Precisamos falar Sobre

Por que a sexualidade das pessoas com deficiência ainda é tabu

por: Mari Dutra

Era um dia de preguiça quando me conectei à Netflix e busquei algum filme espanhol qualquer para assistir. Selecionei ao azar o título “Vivir y otras ficciones” e é provável que nem tenha lido a sinopse antes de apertar o play.

Foram pouco mais de 80 minutos acompanhando a luta do ativista pelos direitos humanos Antonio Centeno em busca do direito a se masturbar, que, diga-se de passagem, vai muito além do prazer sexual. Para uma pessoa com diversidade funcional, termo usado na Espanha e que traduzo literalmente aqui, essa experimentação do corpo nem sempre pode ser oferecida pelas próprias mãos – e é aí que começa um grande dilema.

O filme de Jo Sol apresenta o projeto de assistência sexual. Não se trata de um documentário, mas de uma obra de ficção, como o nome sugere, que finca suas raízes na vida real ao narrar a história do tetraplégico Antonio e de Pepe, um idoso que por algum tempo roubava táxis para trabalhar e os devolvia ao final do expediente. Frente à sociedade, tratam-se de dois outsiders, que fazem o possível para transpor as barreiras – físicas, psicológicas, sociais – que lhes foram impostas.

Eu poderia ter dormido bem aquela noite se não jogasse o nome de Antonio Centeno no Google e descobrisse que este ex-professor de matemática encarou todas as críticas e tabus para dizer que ele e outras pessoas com deficiência física e/ou intelectual merecem ter prazer sexual e conhecer seu corpo. Sim, eles fodem (das mais diversas maneiras), como diz o documentário dirigido por Antonio ao lado de Raúl de la Morena: “Yes, We Fuck!“.

Foto: Reprodução “Yes, We Fuck!”

O verbo foder, trepar ou qualquer equivalência que poderíamos usar em português, é proposital. Ele visa tirar a carga de inocência e infantilidade que muitas vezes a sociedade joga sobre pessoas com deficiência. Quando se tira esse véu, todos se tornam somente humanos, pessoas que fodem, que se masturbam e que se relacionam amorosamente com outras.

A sexualidade como direito

A figura do assistente sexual na Espanha foi defendida por Antonio Centeno, idealizador do serviço Mis Manos, Tus Manos. Com raízes em Barcelona, o projeto se espalhou pelo país e cruzou o oceano, oferecendo a possibilidade de assistência também no México e na Colômbia. Através do site Asistencia Sexual, é possível pesquisar por prestadores de serviço e contratá-los pagando em média 50 euros.

Embora seja associado por muitos à prostituição, o objetivo da assistência é outro. Não há sexo no sentido tradicional da palavra, mas sim um suporte para que o indivíduo conheça seu próprio corpo e, com isso, possa desenvolver seu desejo e erotismo. O serviço também é usado por casais, para que uma pessoa com diversidade funcional possa realizar posições sexuais ou movimentos que, de outra forma, não conseguiria.

Assim como a cadeira de rodas não passeia com a pessoa que possui diversidade funcional (a pessoa passeia a sua maneira, com as rodas da cadeira e suas próprias decisões), o assistente não masturba a pessoa (a pessoa se masturba do seu jeito, com as mãos do assistente e com suas próprias decisões)“, explica o site do projeto. A intervenção do assistente é apenas instrumental: não tem beijos, não tem carícias, fingimento e, principalmente, não faz parte do trabalho excitar ou ser excitado durante o processo.

Para o assistente sexual H.S., foi necessário “aceitar sua consciência” antes de começar a trabalhar na área, embora destaque que essa é uma função complementar em sua vida e não sua principal fonte de renda. Após atender algumas pessoas de maneira informal, ele soube sobre a plataforma espanhola e decidiu inscrever-se. “Começou como o pedido de uma pessoa que eu apoiava de outra maneira e que me pagava pelas horas de apoio. Daí em diante, foram referências através dessa pessoa. Ao registrar-me na plataforma, foi mais formal, para dizer assim. Antes eu me dedicava por conta própria, até que um amigo me falou desta modalidade“, contou ao Hypeness por e-mail.

O assistente destaca que é comum que exista uma conversa rápida com o cliente, visto que muitos pensam que se trata de um serviço sexual, o que não é a mesma coisa. “Minhas experiências foram curiosas, porque cada indivíduo, ainda que requeira uma assistência sexual, tem necessidades diferentes e, inclusive sem ser psicólogo, também detecto emoções e sentimentos atordoados, que é difícil para eles expressar. Essas sessões de acompanhamento os ajudam de alguma forma a desafogar-se, sem a necessidade de que o assistente chegue a algo mais profundo, mas para eles é libertador“.

H.S., que pediu para não ter seu nome real divulgado, conta que, no México, onde vive, o assunto é pouco difundido, sendo tratado como um tabu inclusive pelas pessoas que solicitam a assistência.

