Entrevista Hypeness

‘Não estou ocupando nicho’, Ana Thaís Matos fala de futebol e machismo antes de estreia na TV

por: Kauê Vieira

Xingamentos e brigas, uma pitada de preconceito e muita gritaria. Ingredientes de uma tradicional mesa redonda de futebol. Que me desculpem João Saldanha, Nelson Rodrigues e Roberto Avallone, mas no século 21 a crônica e análise esportiva seguem o caminho do respeito e pluralidade.

Unindo a agilidade de uma jornada esportiva radiofônica e a disciplina de uma velha redação de jornal, Ana Thaís Matos rompe trincheiras, deixa o papo furado de politicamente correto ou incorreto de lado para se consolidar como analista, repórter e entendedora de futebol. Mulher sim, jornalista esportiva também.

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São muitos primeiros em 10 anos de carreira desta paulistana formada em jornalismo pela Pontifícia Universidade Católica (PUC) de São Paulo. Em conversa com Hypeness, Ana falou sobre a estreia como primeira mulher a comentar uma Copa do Mundo na TV aberta e as dores e delícias de defender um jornalismo integrado com as mudanças sociais. Spoiler: dá pra fazer.

“Eu tive poucas referências de mulheres no jornalismo esportivo. A minha redação era quase toda de homens. Vejo agora uma esteira de mulheres que são enxergadas como referência. Elas já estavam aí, mas o discurso não ajudava tanto”, enfatiza.

“Não estou ocupando nicho especial”

Ana começou a carreira na imprensa paulistana. Desde início foram muitos os desafios, o frio do inverno em estádios gelados, o machismo nada velado das redações e a competição com repórteres, em suas palavras, “jovens, muito bons, modernos, antenados, que acrescentavam para a transmissão”.

O pontapé foi jornal O Lance! e logo depois se juntou ao Sistema Globo de Rádio. CBN e própria rádio Globo foram suas casas por seis anos. Lá, aprendeu na raça o significado de dormir pouco para entregar matérias antes dos colegas. No caso, todos homens.

“Vivia um esquema maluco quando morava em São Paulo e trabalhava na Rádio Globo. Acordava às 9h apurando notícia e ia dormir meia-noite apurando para não tomar furo”.

Por isso, Ana Thaís Matos enfatiza, sobretudo em postagens nas redes sociais, a importância de cuidar da saúde mental. Corredora, ela destaca a força que o ioga, a terapia e o esporte deram para lidar com cobranças e xingamentos nas redes.  

Sobre saúde mental, eu tive um pouco de ansiedade há dois anos e precisei cuidar. Ignorei no primeiro momento. Isso me consumiu. Tem também os ataques nas redes sociais. Tudo contribuiu para ansiedade. Busquei tratamento antes de me mudar para Rio de Janeiro. Fiz ioga, terapia, busquei me respeitar mais, cuidar melhor de mim e isso me fortaleceu para chegar bem na cobertura de agora. Fiz um evento com o Luís Roberto fora do Rio de Janeiro e ele me contou sobre a Copa do Mundo da Rússia. Disse que emagreceu, mas como estava bem fisicamente, aguentou a maratona de trabalho. Usei como exemplo. Por isso corro, pratico esportes e intensifiquei o ritmo. Hoje estou bem e tenho o controle.  

A comunicadora atuou como setorista do Palmeiras e fez parte da equipe de Oscar Ulisses em centenas de transmissões. Desde então, Ana Thaís Matos chama atenção do público, não apenas pelas opiniões contundentes, mas pelo conhecimento e domínio do tema. Munida da dupla bloquinho de notas e caneta, reporta e agora analisa os principais lances do futebol.

“Cada veículo me acrescentou de alguma forma e me fez entender o meu papel enquanto comunicadora. Independe do gênero. Na época do jornal, há 10 anos atrás, tinha muito a questão do hard news, a internet ganhando espaço. O jornal não entendeu como poderia surfar. Até hoje não entende. O rádio me trouxe a dinâmica do dia a dia. Foi lá que virei repórter. Fui produtora e depois me concentrei na reportagem. O rádio me ensinou a ter manchete, eles me cobravam muito. Eu trabalhava com repórteres jovens e muito bons, modernos, antenados, que acrescentavam para a transmissão. Isso exigiu mais de mim. A rádio me cobrou isso. Seis anos de Rádio Globo e CBN na reta final. Sempre tinha que ter uma manchete e ser a melhor do grupo. Foi importante”, recorda.

