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‘Olhos que Condenam’ nos sufoca ao mostrar como a Justiça desumaniza jovens negros

por: Kauê Vieira

Ela fez de novo. Talvez como nunca antes na história de sua carreira brilhante. Ava DuVernay deu voz aos cinco rapazes presos e condenados por um crime que não cometeram, expôs faces do racismo que comanda a máquina da Justiça e inspirou.

Com “Olhos que Condenam”, a diretora californiana indicada ao Oscar por Selma e vencedora do Bafta – maior prêmio do cinema britânico – pelo documentário A 13ª Emenda, deu a versão definitiva para o emblemático caso de racismo judicial dos Estados Unidos. Dividido em quatro episódios, a maior audiência da Netflix desde o lançamento em maio oferece a necessária perspectiva afrocentrada do chamado caso dos Central Park Five.

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O olhar de Ava abalou a tranquilidade de algozes orgulhosos do feito, enterrou de vez o apelido perverso adotado pela mídia e deu vida, corpo e sentimento para Antron McCray (Jovan Adepo), Kevin Richardson (Asante Blackk), Yusef Salaam (Ethan Herisse), Raymond Santana (Marquês Rodriguez) e Korey Wise (Jharrel Jerome). Cinco condenados pela Justiça, em conluio com a sociedade de espetáculo financiada pelos veículos de comunicação.

Cinco negros, um com ascendência latina, que finalmente tiveram a reparação devida, que não veio do estado de Nova York, que nunca se desculpou apostando nos panos quentes de uma indenização de 40 milhões de dólares. Como se fosse suficiente para devolver a dignidade. A perda para sempre da infância de quem foi tratado como cidadão de segunda classe por exercer o direito de ir e vir.

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Korey Wise, interpretado por Jharrel Jerome

“Olhos que Condenam” faz lembrar uma frase de Mano Brown sobre o Carandiru – um dos (tantos) símbolos do nosso genocídio negro -, dita durante show no início dos anos 2000, na Zona Leste de São Paulo:“o casarão caiu, mas o sofrimento continua, que ninguém se esqueça”.

Em alerta. Sempre.

O caso

Era noite de primavera de 19 de abril de 1989. Assim como seus filhos e amigos, caro leitor, os cinco adolescentes resolveram acompanhar um grupo em um rolê no Central Park, em Manhattan. Na mesma noite, Trisha Meili, executiva branca de 28 anos, foi brutalmente agredida e estuprada enquanto corria ouvindo música em seu walkman. Fotografias de roupas manchadas de sangue, dias de internação, perda de olfato e uma recuperação que durou meses. Trisha foi vítima de uma violência imperdoável. No entanto, Nova York, insuflada pelo racismo que habita o coração de muitos brancos norte-americanos, incluindo os formadores de opinião, elegeu o grupo de negros, ou a ‘matilha de arruaceiros’, como classificou o New York Daily News, como algozes.

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Os policiais prenderam os cinco suspeitos. Todos negros. Todos moradores do Harlem. Adolescentes entre 14 e 16 anos, que levavam vidas tão normais quanto você. Até aqui. Se tornaram ‘merdinhas’ e ‘delinquentes’ na caneta BIC implacável do racismo de detetives, investigadores e promotores, especialmente a perversa Linda Fairstein.

“Matilha de arruaceiros”, classificou a mídia antes do veredito

 

Um retorno ao passado. Mas qual passado mesmo?

Branca, poderosa, cabelos louros. Linda era símbolo de uma Nova York que retoma o flerte com o abismo desde a ascensão de Donald Trump. O ex-apresentador bon vivant apostou na discriminação escondida no slogan ‘make America great again’ (‘faça a América grande de novo’) para garantir o comando da Casa Branca. Trump sabia que tal máxima não inclui negros e latinos. Sempre soube o que era, na verdade, esse retorno ao passado.

