Arte

‘Mas esse ano eu não morro’: Clássico de Belchior é atualizado por Emicida e Pabllo Vittar

por: Kauê Vieira

O índice de suicídio entre jovens e adolescentes negros é 45% maior do que entre os brancos. O Ministério da Saúde aponta aumento de 12% entre os afro-brasileiros. Quanto aos brancos, os números se mantiveram estáveis. 

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A gente tem que permanecer vivo

Eu, você, nós sabemos o quanto é difícil carregar a pele da cor da noite em um país tão racista quanto o Brasil. Só que “ano passado eu morri, mas esse ano eu não morro”. Assim cantou Belchior, homenageado na nova e necessária ‘AmarElo’, lançamento de Emicida. 

O rapper da zona norte de São Paulo juntou Pabllo Vittar e Majur para falar de vida em um lindo clipe dirigido por Evandro Fióti e filmado no Morro do Alemão, na zona norte do Rio de Janeiro. Por mais difícil que seja em uma realidade onde um pai de família pode ser morto com OITENTA tiros disparados de uma arma empunhada por um soldado do exército. 

No entanto, pátria amada Brasil, estamos aqui. Estamos vivos e a beleza de dreads esvoaçantes, vários tons de negro e sorrisos, não nos deixa esquecer. Queremos a juventude negra viva e saudável. Mente e corpo. A luta é árdua e, recordando um sucesso de outros tempos de Emicida, “você é o único representante do seu sonho na face da Terra”. Mas não está sozinho. 

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A diversidade, sempre ela

“Permita que eu fale, não as minhas cicatrizes

Elas são coadjuvantes, não, melhor, figurantes, que nem devia tá aqui

Permita que eu fale, não as minhas cicatrizes

Tanta dor rouba nossa voz, sabe o que resta de nóiz?

Alvos passeando por aí 

 

Permita que eu fale, não as minhas cicatrizes

Se isso é sobre vivência, me resumir a sobrevivência 

É roubar o pouco de bom que vivi

Por fim, permita que eu fale, não as minhas cicatrizes

Achar que essas mazelas me definem, é o pior dos crimes 

É dar o troféu pro nosso algoz e fazer nóiz sumir”. 

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Ser saudável não se resume aos dentes brancos e colesterol em ordem. O buraco é mais embaixo, sobretudo para nós, negros e negras. O racismo estrutural que impede a evolução de mais de 54% da população brasileira causa frustração, ansiedade e adoece. Principalmente entre jovens e adolescentes. Diferente dos homens brancos, a chance de um negro do sexo masculino tirar a própria vida é 50% maior

Pegou a referência ao Criolo?

Identidade se constrói 

Para frear a faceta nefasta do racismo, que repito, não tem nada de velado, é fundamental a busca por referências. O pensamento racial não se constrói sem a contribuição estética de Renato Carneiro e sua Katuka Africanidades. O pensamento racial não se constrói sem o enfrentamento de Kl Jay.

O pensamento racial não possível sem o sorriso e a competência das jornalistas Rita Batista e Cristiele França. O pensamento racial não tem como se desenvolver sem reparações históricas, viabilizadas graças ao acesso aos espaços de poder proporcionados pela sabedoria de Conceição Evaristo. O pensamento racial não acontece se você não estiver vivo.

Assim, repita sempre o mantra, “ano passado eu morri, mas esse ano eu não morro”. Se passar por apuros, pense na voz sonhadora de Belchior. Não esmoreça, busque redes de cuidado de saúde mental. E não se obrigue a ser forte. Você não precisa e nem nasceu pra isso. 

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“Presentemente eu posso me considerar um sujeito de sorte

Porque apesar de muito moço me sinto são e salvo e forte

E tenho comigo pensado, Deus é brasileiro e anda do meu lado

E assim já não posso sofrer no ano passado”.

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Fotos: Divulgação


Kauê Vieira
Nascido na periferia da zona sul de São Paulo, Kauê Vieira é jornalista desde que se conhece por gente. Apaixonado pela profissão, acumula 10 anos de carreira, com destaque para passagens pela área de cultura. Foi coordenador de comunicação do Projeto Afreaka, idealizou duas edições de um festival promovendo encontros entre Brasil e África contemporânea, além de ter participado da produção de um livro paradidático sobre o ensino de África nas Escolas. Acumula ainda duas passagens pelo Portal Terra. Por fim, ao lado de suas funções no Hypeness, ministra um curso sobre mídia e representatividade e outras coisinhas mais.

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