Meu Guarda Roupa é Hype

Estilista conta suas brisas psicodélicas e inspirações de moda dentro e fora do Burning Man

por: Brunella Nunes

Ela não usa roupas; monta figurinos, cria mundos paralelos onde a nudez não é tabu, dragões vão ao supermercado e noivas se casam vestidas com estrelas douradas. A performer, stylist e estilista Jamille Tessarim é uma viagem psicodélica da cabeça aos pés, por dentro e por fora. Nessa entrevista exclusiva ao Hypeness, também divide com a gente  várias dicas para ir ao festival Burning Man!

O que é um pontinho muito colorido, exótico e dançante no meio da muvuca? Provavelmente será a Jamille, pessoa de múltiplas cores, formas, texturas e loucuras. Seu senso de criatividade prova que a rotina pode ser um parque de diversões, da profissão aos rolês. Vivendo a vida intensamente, ela é uma pessoa viajada, que ama conhecer pessoas e se jogar em novas experiências sem medo de se entregar.

Conectada com o mundo e consigo mesma, Jamille tem alma cigana, que pula de festival em festival de música eletrônica, onde dá para dançar como se ninguém estivesse vendo.

Não por acaso marca presença constantemente no Burning Man, um mega evento que acontece no deserto de Nevada, no Estados Unidos, reunindo diversas formas de expressões artísticas. É considerado o maior festival de cultura alternativa do mundo e disso a Jamille entende! Poderia até ter nascido lá, tipo um alien saindo da nave-mãe, como ela mesma se define.

Abaixo ela conversa com o Hypeness sobre seu estilo zero discreto, suas inspirações, dias festivos e jornadas coloridas. E ah! É claro: conta parte das loucuras lindas que viu no festival.

Hypeness: Com que roupa a Jamille sai pra comprar pão?

Jamile: Aliens não comem pão.

Existe algum dia que você não está colorida?

Apesar de raros, eles existem, mas pra isso existem as texturas e o LSD, né? hahahahaha

– Como você define o seu estilo?

Você já definiu perfeitamente meu estilo. Me considero uma viajem psicodélica, uma aventura alienígena, uma mistura de referências que vivo colecionando. Eu sempre tive muita paixão em me vestir porém nunca me apeguei muito a um estilo específico pois sou extremamente curiosa e amo explorar todas as possibilidades que o universo me oferece.

Na foto: Jamille com os amigos em sua festa de casamento zero convencional!

– Qual foi o processo de descoberta para chegar onde está agora?

Já experimentei diversos estilos e de cada um deles, tirei algo que me representasse e somei isso à todas as viagens que fiz (principalmente as viagens destinadas aos festivais de música eletrônica). Antes eu garimpava pelos brechós do mundo em busca das peças perfeitas, mas em algum momento senti que precisava de algo que ainda não existia, que ninguém havia criado, então comecei a produzir minhas próprias peças e hoje grande parte do que visto é da minha marca, a Acid Jam.

O que a moda significa pra você? É uma parte fundamental da sua vida?

A moda para mim é uma forma de alcançar e tocar as pessoas de maneira indireta. é um jeito lindo de causar reações e provocar reflexão. Eu amo quando me olham torto, quando entro em algum estabelecimento e as pessoas ficam desconfortáveis, eu amo quando me param na rua e pedem para tirar uma foto, eu amo quando os olhos das crianças brilham quando me veem produzida, quando me comparam a uma fada, ou a uma alienígena.

Considero a moda fundamental para a sociedade como um todo, por mais que algumas pessoas insistam em negar, todos sabemos que o que vestimos representa parte da nossa personalidade e até uma mensagem que desejamos passar.

Na minha vida, a moda representa a minha liberdade de transitar por mundos e gêneros sem me importar com rótulos e códigos. Sou mil pessoas em uma e a moda me permite ilustrar todas essas Jamiles que me habitam.

