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Em SP, Obama dá o recado, ‘se você não inclui negros e mulheres, está deixando talento para trás’

por: Kauê Vieira

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A terceira e talvez mais importante visita de Barack Obama ao Brasil oferece três definições, diversidade, participação feminina e liderança. O 44º e primeiro negro presidente dos Estados Unidos revelou medo inicial de assumir o desafio de concorrer à Casa Branca, exaltou a grandeza da mulher Michelle e deu o recado, a homogeneidade masculina e caucasiana não vai te garantir sucesso.

“Se você não inclui os negros e as mulheres, você está deixando talentos para trás”, disse durante conversa para uma plateia de 10 mil pessoas – entre elas o Hypeness – no Vtex Day, em São Paulo.

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Barack Obama encanta pela simpatia e aparente simplicidade, no entanto estes são atributos insuficientes para tamanha representatividade. Ele é mais que isso. O presidente mais influente do século 21 possui história de vida bem diferente do perfil frequente em espaços de poder.

Feminismo, diversidade e educação são recados de Obama para o sucesso

Primeiro, Obama é negro. Nascido em Honolulu, no Havaí, é filho de pai queniano e mãe antropóloga especializada em desenvolvimento de zonas e comunidades gerais. Quando criança, ele morou com Ann, falecida em 1995, na Indonésia.

Aliás, pluralidade é um dos trunfos do mandatário que acumula diplomas de nada menos que Harvard e Columbia. Em São Paulo, fez questão de exaltar a educação como fator decisivo para o desenvolvimento e colocar fim na desigualdade social – maior desafio do século 21, segundo o ex-presidente.

“Se um professor só ganha um décimo ou um centésimo do que ganha um investidor, a educação não está valorizada o suficiente. O poder de um professor em instaurar confiança em uma criança é uma de suas maiores bênçãos. Mais tarde, na faculdade, tive muitos professores maravilhosos. A mais importante foi uma mulher, ativista no campus, que me deixou politicamente consciente”, concluiu diante de uma plateia formada só por educadores na primeira fila de um evento em que VIPs desembolsaram milhares de reais para ver o norte-americano de perto.

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Apesar de tratar a construção de seu espírito de líder com naturalidade, talvez de forma descontraída e bem havaiana, Obama deu o exemplo – usando a questão racial e a participação feminina em espaços de poder – do que é preciso para conduzir. E o ego não é bem-vindo.

Estávamos no período do apartheid. Eu era um jovem universitário politicamente ativo. Participei de comícios ao lado da ANC para aumentar o alcance e prestar solidariedade sobre os problemas enfrentados por eles na África do Sul. Eu me lembro da sensação após um breve discurso no comício, que não foi tão longo como gostaria. Fiquei desapontado. Minha professora disse algo que nunca esqueci, ‘isso não é sobre você, é sobre a causa. O sofrimento. Seus sentimentos e ego não são importantes’.

Na universidade, Obama lutou contra o apartheid ao lado do partido de Mandela

Obama, mais uma vez, lembrou dos aprendizados em se relacionar com pessoas de origens distintas dentro e fora de casa. “Não entendia todos os programas de TV. Me vestia diferente e me sentia deslocado”, falou sobre os momentos em que viveu longe dos Estados Unidos.

Sobre a professora e, sobretudo, o efeito da educação na vida de uma pessoa. “Esta lição foi mais importante do que tudo o que aprendi na sala de aula. Uma coisa que grandes professores fazem é ajudá-lo a se entender, seus valores e o que é importante. Um professor ruim pode te ensinar álgebra, vai ser chato, mas ele consegue. Já um bom professor pode te auxiliar a identificar o que te impede de ser quem você é”.

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E concluiu, “ela [a professora] me faz lembrar que se estivesse falando sério teria que deixar meu ego de lado e me fazer útil, não importando quanta atenção tivesse. Algo que carreguei para o resto da minha vida. É isso que um professor pode fazer”, sacramentou em meio aos aplausos do público.

O democrata preferiu não dar nomes, mas além de citar o sucesso do programa de saúde pública, o Obama Care,  o norte-americano criticou políticas adotadas por Donald Trump e Jair Bolsonaro, como o pouco investimento em criatividade, pessoas, flexibilização do acesso às armas e ausência de políticas públicas efetivas. Obama, novamente, associou crescimento econômico com igualdade social, de raça e gênero.