Linda apostou no racismo para condenar os cinco rapazes injustamente

O agora presidente dos Estados Unidos foi bem ativo no acirramento dos ânimos naquele abril de 1989. Trump pagou um anúncio em jornal de 80 mil dólares pedindo o retorno da pena de morte como punição aos cinco rapazes. Reação típica de um figura que alimenta o preconceito e a opressão.

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“Claro que odeio essas pessoas. Vamos todos odiá-los. Quero que a sociedade os odeie. Porque, talvez, ódio seja o que precisamos para mudar as coisas”, disse o magnata de Nova York.

“Restituam a pena de morte!”, bradou o agora presidente dos EUA

Voltemos à Linda. A então chefe da unidade de crimes sexuais do escritório do Procurador Distrital de Manhattan entre 1976 e 2002 ficou à frente do caso de estupro. Desde o primeiro momento, como bem mostra Ava, Fairstein decidiu pela condenação dos adolescentes. Bastava provar. Mas foi preciso achar meios legais para não deixar as motivações raciais tão evidentes. Para isso, Linda autorizou diversos abusos: tortura, interrogatórios de 12 horas, coação e agressões. O ápice foi um discurso orquestrado.

“E pensar que iríamos entregar estes animais para a vara da família”, comentou Fairstein em abril de 1989.

A representação do racismo: Fairstein e Elizabeth Lederer

A aposta na desumanização

Antron McCray, Kevin Richardson, Yusef Salaam, Raymond Santana e Korey Wise não se conheciam, mas os investigadores pensaram uma narrativa que os colocaram uns contra os outros. Os jovens precisavam confessar o crime para supostamente irem para casa.

Confessaram, permaneceram presos e Linda tinha em mãos o que buscava para bater o martelo. Kevin, um jovem de 14 anos que tocava trompete, estava diante dos truculentos policiais de Nova York se defendendo de um estupro. O garoto sequer tinha noção do significado deste tipo de violência sexual.

Kevin Richardson, adolescente de 14 anos que tocava trompete

A polícia de Nova York apostou na perda de humanidade dos cinco jovens. O caminho tomado pela NYPD vai de encontro com conceitos defendidos pelos professores Osmundo Pinho e João Vargas no livro Antinegritude – O Impossível Sujeito Negro na Formação Social Brasileira’. Para João, a lógica atual nos faz “rever conceitos sobre a capacidade que a formação social brasileira tem de assimilar negras e negros como sujeitos plenos, autônomos, e formal e praticamente iguais aos demais sujeitos não negros”.

A demonstração da impossibilidade da plena existência do negro no sistema racial atual se dá com Antron McCray, fã de beisebol, com uma camiseta Michael Jordan e com o sonho de se tornar um atleta profissional. Yusef Salaam, muçulmano, de família estruturada e mãe protetora. Aliás, ao chegar na delegacia, Sharon questiona a atitude de Linda, que ouviu o rapaz sem a presença de um advogado ou responsável.

Korey Wise comia frango frito com a namorada quando decide ir com os amigos ao Central Park. O garoto de 16 anos está na delegacia para ter certeza de que o amigo Yusef não se meta em confusão. Wise acaba escolhido por Linda como a peça final da farsa.

A promotora Elizabeth Lederer tem a missão de condenar os garotos entre 14 e 16 anos. Embora ciente da fragilidade das provas e de confissões fabricadas, ela mergulha de cabeça na narrativa da construção da imagem violenta do homem negro.

O velho filme se repete

O raciocínio de Linda e Elizabeth é comum em países escravocratas como os Estados Unidos e o Brasil. Durante a escravidão, o homem negro teve sua masculinidade anulada. O fenômeno começa antes dos navios negreiros. Estes homens foram humilhados com a chegada dos colonizadores à África, que os faziam assistir suas mulheres e filhas sendo violentadas e estupradas. Escravizados, além de açoitados e humilhados pelos senhores de engenho serviam, muitas vezes, de objeto sexual para sinhazinhas.