– O estilo é parte do que somos. Mas a roupa define uma mulher? Você já teve dúvidas sobre o que usar na rua? (por medo, julgamentos, etc)

Não gosto do conceito de algo externo nos definindo, a roupa não é um rótulo em um produto, a roupa pode ser uma extensão de como você se sente. O que me define vem de dentro pra fora, minhas memórias, as experiencias que vivi, as viagens que fiz, as pessoas que conheci, etc.

Infelizmente algumas pessoas definem as mulheres baseados nas roupas que elas vestem, mas isso é parte de uma discussão mais complexa pois é parte da cultura machista que costuma usar a forma que a mulher se veste para justificar até violências sofridas por elas.

Eu, por exemplo, sou nudista por natureza, e diversas vezes sofri abordagens inapropriadas por me julgarem vulgar, ou exibicionista, enfim, a construção social doente de sempre querendo colocar a mulher dentro de uma caixa pequenas e cheia de regras.

– Qual peça do seu armário praticamente virou parte do seu corpo?

Eu só me visto quando vou sair de casa, e a cada saída uso um look diferente, então não tenho uma peça que sempre uso, até porque eu literalmente VIVO PELADA. Hahahaha

– Por que a nudez é um tabu? (não no seu mundo, obviamente) E como é a sua relação com o seu corpo sem figurino, sem maquiagem, sem produção?

O falso moralismo definiu que nudez é um convite ao sexo ou motivo de vergonha e as pessoas decidiram acreditar nisso e perpetuar esse conceito. Tudo o que assusta as pessoas ou expõe um lado mais vulnerável acaba se tornando tabu e a sociedade ainda não está pronta para evoluir e abraçar nenhuma nudez, seja nudez do corpo, da alma ou da mente.

Meu corpo é meu templo. Eu amo minhas formas e minhas metamorfoses, procuro ficar atenta a todos os sinais que meu corpo me manda porque minha vida é bem corrida e não tenho muita rotina então procuro me alimentar de maneira mais funcional, visando necessidades específicas para cada momento. Em dias de performance faço um tipo de dieta focada mais em energia e disposição; em dias de folga, uma dieta mais comfort foods e detox, etc.

– Um acessório que te define…

Meus pêlos.

Na foto: Jamille no dia de seu noivado.

– Vi que você é super adepta do estilo de vida do Burning Man. O que você trouxe de bom de lá? 

O Burning Man foi um divisor de águas na minha vida. Qualquer pessoa que acha que se encontrou e aprendeu tudo sobre si mesmo quando vai ao festival descobre que a jornada do auto conhecimento é infinita. Além desta jornada de alma, foi no Burning Man que minha criatividade foi genuinamente apreciada, foi onde me encontrei como artista, encontrei diversas fontes de inspiração, pessoas com as quais me identifiquei, foi como se eu tivesse finalmente renascido no meu planeta natal.

 

– Como foi o processo pra você estar lá? Existe toda uma preparação prévia?

A preparação é mais intensa do que a de um Ironman! Gasto meses na produção dos meus looks, desenvolvendo os conceitos e pensando nas performances. Depois disso ainda tem a logística para chegar no deserto, que também é uma tarefa hercúlea. Mas posso garantir que toda essa canseira e esforço são recompensados com experiencias extra terrestres.

– Como foi seu planejamento de viagem?

Eu enxergo o Burning Man como uma tela em branco, onde os organizadores te proporcionam apenas o espaço, no caso chamado Playa, e junto dele um homem, um templo, feitos de madeira para a famosa queima (a instalação é queimada durante o evento). E nós expectadores e participantes somos responsáveis por co-criar os ambientes e as situações que lá vivenciamos. As artes lá encontradas são levadas pelos participantes por livre e espontânea vontade. A produção não custeia ou paga por artes nem Djs, pois um dos princípios do BM é essa experiência de não utilizar o dinheiro. Não existe lojas, nem comércio no Burning Man, ou seja, você tem que levar TUDO! Então a preparação e planejamento são necessários mesmo.