Obama falou para 10 mil pessoas em terceira passagem no Brasil

“Encaramos a caridade como um favor para as pessoas. Não, não, se você dá uma oportunidade para todos em seu país, a economia e mercado são mais fortes, suas empresas têm mais sucesso. Isso implica em escolhas. Falávamos sobre educação e professores, na Finlândia, professores ganham o mesmo que médicos e juízes e o treinamento para ser um professor é alto. Eles entendem que nada é mais importante que como ensinamos nossas crianças. Se pagamos aos nossos professores um terço do que investidores e banqueiros ganham, isso mostra que não nos importamos com nossos professores”.

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Ele colocou os Estados Unidos como exemplo negativo e apontou o machismo como explicação para a baixa remuneração dos educadores.

“Um dos motivos de que professores são mal remunerados nos EUA, é porque esta foi uma das únicas profissões em que mulheres podiam trabalhar. Então, os homens tiraram vantagem disso e pagaram pouco para elas”.

O ex-presidente criticou acesso às armas, “não faz sentido”

O governo de Jair Bolsonaro está determinado em adotar políticas armamentistas similares aos Estados Unidos. Decretos e flexibilização da posse são algumas das medidas defendidas pelo presidente de um país que concluiu 2018 com mais de 60 mil homicídios, é o que diz o Atlas da Violência.

Durante os dois termos na Casa Branca (2009-2017), Obama lutou contra o lobby das armas de fogo capitaneado pela Associação Nacional de Rifles (NRA), que apoiou Donald Trump. Sem sucesso.

Em oito anos, Barack Obama discursou 13 vezes sobre atentados a tiros em escolas, casas de shows, ruas e bares dos Estados Unidos. O ex-presidente revela que o massacre em uma escola de Newtown, em 2012, que matou 20 crianças entre 6 e 7 anos, foi o momento mais difícil de seu governo.

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“A coisa mais difícil [na Presidência] foi o tiroteio em uma escola e 20 crianças foram vítimas, assim como professores. A regulamentação de armas nos EUA não faz sentido. Todo mundo pode comprar uma arma. Podem comprar pela internet, [inclusive] armas automáticas”, criticou diante da audiência brasileira.

Emocionado, Obama explica que foi muito difícil “falar com os pais dessas crianças e, além de não poder trazê-las de volta, não ser capaz de assegurar mudanças. Queria dizer que era possível mudar a lei para que outras [famílias] não passassem pelo mesmo. Foi muito frustrante”, encerrou.

Foram 13 discursos sobre atendados a tiros em oito anos de governo

Ele ainda exaltou a administração, que durante 8 anos, “não teve escândalo, ninguém foi preso. Tivemos erros, meu governo não foi perfeito, mas foi íntegro”, afirmou no que parece outra alfinetada contra Donald Trump.

Barack Obama arranjou tempo para defender a participação feminina na política. Lembrando que nunca antes os Estados Unidos tiveram tantas candidatas à presidência mulheres.

“É importante ter pessoas que discordem para você ouvir. Por isso era importante pra mim ter sempre mulheres na mesa quando eu era presidente e precisava tomar uma decisão. Se sua organização só tem homens pensando da mesma maneira, você perde informações. Todos temos pontos cegos”.

No Brasil, Barack Obama se encontrou com Pelé e o cantor Gilberto Gil. Ele não gostou apenas do trânsito de São Paulo. “Amo o Brasil, mas o tráfego nesta cidade pode ser complicado, mesmo com batedores”, brincou sobre o breve atraso.

Esta foi a segunda vez que Obama esteve no Brasil, exaltado por ele como maior democracia do Hemisfério Sul ao lado dos EUA, depois de deixar a Casa Branca. Então presidente, em 2011, se encontrou com Dilma Rousseff em Brasília e esteve com a família no Rio de Janeiro.

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Fotos: foto 1: Everton Rosa/foto 2: Reprodução/foto 3: André Velozo/foto 4: Divulgação/foto 5: Everton Rosa


Kauê Vieira
Nascido na periferia da zona sul de São Paulo, Kauê Vieira é jornalista desde que se conhece por gente. Apaixonado pela profissão, acumula 10 anos de carreira, com destaque para passagens pela área de cultura. Foi coordenador de comunicação do Projeto Afreaka, idealizou duas edições de um festival promovendo encontros entre Brasil e África contemporânea, além de ter participado da produção de um livro paradidático sobre o ensino de África nas Escolas. Acumula ainda duas passagens pelo Portal Terra. Por fim, ao lado de suas funções no Hypeness, ministra um curso sobre mídia e representatividade e outras coisinhas mais.

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