Driblando o machismo, Ana ganhou agilidade e competitividade em 6 anos de rádio

O ingresso na TV aconteceu aos poucos. O flerte começou em participações no Seleção Sportv, então comandado por Marcelo Barreto. Ao lado de Mayra Siqueira, Ana Thaís integrava o rodízio de comentaristas. E destoava. Talvez pelo cuidado com as análises. Em um meio onde muitos comentaristas definem jogadores e treinadores profissionais como o ‘lixo’ e ‘porcaria’, Ana Thaís oferecia dados consistentes.

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Um pulo para entrar definitivamente na equipe de esporte do Grupo Globo. A consagração aconteceu durante a Copa do Mundo da Rússia, em 2018. O Brasil não trouxe o hexa, mas quem se importa? Uma mulher e um homem negro estão, em pé de igualdade, analisando os erros e acertos do selecionado de Tite nas terras geladas do leste europeu.

“Que seja um ponto de partida para que a gente faça um jornalismo mais plural. É um momento que aconteceu na Copa do Mundo do ano passado e vai ocorrer mais. O jornalismo em si, no meu caso o esportivo, é ainda muito reservado para as mesmas pessoas, caras e tipos. Acho que a gente vive um boom de ser mais plural. Não podemos ficar parados no tempo. Ninguém está ocupando o espaço de ninguém. Eles existem e estão sendo bem ocupados. E de fato, foi bem diferente o que a gente [Grafite e eu] viveu”.

Quem emite opinião no Brasil?

Depois do ‘mimimi’, se definir politicamente correto ou incorreto ocupam o segundo e terceiro lugar, respectivamente, no vocabulário de quem insiste em ficar parado no tempo.

O jornalismo brasileiro é branco e masculino. Ana Taís e este que vos escreve, ao lado de nomes como Breiller Pires, Maria Júlia Coutinho, Rita Batista, Elton Serra e alguns poucos outros, são exceção.

Antes que começe o ‘mimimi’ – brincadeira, odeio esse termo, vamos aos números. O Grupo de Estudos Multidisciplinares da Ação Afirmativa (GEMAA), do IESP/UERJ divulgou em 2016 estudo mostrando por A + B a falta de diversidade no jornalismo brasileiro.

A pesquisa ‘Jornalismo Brasileiro apresenta o perfil de gênero e cor/raça dos colunistas dos principais jornais impressos do país’  constatou que O Globo, Folha de São Paulo e Estadão são comandados por homens. Respectivamente, 74%, 73% e 72% no número total de formadores de opinião de cada um.

Ana Thaís Matos diz que foi justamente em uma redação de jornal onde encarou a desigualdade de gênero pela primeira vez. “Foi lá o meu primeiro embate com o machismo. Uma redação cheia de homens, meninos da minha idade e até mais jovens. As poucas mulheres sofriam. Meninas acabaram ficando pelo caminho, porque não tiveram condições de enfrentar o machismo, nada velado, da redação”.

Diversidade: a parceria com Grafite é um sucesso

Assim como o racismo, o machismo se manifesta de formas diferentes. Agora na TV e comentarista fixa do Troca de Passes ao lado do parceiro Grafite, Ana revela que o sonho é conseguir quebrar o círculo vicioso e envelhecer falando de futebol em frente às câmeras.

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“Logo no meu começo de carreira ouvi que mulheres não tinham tempo de vida útil para o jornalismo esportivo. Eu tinha 24 anos e nunca me esqueci disso. Se pudesse pensar no futuro, seria envelhecer e independente de cara e corpo, poder oferecer o melhor conteúdo. Têm poucas mulheres envelhecendo no vídeo. Espero que com 55 anos – que aconteça muita coisa até lá – eu possa estar em uma bancada falando de esportes. Como existem homens de 55 e 60 anos”.

Afinal, quem monopoliza o microfone no Brasil?  O futebol, você sabe, é um ambiente que exala masculinidade e machismo. Atletas precisam conviver com o medo de expressar a liberdade sexual. A imprensa não ajuda. Qual a última vez que você ouviu um comentarista falando sobre o fim da homofobia? Não me venha com campanhas e camisetas comemorativas. Queremos prática. 

“Em 10 anos de carreira, fui comandada apenas por uma mulher”

Aqui pra nós, como esperar que incubadoras (não falo da imprensa como um todo) combatam preconceito? O último show de horrores foi a acusação de estupro contra Neymar. O jogador nega e aponta armadilha. As análises de diversas mesas redondas, mesmo sem provas, culpabilizam a vítima. De forma indireta, quase automática.