Por ser num ambiente hostil, no deserto, existem itens indispensáveis:

– Bicicleta para a locomoção.
– Para levar água, indico uma mochila chamada camel bag, a qual você consegue colocar água dentro, e tem um canudo para que você possa tomar quando você estiver dirigindo sua bike.
– Óculos e lenço para proteção em caso de tempestade.
– Hidratante para os lábios, pois o ambiente é muito seco.

E uma dica: pesquise e monte seu kit sobrevivência no deserto! Já existe pessoas que compartilham suas listas online. Eu tive sorte pois estava indo com veteranos, amigos que já vão há anos, e me auxiliaram na hora de fazer as malas.

A parte da comida também é algo bem importante, mas tudo vai depender do seu bolso. Já existem campings que proporcionam comida para os hóspedes, sendo assim, você diminui bastante a quantidade de comida que tem que levar, pois como não existe comércio, não tem onde ir para comprar uma larica, você tem que levar TUDO! Eu no caso também tive a sorte de estar num camping que fornecia café da manhã e janta, então eu levei snacks para a tarde, e água, que era por nossa conta.

Porém, no ano seguinte minha irmã e meu pai foram, e eles tiveram que cozinhar sua própria comida, então tiveram que levar suplementos para os nove dias de festivais. Existem também campings que presenteiam a comunidade burner com comida, como hamburguers e batata frita. Então assim, morrer de fome tu não vai! Às vezes, dirigindo sua bike, você encontra variadas comidinhas pelos campings.

– Existiu alguma parte no planejamento que você curtiu mais?

A parte mais legal do planejamento no meu ver, foi a parte dos looks! Eu não tive muito tempo para me preparar pois descobri que havia conseguido o ticket um mês antes do evento. Mas eu como tenho uma mãe e uma avó que costuram, tive esse apoio. Nessa época eu não tinha a marca de roupas ainda. Aliás, ela nasceu aí, quando comecei a produzir meus próprios looks. Então salvei referências, comprei tecidos e mesclei looks que já tinha no armário com os novos desenvolvidos por mim.

Eu também separei todas as composições para o dia e para a noite em ziplocks. Eu não sabia ao certo a ordem, o único que eu sabia com toda certeza era o look do dia da queima do “burning man”. Essa é uma dica legal: os sacos plásticos com fecho hermético são muito úteis no deserto, pois tudo que você levar vai ser contaminado pela famosa “dust”, uma poeira, fina e alcalina que está por toda parte, a todo momento. Não importa o quanto você tente manter a barraca limpa, ela vai impregnar. Então colocar suas roupas em sacos plásticos as protegem.

Posso dizer que o planejamento é uma parte divertida da experiência, mas não se estresse! A Playa jamais te deixará na mão, ela te proporciona tudo que você precisar, é algo mágico!

– Qual foi a cena mais louca que você presenciou por lá?

Uma das coisas que mais me marcou foi ter entrado numa barraca bem grande, uma lona branca sem nada demais, mas quando eu entrei tive uma surpresa tão grande: de repente eu não estava mais no deserto, estava na França de algumas décadas atrás, num perfeito Cabaret. O design interior era simplesmente impecável, com sofás estofados de veludo, tapetes, castiçais e lustres, taças de cristal e todo mundo vestido a caráter.

E eles tinham uma mesa que comportava acho que umas 30 pessoas, e essa mesa estava posta. Tinha peru, porco com maçã na boca – nem sei como eles assaram todas aquelas coisas – e as pessoas estavam ceiando lá, celebrando a vida, tomando vinhos e champanhes. Para aqueles felizardos que, como eu, encontraram aquele oásis, foi realmente algo mágico usufruir daquela experiência sensorial. Fiquei imaginando como todas aquelas coisas foram parar lá. E a comida estava maravilhosa.

