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Pioneiras: conhecer a história do futebol feminino é essencial para a valorização do esporte

por: Bárbara Fonseca

Quantas coisas foram feitas por mulheres e que você não sabe que foram feitas por mulheres? No esporte não é diferente. Para começar a falar sobre a história do futebol feminino no Brasil, precisamos falar sobre o apagamento da história da mulher. Quantas vezes não escutamos a frase: “nossa, mas foi uma mulher que fez isso?” De uns tempos para cá, pipocaram notícias e pesquisas nos mostrando que muito do que conhecemos hoje foi inventado ou descoberto por uma mulher. Lembram da Ada Lovelace , que é considerada a primeira programadora do mundo? Sem ela você provavelmente não estaria lendo essa matéria.

Quando começamos a falar sobre futebol feminino no Brasil, não sabemos, por exemplo, quais foram os primeiros times formados por elas. Para Lu Castro, jornalista especialista em futebol feminino há treze anos, “nomear um time o primeiro é uma questão muito delicada, pois não temos nenhum registro sobre ele”.   

Correio do Paraná, 13 de junho de 1959

Sabemos que os primeiro times surgiram nas duas primeiras décadas do século 20 na cidade de São Paulo,  mas até o momento não conhecemos nenhum arquivo que documente isso, apenas relatos de pessoas que viveram nessa época. Apenas a partir da década de 30 é que começamos a ter algumas anotações sobre essas mulheres. A pesquisadora Aira Bonfim, no seu trabalho de curadoria da exposição Contra Ataque! As Mulheres do Futebol, nos apresenta esses registros nas paredes do Museu do Futebol, no Estádio do Pacaembu, em São Paulo.

O Radar e o Araguari Atlético Clube são dois times sempre citados como os pioneiros, mas é importante dizer que eles não foram os primeiros, mas sim os que tiveram mais destaque dentro do contexto da época.

Foto José Inácio – Manchete Esportiva

O Araguari, de mesmo nome da sua cidade no Triângulo Mineiro, se destacou em 1958, numa época onde as mulheres eram proibidas de jogar futebol por uma lei que dizia: “Às mulheres não se permitirá a prática de desportos incompatíveis com as condições de sua natureza, devendo, para este efeito, o Conselho Nacional de Desportos baixar as necessárias instruções às entidades desportivas do país.” Mesmo com a proibição elas continuaram jogando até 1959 em vários estados do país, em campos oficiais e foram filiadas a Federação Mineira de Futebol.

O time de Minas representa a resistência de mulheres que formaram times e atuavam dentro do período de proibição. Foram oficialmente reconhecidas, tiveram reconhecimento da imprensa nacional da época e mostraram, mesmo que por pouco tempo, que as mulheres podiam e queriam participar da história do futebol no Brasil.

Acervo Museu do Futebol | Direitos Reservados

Depois da proibição, alguns times começaram a ter mais visibilidade, entre eles o Radar, time carioca que se destacou por ganhar a Taça Brasil de Futebol Feminino por seis anos seguidos, de 1983 até 1988. No ano seguinte, conquistou o Torneio Brasileiro de Clubes. Em 1990, com pouco apoio da mídia, pouca remuneração para as atletas e com campeonatos vazios, o time também deixou de existir.

Esses times não jogaram sozinhos, porém, por falta de acervo histórico, não temos acesso às histórias de muitos outros e nem das suas jogadoras. Além da história que é feita e registrada pela imprensa, as atletas também tem um papel fundamental para a preservação dos seus momentos e conquistas.

“Muitas atletas que são protagonistas não tem muita noção de preservação de acervo”. Nos contou Lu Castro.

Acervo Museu do Futebol | Coleção Suzana Cavalheiro | Direitos Reservados

Acervo Museu do Futebol | Coleção Suzana Cavalheiro | Direitos Reservados

Para que a nova geração de mulheres saiba contar a sua história e as das que vieram antes delas, é importante que a imprensa, as jogadoras e o público registrem esses momentos. Que a as meninas da base saibam que o que a construção da sua caminhada deve ser compartilhada, que uma caneleira, uma chuteira ou uma credencial, contam histórias.

“É a nova geração de atletas que deve ser incentivada a seguir carreira quando demonstra interesse pelo futebol, que deve ter consciência que uma chuteira estourada, uma credencial, fotos, vídeos ou uma camisa velha, são importantes e devem ser guardados para passar a história adiante.”

Na sexta feira a bola começou a rolar na França, na Copa do Mundo de Futebol Feminino, que antes mesmo do primeiro apito, já podemos considerar a mais importante das competições. Isso porque os holofotes voltados para a categoria nunca foram tantos. No Brasil, teremos transmissão dos jogos em canal aberto, narradoras mulheres e uma grande cobertura da mídia. O futebol feminino nunca esteve tão perto das torcedoras.

O futebol é tratado como se fosse pensado e realizado apenas por homens. Não é à toa que a história das mulheres no esporte não foi registrada – até agora.

 

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Bárbara Fonseca
Cervejeira, feminista e torcedora de arquibancada, não perde a oportunidade de levar o protagonismo feminino para esses espaços. Cientista social, é de humanas, mas não tem medo de planilha. Recentemente, mergulhou de cabeça em sua paixão: assina as criações da Cervejaria Catimba e integra o coletivo cervejeiro feminista Sailorina.

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