Confirmação da necessidade da inserção de visões plurais como da negra Flávia Oliveira na economia e de Ana Thaís Matos no futebol.

O jornalismo dificulta muito para que um gay se assuma e fale sobre futebol no nosso meio. Acontece com mulheres e negros também. O próprio filtro social do jornalismo derruba antes que as pessoas cheguem ao topo. É sempre a mesma narrativa, homem defendendo homem. O discurso do homem. Isso está mudando. Pouco, mas está. É importante se desconstruir como jornalista, como homem para não cair na vala do politicamente correto ou incorreto. Não é isso. É se desconstruir do preconceito. Caminho para se pensar dentro e fora das redações.

Entenderam como é importante que no domingo (9) Ana Taís, Galvão Bueno e Caio Ribeiro dividam a mesma transmissão em uma estreia da seleção brasileira em jogo de Copa do Mundo?

“Já é um passo bem importante. Estreei como comentarista em janeiro, no Campeonato Paulista masculino. A TV tem tratado tudo de forma natural, não é uma mulher, é a comentarista de futebol. Não estou ocupando nicho especial. Eu acho que quanto mais elas [outras jornalistas falarem], melhor. Cada uma do seu jeito. A partir do momento que cada uma fala, a contribuição é enorme. É bom que todo mundo saiba que a Copa do Mundo Feminina vai passar em vários canais”.

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Ana deixou a bola quicando para falarmos de futebol. Sim, a Copa do Mundo será transmitida pela primeira vez na história em TV aberta. O Mundial começa na sexta-feira (7) e o Brasil estreia contra a Jamaica no domingo (9). Com Ana e Galvão Bueno na jogada.

Brasil e Ana Taís estreiam na Globo, com Galvão, domingo (9)

A seleção das recordistas Marta (seis vezes melhor do mundo) e Formiga (sétima participação em copas) ainda é comandada por um homem. Vadão é o treinador em busca da taça inédita. Ana Thaís não concorda e faz uma relação interessante com incentivo e liderança.

Já tivemos a Emily Lima, mas que saiu de um jeito questionável. Ela foi demitida com um ano de trabalho. Temos poucas técnicas mulheres e chefes também. Em 10 anos de carreira, fui comandada apenas por uma mulher, já aqui no Grupo Globo. Não incentivamos mulheres a buscarem espaços de liderança. Não é apenas o fato de ser mulher, é conhecimento de causa, lastro no futebol feminino. Temos muito pouco na atual comissão. Precisamos insistir nesse caminho. Nos campeonatos brasileiros das séries A e B. A CBF, a Conmebol e a FIFA têm que estimular cursos. O empoderamento parte disso, de quando você estimula pessoas que não estão condicionadas a ocupar cargos de liderança.

Recordes quebrados, atenção e respeito, sem dúvidas Ana Thaís Matos está transformando o modo de falar de futebol com câmeras, microfones e bloquinhos. Ela não parece se abalar com o sucesso e prefere ser referência. Exemplo, não. O futuro é hoje.

“Eu tomo cuidado com a questão de ser exemplo, porque diz mais sobre a expectativa do que o que a gente pode oferecer. Eu acho legal ser uma referência. ‘Ela conseguiu chegar em um lugar, fazer algo’. Ser uma referência. É uma coisa legal, uma responsabilidade grande. É prazeroso você ter algo para oferecer e para mostrar como comunicadora. Agora, se pessoa me vê como um exemplo e me encontra em uma festa vestida de Pantera cor-de-rosa, ela vai me questionar. Eu tomo cuidado. Prefiro ser referência. É bacana”.

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Fotos: foto 1: Divulgação/foto 2: Reprodução/Istagram/foto 3: Reprodução/foto 4: Divulgação/foto 5: Divulgação


Kauê Vieira
Nascido na periferia da zona sul de São Paulo, Kauê Vieira é jornalista desde que se conhece por gente. Apaixonado pela profissão, acumula 10 anos de carreira, com destaque para passagens pela área de cultura. Foi coordenador de comunicação do Projeto Afreaka, idealizou duas edições de um festival promovendo encontros entre Brasil e África contemporânea, além de ter participado da produção de um livro paradidático sobre o ensino de África nas Escolas. Acumula ainda duas passagens pelo Portal Terra. Por fim, ao lado de suas funções no Hypeness, ministra um curso sobre mídia e representatividade e outras coisinhas mais.

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