Matéria Especial Hypeness

O que é verdade e o que é ficção na poderosa série ‘Chernobyl’, da HBO

por: Vitor Paiva

Por mais que costumem ser explicadas em somente uma frase, as grandes tragédias da humanidade são muito mais complexas do que uma mera causa e um efeito: são, em verdade, compostas por diversas tragédias pessoais, histórias individuais atravessadas e que atravessam um grande acontecimento para entrarem para a história. Foi assim em Hiroshima, no 11 de Setembro, em Ruanda, no Oriente Médio, e também em Chernobyl.

São justamente as histórias dentro da história do dia 26 de abril de 1986, quando, próximo a cidade de Pripyat, ao norte da Ucrânia, o reator da usina nuclear de Chernobyl explodiu, causando assim o maior acidente nuclear da história, que a sensacional série “Chernobyl”, sucesso de público e crítica, disponível no HBO Go, nos conta. Falamos sobre como a série nos mostra o que pode acontecer quando colocamos a ciência contra a parede e damos poder a quem não segue o que dizem os cientistas.

A explosão do reator, em cena da série

Mas se a história geral é formada de mais e mais histórias pessoas, individuais, menores e muitas vezes secretas, quando essas narrativas são transformadas em ficção, muitas vezes a verdade é estrangulada ou mesmo atropelada, para melhor favorecer o desenrolar de um livro, um filme ou uma série. E com “Chernobyl” não seria diferente: o maior desastre nuclear da história se deu por uma mistura de falhas técnicas, erros humanos, negligência e azar – assim seria o resumo dos fatos.

Mas, especialmente se tratando de um período tão complexo e polarizado quanto o fim da Guerra Fria, em um tema igualmente profundo e cheio de paixões como a União Soviética, naturalmente que a espetacular série da HBO, ao mesmo tempo que levanta a plateia para os aplausos merecidos, também desperta a dúvida: ainda que seja celebrada por ser uma das mais cuidadosas e fiéis aos fatos ao retratar uma história real, o que de fato aconteceu e o que é atalho narrativo, invenção, licença poética ou mera ficção em “Chernobyl”? O que é verdade e o que não é na série?

Para responder a essa questão essencial, além de pesquisas as matérias pelo mundo recorreram a uma fonte infalível: Oleksiy Breus, ex-operador da usina, que viveu a explosão do reator na sala de controle de Chernobyl naquele 26 de abril, e que hoje pode dizer sim ou não para as precisões ou invenções da série da HBO.

1. Os ‘vilões’ da série

O personagem de Anatoly Dyatlov na série

Segundo o próprio Breus, a primeira e talvez mais forte distorção que a série comete é o retrato dos personagens Viktor Bryukhanov, diretor da usina, Nikolai Fomin, engenheiro-chefe, e Aleksandr Kudryavtsev, engenheiro-chefe adjunto de Chernobyl. Tratados como terríveis vilões na série, o ex-operador afirma que, por mais que fossem rigorosos e duros, tratavam-se de profissionais de alto nível, e não de homens cruéis e maldosos. Os três homens foram, em 1987, condenados por violação do regulamento de segurança que ajudou a provocar a explosão.

2. A personagem de Emily Watson

Na série, a atriz Emily Watson dá vida a Ulyana Khomyuk, uma física nuclear que luta para descobrir o que provocou a explosão e o desastre em Chernobyl como um todo. Na vida real, porém, Ulyana não existiu. Bem, não como uma só pessoa. Na realidade, a personagem é uma mistura de diversos cientistas que trabalharam nas primeiras horas do desastre até anos depois, a fim de justamente esclarecer o ocorrido e amenizar os efeitos da tragédia.

3. Os efeitos da radiação

Quem assiste a série pode pensar se tratar de exagero ficcional a pele vermelha, as queimaduras, a palidez, os sangramentos e a náusea em quem se expôs à radiação e ao vapor mas, segundo Breus, nunca antes tais reações haviam sido mostradas com tanta precisão como em “Chernobyl”. O ex-operador contou que falou com dois personagens também retratados na série, Leonid Toptunov e Oleksandr Akimov, líder do turno quando da catástrofe, e que ambos estavam brancos, muito doentes. Outros colegas, segundo ele, tinha na pele uma cor vermelha vibrante e assustadora. A maioria dessas pessoas morreria por conta da síndrome da radiação aguda.

