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“É um direito à vida”: mães mostram urgência da legalização da maconha

por: Gabriela Rassy

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“Mas por que então é proibido?”. Ouvir essa pergunta indignada da boca do meu pai, uma pessoa que, ainda que esclarecida, sempre repudiou qualquer droga, foi uma daquelas pequenas vitórias diárias. Neste ano, pela primeira vez, expus a todos da família, trabalho e quem mais quisesse ler que eu sou a favor da legalização da maconha. Maconha mesmo. Não cannabis, canabidiol ou qualquer nome que venha a camuflar do que estamos falando.

É preciso legalizar a maconha e os motivos não são poucos. Depois de muitos anos vivendo o peso que é estar entre o bem estar e o tráfico, passei a ser categórica: precisamos saber muito mais do que só a brisa que a erva dá para conscientizar nossa sociedade da urgência deste tema.

Durante a Marcha da Maconha deste ano, um trenzinho da alegria levava em segurança, em meio às 100 mil pessoas que lotavam a Avenida Paulista, um grupo de crianças e suas famílias. Ao redor dele, placas dizendo “O que você chama de droga é o remédio da minha filha”, “E se fosse seu filho? Não espere precisar para participar” e “Que as flores vençam os canhões”.

Boa parte das família ali eram integrantes da Cultive, uma associação sem fins lucrativos criada por e para pacientes e acompanhantes usuários da cannabis terapêutica.

 

Direto à Vida

“A Cultive nasceu da dor”, conta Cidinha sobre como se uniu a outras famílias que buscavam alívio. Sua filha Clara, hoje com 16 anos, tem Síndrome de Dravet, uma patologia que faz com que o paciente tenha uma série de convulsões fortíssimas, com risco de morte súbita. Clara teve seu primeiro episódio com 5 meses e com 8 já somava 600, cada um de pelo menos 1h.

Em 2013, Cidinha teve conhecimento do caso de Charlotte Figi e passou a buscar formas de conseguir o óleo de maconha. “Em 2014 eu consegui importar o óleo ilegalmente e já vi que foi um efeito maravilhoso e muito rápido na minha filha. Na época eu já comecei a cultivar por que eu não tinha condições de importar. Paguei 500 dólares a importação, o que era totalmente fora da minha realidade”, conta a mãe.

O caso se tornou público e muitos pacientes começaram a procurar Cidinha para tratar seus familiares, daí surgiu a Cultive. A associação faz um trabalho de conscientização para que as pessoas saibam que elas mesmos podem fazer seu remédio, cultivar, entrar na justiça e lutar por esses direitos.

“Eu entendo que é um direito legítimo por que é um direito à vida. A gente não está prejudicando ninguém, ao contrário, estou tirando a minha filha do risco de morte, assim como muitos pacientes estão buscando o alívio. Cultivar não pode ser crime”, afirma Cidinha.

O que o Cultive faz, além de ensinar a cultivar, oferece cursos sobre a história da proibição, palestras com médicos, com engenheiros agrônomos, neurocientistas, farmacêuticos, cultivadores e advogados. A ideia é que todos entendam as melhores práticas de cultivo e de extração de óleo doméstica de qualidade. “Nós não podemos esperar uma regulamentação. Se o Estado não faz nada por nós, então nós temos que fazer por nós mesmos. Então é buscar os nossos direitos, não ficar com os braços cruzados e realmente fazer o remédio para os nossos filhos”, conclui.

Do ponto de vista médico, a maconha é o novo antibiótico. E mais: chega para fazer uma contraposição à indústria farmacêutica. “Dentro do óleo da cannabis existem mais de 60 tipos de fitocanabinoides que atuam juntos em inúmeras doenças, inclusive da psiquiatria. Com o óleo temos um resultado muito superior se comparado a diversos dos remédios mais usados, como rivotril e valium. É uma indústria que é de contracultura, ela não interessa ao sistema, mas os resultados são inegáveis”, explica Mariana Muniz, residente de psiquiatria e ativista pela legalização da maconha.

Para Mariana, a legalização é o acesso à saúde. É o acesso a uma planta que está sendo estudada no mundo todo enquanto a gente fica para trás por conta de um preconceito infundado.

Assim, vendo todas as famílias que sofrem e poderiam ter a dor amenizada pelo óleo, é quase surreal que a planta ainda seja proibida. Daí o choque do meu pai e a dúvida: mas por quê?

A proibição e a legalização

Já somamos quase 100 anos de proibição e, no meio disso, uma falida guerra contra as drogas. Ora, se cada ano as drogas vencem a tal guerra, por que governo após governo investem tempo, dinheiro e vidas nessa batalha? Para entender isso, temos que voltar um pouco atrás na história.