Mas a cena mais louca que eu vi foi quando estava explorando a cidade e fui parar num evento que estava rolando em um dos campings. Era um levantamento de peso com o pênis, e a pessoa que levantasse mais peso com o pênis ganhava um prêmio! Tinha juízes e pessoas assistindo. Era mais pela diversão em si do que pelo prêmio, que se não me engano era um drink. Achei sensacional!

– Você sente que o festival é uma terra sem preconceitos de nenhuma natureza?

Não acho que é uma terra sem preconceitos, por que todos nós temos algum tipo de preconceito ou até mesmo bloqueios dentro de nós, que não nos permitem nos expressarmos e então julgar. Mas é com certeza um lugar para trabalhar esses preconceitos e bloqueios. Você precisa ter sua mente aberta, ou se você não tiver, com toda certeza o Burning Man vai mudar isso em você. É uma comunidade, onde todos os habitantes são participantes, são moradores; um conceito muito diferente de vivência.

Nessa semana que o evento acontece, é tudo intensificado, tanto por você estar no deserto que é um ambiente muito hostil, como pelo fato de estar na maior migração de seres humanos do mundo, onde se encontra todos os tipos de cultura e diversos costumes, inspirações e arte por toda parte, o que te traz uma sensação única de liberdade de expressão. O BM encoraja todos a participarem.

Um do 10 mandamentos que a comunidade aplica é a Auto Expressão Radical – liberdade para ser você mesmo. E acho que preconceitos e bloqueios se dissolvem quando conseguimos aceitar e estar bem consigo mesmos. Passamos a respeitar mais o próximo, e usar suas atitudes como fonte de inspiração. Sendo assim penso que é o lugar ideal para essa transmutação.

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– O que você sentiu quando foi e quais conselhos pode dar para quem quer ir?

Me senti num sonho do Salvador Dalí. A experiência mais intensa e surrealista da minha vida. Não dá jamais para explicar, pois é realmente algo muito único e especifico que cada ser vai sentir e absorver de um jeito. Eu digo que é uma experiência que todo mundo deveria considerar participar um dia. É um lugar de infinitas possibilidades, você nunca sabe o que pode acontecer, e estar ali de coração aberto para deixar as coisas fluírem é uma das minhas dicas. Não tente fazer muitos planos, e ficar preso na sua zona de conforto, EXPLORE e deixe a Playa te levar, esteja aberto para o novo, você será surpreendido.

Você vai se perder para se encontrar, vai conhecer as pessoas mais legais e interessantes da sua vida, vai vivenciar cenas que você pode até duvidar que são reais. É realmente impressionante.

E para mim uma das partes mais profundas dessa experiência é o Templo. Ali bate o coração da cidade, é profundo e intenso ver todas as dedicações às quais as pessoas deixam para aqueles que já partiram para o plano espiritual. É a conexão entre a matéria e a energia divina invisível que não vemos, mas sabemos que está ali, e realmente dá pra sentir a essa energia.

Me fez entender que a vida é mesmo muito bela e muito frágil, e que temos sim que estar sempre em busca de ser um alguém conectado com a matéria, o corpo e a alma. No final tudo terminará virando pó! O Burning Man tem esse processo. É o construir para depois destruir, é o fogo queimando e renovando, é o tudo e o nada junto, é o material e o espiritual. São tantos insights ali vividos, que só tenho a agradecer pela oportunidade.

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Todas as fotos foram cedidas por Jamille ao Hypeness


Brunella Nunes
Jornalista por completo e absoluto amor a causa, Brunella vive em São Paulo, essa cidade louca que é palco de boa parte de suas histórias. Tem paixão e formação em artes, além de se interessar por ciência, tecnologia, sustentabilidade e outras cositas más. Escreve sobre inovação, cultura, viagem, comportamento e o que mais der na telha.

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