4. Os eventos na sala de controle

De acordo com relatos de sobreviventes, um dos pontos mais precisos e fiéis na série são os diálogos e eventos ocorridos na sala de controle da usina – antes, durante e depois da explosão. A linha do tempo e até mesmo alguns diálogos foram reproduzidos, segundo a segundo, palavra a palavra, exatamente como os sobreviventes relataram.

5. O julgamento de Valery Legasov

O personagem de Valery Legasov

O anti-herói da série, Valery Legasov, vivido pelo ator Jarred Harris, foi de fato um cientista por trás das investigações que ajudaram a compreender o desastre em Chernobyl. Ele realmente se suicidou no aniversário do acidente, e as fitas que deixou contando os detalhes de sua investigação são realmente um documento de importância inestimável para o desvendar dos fatos. Diferentemente, porém, do que a série retrata, Legasov não era exatamente um crítico das políticas soviéticas, nem desafiou o regime no julgamento, denunciando erros e falhas do país na direção da usina: Legasov foi chamado à comissão por ser leal ao Partido, e sequer estava presente no julgamento.

6. A caçada aos animais

Uma das mais terríveis sequências da série de fato aconteceu: a matança de animais nos arredores da zona da explosão. Depois da evacuação das cidades próximas – nas quais não foi permitido levar animais de estimação – equipes foram designadas para atirar em animais vira-latas, que poderiam carregar a radiação para outros locais.

7. As ameaças e a hierarquia

Um dos pontos gerais mais criticados da série é a maneira com que as relações de poder, hierarquia e ordens são retratadas. Segundo testemunhas e relatos históricos, uma série de ameaças e tons em conversas jamais aconteceram ou aconteceriam – como quando Legasov é ameaçado de ser atirado de um helicóptero caso não cumpra uma ordem, ou a atitude dos mineiros diante do ministro. Segundo pesquisas e relatos, as ordens eram dadas e cumpridas sem constantes ameaças de prisões, punições ou mortes. O próprio Breus afirma que, apesar da tragédia ter ajudado evidentemente a revelar as falhas no sistema soviético, muitas passagens exageradas são típicas, segundo ele, “da maneira com que o ocidente retrata a União Soviética”.

8. Fogo no telhado

Nas palavras do próprio Breus, o fogo no telhado da usina é “um mito”. Segundo seu relato, houve diversos focos de incêndio, mas não no telhado. Nem por isso, porém o trabalho dos bombeiros – as primeiras vítimas diretas não só dessa como da maioria das tragédias da humanidade – foi menos complexo e difícil: segundo consta, a água utilizada pelos bombeiros provavelmente evaporava antes mesmo de chegar ao reator.

9. Os estereótipos soviéticos

Mikhail Gorbachev retratado na série

O excesso de vodka em cenas de trabalho na série, assim como a presença da KGB em toda parte, são excessos que a série comete por conta também da visão estereotipada do ocidente sobre a realidade soviética. Breus concorda, no entanto, que o regime excessivamente secreto, somado às más práticas administrativas e de gestão, o controle da comunicação contribuíram para agravar os já terríveis efeitos da tragédia em Chernobyl.

Há ainda outros pontos verdadeiros importantes da série, como os robôs que o governo soviético tentou utilizar para limpar o local da contaminação, a jovem gravida que perdeu o marido bombeiro e o bebê, a nudez dos bombeiros e mais. Dados oficiais das Nações Unidas afirmam que 4 mil pessoas morreram por conta da radiação. Já o Greenpeace reporta que esse número chegaria, com o passar dos anos, a 200 mil.

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© fotos: Divulgação


Vitor Paiva
Escritor, jornalista e músico, doutorando em literatura pela PUC-Rio, publica artigos, ensaios e reportagens. É autor dos livros Tudo Que Não é Cavalo, Boca Aberta, Só o Sol Sabe Sair de Cena e Dólar e outros amores.

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