O consumo de baseados nos Estados Unidos sempre esteve associado aos negros e mexicanos. Músicos de jazz em New Orleans, que atraiam cada vez mais a juventude branca e curiosa tanto pela música quanto pela droga misteriosa que dava tom às JAMs. Louis Armstrong, por exemplo, era um grande defensor da maconha, o que não é segredo nenhum para alguém que já ouviu suas músicas. Esse clima de mistura entre negros, imigrantes e brancos não agradava nem um pouco o americano médio.

Nos anos 20, alguns Estados começaram a proibir a maconha – inclusive a Califórnia. O próprio Armstrong chegou a ser preso em 1930 enquanto dava um tapa no intervalo de um show.

Talvez o maior culpado pela demonização da maconha, começando lá nos EUA, tenha sido Herry Anslinger, o comissário de narcóticos do Departamento do Tesouro dos EUA. Ele que declarou guerra a maconha em especial alegando que via o consumo em certos bairros e regiões de população conhecidas por terem um grande número de pessoas negras. A partir daí começou uma fábrica de fake news associado diversos assassinatos e desgraças ao uso da maconha por um mexicano ou negro, como explica muito detalhadamente o documentário “Baseado em Fatos Raciais”, disponível no Netflix.

Aqui, como sempre influenciados pelos americanos do norte, a história não foi muito diferente e, pior, segue exatamente assim até hoje. Não é estranho então que, no país com a terceira maior população carcerária do mundo, 25% dos presos estejam ali por porte de drogas e que 76% deles seja preto. No caso das mulheres, a história é ainda mais grave. 65% das mulheres estão presas por assuntos relacionados a drogas e 86% delas são pretas. Não precisa ser um gênio da matemática para entender que o sistema é racista.

O advogado criminalista Guilherme Perisse explica que a injustiça não para na cor. “Tem certos bairros que as pessoas são presas por tráfico por uma quantidade e tem certos bairros em que com a mesma quantidade ou muito mais a pessoa é tratada como usuária. Então a gente sabe que é uma questão muito preconceituosa”, afirma.

Se temos então uma planta que cresce com sucesso e vem liderando pesquisas para benefícios inúmeros à saúde, por que a guerra? “Ao que parece é que a questão das drogas é uma forma de prender as pessoas que o sistema considera indesejadas. É uma grande desculpa para encarcerar, para ser violento, para matar. Na prática é com certeza direcionada a uma parcela da população”, conclui Guilherme.

“Não é uma guerra contra uma substância, é contra as periferias, contra as pessoas da minha cor”, concorda Diva Sativa, integrante da Marcha da Maconha, do Coletivo DAR e do Morato Legalize. Ela vive, junto aos ativistas pela legalização, a luta por uma droga de qualidade e pelo fim da guerra.

O coletivo A Craco Resiste mostra que o lado do preconceito é uma pauta urgente a ser debatida. Eles desejam ampliar a pauta da legalização da maconha para as outras drogas é revelar o caráter seletivo do proibicionismo.

“Atuando ali toda semana, a nossa dificuldade é destituir o que é o dano da droga e o que é o dano do Estado. As coisas se misturam quando você trata de pessoas que tão vulnerabilizadas e encurraladas”, explica Ariel, integrante do coletivo. “O importante da legalização é desconstruir essa naturalização do estigma do usuário de droga. Todo mundo é usuário de droga em certo nível”, diz Ariel se referindo aos medicamentos que toda a população toma e aceita.

Em que pé estamos?

Se nosso modelo inspirador para começar a repressão à flor de maconha começou nos Estados Unidos, hoje a guerra está tão incorporada no sistema que deixamos de olhar para a legalização vinda do vizinho de cima.

Desde 2015, a Anvisa autoriza pedidos para importação a base de maconha, principalmente o CBD ou canabidiol. De lá pra cá, a base de muito estresse, mais de 6 mil pacientes já conseguiram autorização para o uso. Vale ver como esse processo não é nada fácil no documentário “Ilegal”, que mostra a luta das mães brasileiras para conseguir que a importação não seja retida nos correios.

Autorizar a importação, porém, esbarra numa questão de soberania nacional. Se podemos importar por que não podemos plantar e desenvolver por aqui mesmo um remédio de qualidade, com pesquisas feitas em território nacional? Como relatou Cidinha, o custo de 5 mil dólares ou 2 mil reais mensais está bem longe da realidade do nosso país.

Neste sentido, a Anvisa deve debater o aval para o plantio de maconha para fins medicinais exclusivamente nos próximos dias. A ideia é baixar os preços e aumentar a oferta de medicamentos com base na Cannabis. Se a proposta passar, a pauta fica 90 dias sub consulta pública até voltar para as mãos da Anvisa. Um pequeno passo para o mundo, um grande passo para esta terrinha tupiniquim. Quem diria que em 2019 a gente ainda iria matar e morrer por uma flor?

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Fotos: Gabriela Rassy


Gabriela Rassy
Jornalista enraizada na cultura, caçadora de arte e badalação nas capitais ensolaradas desse Brasil, entusiasta da cena musical noturna e fervida por natureza.

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