O lançamento de ‘O Nascimento de uma Nação’ em 1915 é o ápice da animalização do homem negro. O filme de D. W. Griffith apresenta Gus, ex-escravizado, matador profissional e que sente atração sexual por mulheres brancas.

‘O Nascimento de uma Nação’ trabalhou pela bestialização do homem negro

A cena emblemática da obra-prima do racismo acontece quando ele persegue Flora Cameron. A jovem inocente corre pela floresta de uma figura animal. Gus tem o corpo pintado com tinta marrom – precursão do black face – olhos arregalados e uma expressão animalesca. Flora está aterrorizada com a ameaça negra e prefere se jogar de um penhasco a ser tocada pelo homem. Eis que à beira de um precipício, a menina é resgatada pela Ku Klux Klan, que caça e lincha Gus até a morte.

Impossível não lembrar desta construção social ao assistir ‘Olhos que Condenam’. Fairstein, Lederer e a Justiça dos Estados Unidos apostaram na bestialização do homem negro como trunfo para a condenação. Bastava contar com a força da imprensa, que fez seu trabalho com maestria.

Antron, Kevin, Yusef, Raymond e Korey passaram de cinco jovens comuns para criminosos sexuais. Tal como Gus em ‘O Nascimento de uma Nação’. A crueldade e o racismo de Nova York deixaram sequelas eternas na vida dos jovens.

Raymond, depois de passar quatro anos na prisão, se envolveu com tráfico de drogas. Ficha suja, não conseguia emprego. O adolescente boa pinta morreu durante o julgamento injusto. Os sonhos também. Foi preso novamente.

Depois que o temporal passou

Korey, com 16 anos, foi levado para uma prisão de adultos. Passou 13 anos no cárcere. Lá, foi espancado por outros presos, taxado de estuprador e chantageado por policiais. O sistema é foda. Passou anos tendo alucinações dentro de uma solitária. Sonhava com passeios ao lado da namorada parceria de frango frito no Harlem. Os dois andavam livres pelo parque de diversões em Coney Island. Trocaram o primeiro beijo, tomavam sorvete e sorriam. Sonhos e humanidade arrancadas por Linda e sua turma.

A injustiça (ou crime quase perfeito?) só chegou ao fim em 2002. Matias Reyes, estuprador em série que cumpria pena de 40 anos, confessou o crime contra Trisha Meilli. O DNA confirmou.

Os cinco estavam livres. Mas e suas vidas? Mudaram para sempre. Nenhum deles recebeu pedido de perdão do Estado de Nova York, de Linda ou Elizabeth. Pelo contrário. Donald Trump chegou a chamar de “lixo” um documentário sobre o caso. O bilionário Michael Bloomberg disse enquanto prefeito que a cidade de Nova York “agiu de boa fé”. O político lutou por anos contra pedido de indenização de 250 milhões de dólares feito pelos agora homens.

O sucessor Bill de Blasio afirmou que trabalharia para corrigir uma “grande injustiça”. Eventualmente chegaram ao acordo de 40 milhões de dólares de indenização.

Dos cinco, apenas Korey Wise mora em Nova York. Hoje com 46 anos, ele se tornou advogado pela reforma do sistema penitenciário norte-americano. Wise, que passou 12 anos preso, doou 190 mil dólares ao Innocence Project, da Universidade do Colorado.

“Você pode perdoar, mas não vai esquecer. Você não pode esquecer o que perdeu. Nenhum dinheiro pode reviver o tempo arrancado de você”, declarou em entrevista de 2012.

Yusef Salaam tem 45 anos e ficou mais de seis anos na prisão. Atualmente, mora com a esposa e os 10 filhos na Geórgia.  Ele se tornou um escritor, poeta e advogado pela reforma do sistema carcerário. Em 2016, recebeu das mãos do presidente Barack Obama um prêmio em reconhecimento ao seu trabalho social.

