Roteiro Hypeness

Estados Unidos raiz: alma musical e boa comida revivem New Orleans

por: Veronica Deviá

Os Estados Unidos são o destino mais visitados pelos brasileiros no exterior. Deve ser porque a sensação de ir para Miami ou Nova York é de estar num filme que você assistiu mil vezes — ou viu passando pelo seu feed outras tantas. Mickeys, hamburgeres e outlets são parte essencial dessa cultura, mas um dos maiores países do mundo tem muito mais a oferecer.

Se New Orleans ficou no seu imaginário por causa do Furacão Katrina que devastou a cidade em 2005, mude o repertório e os planos do seu próximo destino de férias. Renovada após o desastre, Nola renasceu e voltou melhor do que nunca: o berço do jazz e do blues está vivendo um renascimento da gastronomia, da vida cultural e da valorização da sua história.

Assim como o Brasil, New Orleans é conhecida pelo seu carnaval. Cheguei na Big Easy — ou facinha, traduzindo — na quarta-feira de cinzas. O clima era de ressaca, mas não de fim de festa. A tradição local manda que você compre beads, uns colares coloridos, e jogue ou troque com foliões enquanto as parades (os blocos locais) estiverem rolando. Por isso as ruas ficam tomadas por eles nas calçadas, postes, árvores e cercas de casas.

Até o bairro chique Garden District, cheio de mansões históricas e carvalhos centenários, não foge à tradição.

Até o bairro chique Garden District, cheio de mansões históricas e carvalhos centenários, não foge à tradição.

A parte mais turística da cidade é o French Quarter,  o bairro francês. Colonizado por franceses, o estado da Luisiânia — o Rei Luis XIV mandou beijos — fez da sua capital um marco de arquitetura com predinhos charmosos e sacadas com acabamentos floreados. Ali fica a famosa Bourbon Street, onde a partir do fim da tarde rola uma verdadeira “passarela do álcool”. Ao contrário do resto do país, aqui é permitido beber na rua e grupos de amigos, times de despedidas de solteiro e famílias se misturam entre bares, restaurantes e lojinhas de suvenir.

O melhor do bairro ainda é o histórico Preservation Hall. Fique na fila para um dos cinco shows diários numa sala para no máximo 40 pessoas, onde músicos veteranos tocam jazz clássico sem nenhuma amplificação enquanto contam histórias dos tempos de Louis Armstrong e dão risada uns dos outros. De chorar.

Fervo,  drinks e música na Bourbon Street. Mas o melhor é fugir do turístico e conhecer a Frenchmen Street.

Mas a dica é deixar o burburinho de lado e ir até o bairro vizinho de Marigny, onde a Frenchmen Street concentra os bares com shows. Cada porta te chama para um som ao vivo e todas valem a pena ser exploradas: big bands, rock clássico, conjuntos de metais, não importa. Os músicos são a alma da cidade e não é à toa que New Orleans atrai visitantes do mundo inteiro para isso. Eu fui ao Café Negril, The Spotted Cat, Blue Nile e Apple Barrel, cada um com um estilo e todos valeram a pena. Para beber, cervejas artesanais, bourbon ou drinks, já que aqui é a capital dos coquetéis.

Não dá nem pra cansar de bike: nenhuma subida e arquitetura que faz você parar a cada bloco.

Se a ressaca do dia seguinte permitir, um dos melhores passeios diurnos é alugar uma bicicleta. Pode parecer muito, mas um dia pedalando passa voando. Além da cidade ser plana, você pode visitar lugares como o Parque Louis Armstrong, parar em todas as casas coloridas de Tremé e Marigny, pegar uma brisa do Rio Missisipi e ir até o French Market. Lá é o melhor lugar para comprar temperos cajun nas lojinhas de especiarias e pimentas, comer os famosos beignets do Loretta’s ou no Café du Monde.

Prepare-se: a lista de pratos que você vai provar consegue ser mais extensa que os estilos musicais. Fusão das culturas negra e francesa, a culinária de New Orleans é para todos os gostos. Em Tremé, enfrente a fila para se sentir num almoço de domingo com frango frito na comida afetiva do Dookey Chase. Fundado em 1940, confunde sua história com a da cidade na música e luta por direitos civis — a entrada do salão ostenta uma foto do ex-presidente Obama comendo ali bem pleno com um babador de guardanapo.  

Outra especialidade da cidade são os frutos do mar. Para conseguir experimentar sem gastar muito, a dica é chegar cedo em um happy hour como o que acontece no Luke’s, que tem ostras a US$ 0,50 e double drink até às 19h durante a semana. Se os crus não forem o seu forte, procure os típicos sanduíche po’boy (o nome vem de “poor boy”, garoto pobre em inglês). De carne ou frutos do mar como camarão, marisco ou peixe, os recheios vão com molho no pão baguete — uma mistura perfeita.

Para provar os clássicos cajun, eu escolhi o moderno Cochon. Seu chef e proprietário David Link faz parte do movimento que enaltece a gastronomia local com releituras contemporâneas dos pratos típicos. É o lugar ideal para provar um pouco de tudo, já que as porções são para dividir: carne de jacaré, prancha de embutidos caseiros, ostras grelhadas apimentadas, o arroz jambalaya, e cracklins — o torresmo local. Tudo estava delicioso.

Ostras grelhadas, embutidos caseiros e torresmo local no moderno e delicioso Cochon.

É muito fácil se locomover pela cidade. O que não se faz a pé fica perto com os bondinhos que cruzam os principais bairros (apenas US$ 1,25 mas tenha o troco sempre pronto!). Para estar bem localizada e ter tranquilidade, escolhi ficar no Hilton Homewood Suites, bem na frente de uma linha e no limite do French Quarter — o barulho dos bares costuma incomodar os hotéis muito centrais.

Andar de bonde faz parte do programa em New Orleans. O jeito mais fácil – e fofo! – de se locomover pela cidade.

O único dia que precisei de carro foi para visitar uma plantation, Oak Alley, uma das antigas fazendas de cana-de-açúcar e algodão que ficam a menos de uma hora do centro. Em um dos estados mais negros do país, elas são monumentos históricos que relembram, ao mesmo tempo, a opulência dos fazendeiros e a cultura escravocrata, com todos os problemas e conflitos dessa relação que os guias fazem questão de relembrar.

A visita guiada que já vem inclusa no passeio narra as vidas antagônicas dos senhores e dos escravos. Nesses dois mundos, você vai reconhecer os carvalhos centenários da casa de Oak Alley pelos filmes que foram gravados lá como Entrevista com o Vampiro ou Doze Anos de Escravidão.

Vai falar que você não viu essa cena antes?

Três dias foram pouco em New Orleans, minha vontade mesmo era mudar pra uma casinha colorida em Tremé. Ouvi atentamente cada relato de volta por cima após o Katrina e me convenci que música e boa comida fazem milagres e reconstroem cidades. Ah!, também decidi que já passou da hora de eu aprender a tocar trombone.

 

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Agradecimento a New Orleans & Company e Travel South USA.


Veronica Deviá
Se for digital, está dentro para escrever, planejar e criar conteúdo. Jornalista e mestre em Relações Internacionais, pesquisa gênero e mercado de trabalho. Nas horas vagas é mãe de planta de apartamento em São Paulo.

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