Reportagem Hypeness

Donas da praia: as surfistas que estão dropando as desigualdades de gênero no esporte

por: Gabrielle Estevans

Se você acompanha o surfe, já deve ter ouvido falar da “Tempestade brasileira”, em referência aos atletas que invadiram o campeonato mundial e que estão batendo recordes e trazendo títulos para casa. Entre o fenômeno esportivo, nenhuma mulher citada — ainda. E não é por falta de talento ou de entrega na performance. Entre os 13 nomes na elite do esporte, dois são femininos: Tatiana Weston-Webb, a havaiana-brasileira que vestiu a lycra verde e amarela em 2018 e é aposta brazuca, e Silvana Lima, que atingiu a marca de melhor surfista brasileira por oito vezes e chegou ao vice-campeonato mundial em duas oportunidades. Em 2019, depois de 27 anos de disparidade, ambas irão presenciar algo inédito: o circuito mundial terá suas premiações masculina e feminina equiparadas.

O acontecimento histórico faz parte de uma série de compromissos firmados pela World Surf League. Presidida pela primeira vez por uma mulher, a WSL terá outras ações mirando a equidade de gênero dentro de suas competições, desde competir na mesma qualidade de ondas até maior apoio e investimento no surfe feminino. Para Sophie Golschmidt, CEO e uma das poucas executivas femininas a estar à frente de uma liga esportiva global para atletas profissionais masculinos e femininos, esta mudança era, simplesmente, a coisa certa a se fazer.

As conquistas são consideravelmente importantes, mas ainda há muito a ser feito. Dos fatos mais simples e com mensagens sutis (sim, ainda há lycra rosa na bateria das competidoras) a práticas sérias e que precisam urgentemente serem eliminadas, como a sexualização das surfistas, é urgente que a equidade de gênero não deixe de ser abordada e trabalhada dentro do esporte que tem ganhado fôlego e fãs pelo mundo — em 2020 o surfe chega em Tóquio, para fazer parte pela primeira vez de uma Olimpíadas.

Tatiana Weston-Webb, meio havaiana, meio gaúcha

“Ela surfa que nem homem”

Assim como as jogadores de futebol na Copa do Mundo, as surfistas também enfrentam comparações quando o assunto é performance. Cristiane, o destaque da seleção brasileira, passou a ser, de forma machista, chamada de Cristiane Ronaldo. Nas praias, não é raro ouvir que tal mulher surfa que nem homem ou que até que ela surfa bem para uma mulher. Dentro do mar, o machismo também enfrenta a rebentação: a invisibilização ou diminuição das atletas por parte dos praticantes masculinos faz com que elas tenham constantemente de brigar para ficar em pé de igualdade nas ondas. Para Silvana Lima, esse é um dos pontos que ainda precisam ser transformados dentro das competições profissionais:

Jamais imaginaria que as premiações poderiam chegar ao mesmo patamar e chegaram. Agora, acho que o que ainda pode mudar é dentro do mar. Quando a organização libera uma ou duas horas para os atletas antes das baterias, os homens ainda ignoram as mulheres na água. Todo mundo quer pegar uma onda boa e nesse cenário as mulheres precisam batalhar mais para procurar seu espaço. Por isso, acho que esses treinos deveriam ser separados.

Silvana Lima, octacampeã brasileira

Vale lembrar que, há três anos, eram os homens que ficavam com o mar com melhores condições para surfar. Numa entrevista para a TPM, em 2015, a surfista profissional Suelen Naraísa foi porta-voz dos pedidos de mudança por mais igualdade na escolha das ondas:

Sempre fomos a segunda opção nos eventos, surfando nos piores momentos do mar. Como querem que a gente mostre todo nosso potencial?.

Hoje, a diferenciação não existe mais. Elas ganharam espaço e têm o direito igualitário na escolha da condição para competir. Aos homens, em mares profissionais ou amadores, cabe reconhecer seus privilégios e também endossar o coro de equidade. Para o surfista profissional Yago Dora, a possibilidade do feminino ter o benefício de escolher as condições em que querem surfar é não só justa como fundamental para que o esporte se desenvolva: “Era muito nítido que antes as mulheres pegavam a sobra do masculino, que ficavam com os dias em que os homens não queriam competir. Isso tem mudado bastante pelo que tenho visto e acompanhado de perto. Às vezes, elas acabam até pegando um mar melhor que o nosso — e acho que isso é o justo, obviamente. Que elas tenha o mesmo direito e que tenham a chance de surfar exatamente nas condições que desejam para, assim, mostrarem seu potencial num momento tão importante para o surfe feminino”.

