilaboim, o Louveira, de 1946, é um dos mais cobiçados do bairro 

Edifício Corina: parece até que foi construído ontem. Mas é de 1964. 

O pintor e muralista Bramante Buffoni assina o painel de mosaicos do Edifício Nobel, de 1958

Rino Levi deixou sua marca no bairro com o imponente Edifício Prudência. Os apartamentos têm de 315 a 350 m².

Apelidado de navio e bolo de noiva, o Edifício Domus é de 1960.

O bar menos apreciado da cidade

Muita gente não sabe disso, mas vou revelar um segredo. Existe um bar no Edifício Bretagne, frequentado apenas por moradores e seus convidados. Cheio de potencial, no momento ele se divide entre o glamour e o decadente, porque não é bem um bar com drinks maravilhosos e bons petiscos, embora conte com luz baixa, espaços amplos e peças de design de 1950 e 1960.

No momento, permanece como um local de encontro, vez ou outra, entre os vizinhos mais animados, contando com um balcão bem semelhante aos saudosos botecos de esquina. Chegou em minhas mãos até um projeto já pronto para transformá-lo em um lugar acolhedor, o Bar do Brê, como foi apelidado. Mas ninguém abraçou a ideia ainda. Fica a dica!

*Tome nota: até o dia 23 de junho de 2019, a mostra Ocupação Gregori Warchavchik segue em cartaz no Itaú Cultural e no Museu Lasar Segall. Reúne fotos, mobiliário, maquetes e plantas de suas icônicas obras. A entrada é gratuita.

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Todas as fotos por Brunella Nunes


Brunella Nunes
Jornalista por completo e absoluto amor a causa, Brunella vive em São Paulo, essa cidade louca que é palco de boa parte de suas histórias. Tem paixão e formação em artes, além de se interessar por ciência, tecnologia, sustentabilidade e outras cositas más. Escreve sobre inovação, cultura, viagem, comportamento e o que mais der na telha.

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