Raymond Santanade 44 anos, permaneceu preso por 10 anos. Ele também mora na Geórgia com sua filha adolescente. Em 2018, lançou a própria marca de roupas, a Park Madison NYC. Foi um tweet de Raymond que inspirou Ava Duvernay a embarcar em “Olhos que Condenam”.

“Eu estava pronto para reviver isso, para passar pela dor novamente, chorar. É um sacrifício, você quer mudar a cultura, mas precisa estar engajado. É dessa forma que permanecemos determinados”, declarou ao New York Times.

Antron McCray está com 45 anos e passou seis anos em um centro de correção infantil. É casado, pai de seis filhos e leva uma vida tranquila na Geórgia. Antron, até os dias de hoje, não perdoa o pai por tê-lo obrigado a mentir.

“Eu tinha carinho pelo meu pai”, ele disse à CBS News. “Mas ele desistiu de mim. Você sabe, eu estava dizendo a verdade e ele orientou a mentir. Por que deveria fazer as pazes com ele?”

Com 44 anos, Kevin Richardson passou seis anos atrás das grades por um crime que não cometeu. Ele fixou residência em Nova Jersey, onde vive com a mulher e duas meninas. Atua como advogado pela reforma penal dos EUA e compartilha sua experiência em eventos.

Justiça cega?

‘Olhos que Condenam’ vai além da fronteira dos Estados Unidos. No Brasil, quatro em cada cinco presos pela Justiça Federal não têm condenação. Rafael Braga Vieira é o símbolo da seletividade penal brasileira.

Condenado a seis anos de reclusão, o catador de materiais recicláveis foi detido no auge dos protestos de 2013. Rafael, sem dinheiro para pagar a passagem de ônibus dormia no centro do Rio de Janeiro quando foi detido.

Cinco anos depois, o homem viu sua vida deteriorar (ainda mais). Ele precisa responder acusações injustas de tráfico de drogas. Rafael, que é negro, está em prisão domiciliar e passa por tratamento contra tuberculose contraída no péssimo sistema penitenciário do Brasil.

A população carcerária tem cor e os olhos da Justiça não são cegos. Das mais de 726 mil pessoas presas, cerca de 64% são jovens negros entre 18 e 29 anos. Os dados são do Levantamento Nacional de Informações Penitenciárias. (Infopen).

Rafael é o exemplo de como a Justiça enxerga. E bem

Bárbara Querino, de 20 anos, está presa acusada de roubar um carro e joias de luxo. O assalto teria acontecido em um bairro nobre da Zona Sul de São Paulo. Ela, no entanto, estava trabalhando em uma sessão de fotos e filmagens no Guarujá, litoral paulista.

As provas apresentadas por Bárbara são ignoradas

Ela até postou imagens ao lado de outras modelos. Não o suficiente para os olhos da Justiça, que enviou a modelo para um presídio em Franco da Rocha, na Região Metropolitana de São Paulo, onde permanece presa desde janeiro. Seis meses!

“Foram negados dois HCs [Habeas Corpus, pedidos de liberdade à Justiça] com provas de que eu não estava no ato”, lamenta em carta enviada para a amiga.

São seis meses atrás das grades

Vai doer. Você vai chorar. Mas não pense duas vezes, assista ‘Olhos que Condenam’, produção indispensável para os que desejam entender a construção de uma sociedade onde o negro não é bem-vindo.

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Fotos: Reprodução


Kauê Vieira
Nascido na periferia da zona sul de São Paulo, Kauê Vieira é jornalista desde que se conhece por gente. Apaixonado pela profissão, acumula 10 anos de carreira, com destaque para passagens pela área de cultura. Foi coordenador de comunicação do Projeto Afreaka, idealizou duas edições de um festival promovendo encontros entre Brasil e África contemporânea, além de ter participado da produção de um livro paradidático sobre o ensino de África nas Escolas. Acumula ainda duas passagens pelo Portal Terra. Por fim, ao lado de suas funções no Hypeness, ministra um curso sobre mídia e representatividade e outras coisinhas mais.

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