“Crowd florido”

Em 2015, Pedro Falcão, o diretor executivo da Associação Brasileira de Surf Profissional (Abrasp), aproveitou a repercussão do Campeonato Brasileiro de Surf Feminino — organizado de forma independente por atletas depois de um hiato de cinco anos — para dar uma declaração machista e trazer à tona uma discussão importante sobre o esporte. À época, Falcão disse que o surfe precisava de mulheres bonitas para crescer, o famoso “crowd florido”, em referência ao termo usado para designar muita gente surfando em uma mesma área. A fala deixava explícita a forma como os corpos das surfistas eram tratados — mais para espetacularizar os campeonatos e menos para fomentar o esporte feminino.

Há um padrão estético dentro do surf e ele funciona apenas para mulheres. Se a surfista foge do estereótipo, conseguir apoio e patrocínio pode ser um desafio e tanto. As diferenças nas imagens entre homens e mulheres no esporte são gritantes. Por opção editorial, não iremos reproduzir nesta reportagem fotos sexistas que reduzem à mulher a seu aspecto físico, mas fica evidente como há, nesses registros, a performance do lado masculino e a boa forma do lado feminino.

No episódio protagonizado por Pedro Falcão, mais uma vez Suelen Naraísa saiu em defesa do combate ao machismo e sexismo tão presentes no surfe. A surfista organizou uma nota de repúdio — abraçada por outras cinquenta surfistas entre profissionais e amadoras — que ganhou as redes sociais e foi transformada num movimento de resistência. Naraísa tem, aliás, uma história e tanto de determinação. A menina que começou a surfar aos oito anos de idade, enfrentou um câncer aos 13, profissionalizou-se e conquistou títulos importantes. Mesmo assim, nos últimos anos, viu-se sem patrocínio e decidiu empreender em uma jornada por mais inclusão no esporte. Nadando contra a corrente, abriu uma escola de surfe em Itamambuca, litoral paulista, especializada em aulas, eventos e viagens de surf destinadas às mulheres.

Suelen Naraísa luta por equidade no surf

Foi em uma dessas iniciativas voltada para mulheres que a publicitária Noah Maia encontrou nas ondas uma ferramenta de empoderamento e libertação. Diz que apesar de amar a praia desde pequena e ter lembranças de uma infância à beira-mar, nunca foi incentivada a praticar esportes aquáticos: “Aos 26, comecei a namorar um surfista e ficava sempre na areia curtindo o sol ou lendo um livro. Com o término desse relacionamento bastante abusivo, fiquei despedaçada. Enquanto tentava me reconstruir e trabalhar minha autoestima, encontrei um grupo de mulheres que fazia um bate-volta para o Guarujá com aulas de yoga e surf. Fiz a inscrição na hora e nunca mais parei. O surf me transformou da namorada que ficava na areia à protagonista da minha própria história. Surfar foi uma superação enorme das minhas barreiras. De perceber que eu também conseguia atravessar a marola, chegar no outside e pegar onda nos cantos mágicos destinados somente aos homens”, relembra.

Quando tem homem no mar, Maia diz que ainda se sente intimidada: “A sensação é que você está sendo observada o tempo todo. Eles querem ver se você realmente vai conseguir pegar a onda. Tem uma pressão enorme. Sem contar quando você tem a prioridade e eles simplesmente ignoram porque, como você é mulher, consideram que você surfa pior que eles”. No Oi Rio Pro, etapa do mundial que aconteceu no último final de semana em Saquarema, a surfista  estava acompanhando a bateria feminina quando notou que praticantes amadores estavam invadindo a área demarcada com boias e dedicada ao evento. “Se fossem os homens competindo, isso jamais teria acontecido. Os comentaristas tiveram de pedir para que eles saíssem da área demarcada para a competição”, explica. Em vídeo exclusivo enviado ao Hypeness, Noah Maia mostra o desrespeito com a bateria feminina: 

“Pensei que você não ia”

Rabear é denominação para algo que, a princípio, não se deve fazer no surfe, mas que, claro, acontece com frequência. É quando um surfista já está na onda, descendo a parede, e outro surfista dropa na frente dele. Metaforicamente falando, pode ser usado, também, para explicar o que acontece às mulheres dentro de mares profissionais e amadores. Mas elas estão unidas. “O cenário de desigualdade está mudando muito. Estamos colocando mais pressão em quem toma as decisões importantes. Nossas forças, juntas, vão fazer com que fique cada vez melhor para nós, meninas e mulheres. Temos de sempre, no surfe, ter respeito por nós mesmas”, diz Tati Weston-Webb. E se a expressão “pensei que você não ia” é comumente usada depois de uma rabeada clássica, a resposta feminina já está na ponta da língua: elas estão indo — e não, elas não irão parar!

 

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Gabrielle Estevans
Jornalista, escreve sobre gênero, cultura e política. Também trabalha com pesquisa, planejamento estratégico e projetos com propósito e impacto social.

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