O projeto encontra-se ainda em uma zona cinzenta tanto na Espanha quanto no México, onde sua realização não está regulada. Em contrapartida, países como a Alemanha, Dinamarca, Holanda, Suíça ou Bélgica já legalizaram o trabalho de assistência sexual. Em alguns locais, o serviço é até mesmo considerado de saúde pública e subsidiado pelo estado. Na Suíça, por exemplo, a regulamentação prevê encontros mensais e assistentes com diploma universitário, como destaca o El País, enquanto a Alemanha viveu recentemente um dilema em relação a estes serviços.

Além da cadeira de rodas

Embora as pessoas com deficiência física tenham sido o foco inicial da assistência, o projeto também visa auxiliar o desenvolvimento da sexualidade de pessoas com deficiência intelectual. Em “Yes, We Fuck“, vemos que muitos indivíduos ou mesmo casais formados por pessoas que convivam com algum tipo de deficiência intelectual não possuem espaços onde lhes seja permitido explorar sua sexualidade.

É certo que muitas famílias evitam oferecer a possibilidade de experimentação por medo de expor as pessoas a abusos sexuais. Afinal, ainda acredita-se muito na ideia de que quanto mais informação sobre educação sexual de pessoas com deficiência uma família tiver, menores são as chances de um abuso sexual ocorrer.

O cientista social Marco Antonio Gavério contesta essa afirmação. A gente precisa lembrar de um dado que é muito importante para este tipo de discussão, de que 90% dos abusos sexuais se dá exatamente no seio familiar, se dá exatamente no meio em que mais se conhece sobre a condição de deficiência daquela pessoa, então às vezes o próprio nível de informação do que a criança pode ou não fazer pode levar com que o indivíduo abuse daquela criança“, diz. 

Marco é graduado em ciências sociais pela Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), mestre e doutorando pelo Programa de Pós-Graduação em Sociologia da mesma universidade, onde pesquisa uma visão sociopolítica de deficiência. Ao Hypeness, o pesquisador explica que existe uma perspectiva cultural e histórica de pensar a deficiência não somente como uma marca corporal ou um diagnóstico, mas também como uma identidade política e social, uma identificação burocrática, administrativa e também um termo em disputa.

Ao ser questionado sobre a maneira como a sexualidade das pessoas com deficiência intelectual vem sendo tratada, Marco lembra que as mulheres costumam ser as principais vítimas de tratamentos invasivos e cita a realização de laqueaduras em crianças e adolescentes como uma forma de prevenção da gravidezIsso parte da ideia de que elas irão fazer sexo em algum momento da vida, mas, por não contarem com condições cognitivas ditas normais, não terão acesso a métodos contraceptivos.

Essa perspectiva também faz com que muitas famílias optem por manter estas pessoas trancafiadas ou em constante estado de vigília, o que oferece à família mais segurança, embora não necessariamente se reflita em segurança para os indivíduos com deficiência. “Ou a própria família já lida com essa pessoa com um tabu muito grande para ela manter relações sexuais saudáveis e inclusive educá-la a usar métodos contraceptivos, contra a aquisição de doenças sexualmente transmissíveis“, exemplifica Marco.

A conexão entre sexo e deficiência no Brasil

Segundo o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), quase um quarto dos brasileiros possui algum tipo de deficiência.

Apesar disso, a sexualidade de pessoas com deficiência física ou intelectual só passou a ser discutida no país a partir do final da década de 80, evidenciada principalmente por pesquisadores na área da educação especial, que passaram a dar atenção à educação sexual destas crianças e adolescentes.

Para Marco, é importante que aprendamos a “compreender essas duas categorias, deficiência e sexualidade, como construções sociopolíticas“, pois, mesmo que o senso comum considere a questão da deficiência e da sexualidade como coisas orgânicas e naturais aos seres humanos, essas categorias não emanam dos próprios indivíduos, mas são construídas socialmente.

Para explicar isso, o pesquisador usa o conceito de looping, de Ian Hacking: “A ideia do looping quer dizer que existe uma prática social, que é nomeada depois de muito tempo cientificamente, e essa categoria científica passa a ser absorvida por aqueles indivíduos aos quais as práticas foram nomeadas. Eles se apropriam do termo e o transformam. Aí a ciência se volta a esse termo transformado e então é um ciclo de tensão entre as práticas sociais e os saberes sociais dessas práticas, né? Mas efetivamente as coisas não se separam“.

Graças a isso, ele entende tanto a deficiência quanto a sexualidade como dimensões políticas, históricas e culturais de nossas vidas. “Se você vê alguém numa cadeira de rodas, por exemplo, você imediatamente pensa que essa pessoa teve alguma coisa no seu corpo. A sexualidade também a gente vê a partir de uma lógica reprodutiva, que pressupõe uma certa natureza sexual do indivíduo, mas que é por muito tempo latente e que só depois, no período da puberdade, vai se manifestar“.

As políticas públicas no Brasil em relação a estes temas se situam em uma zona nebulosa, visto que existem políticas voltadas às pessoas com deficiência e outras que são focadas em sexualidade – estas últimas com esforços mais dirigidos à população LGBT. Marco cita que até hoje o viés que norteia a questão da sexualidade em relação às pessoas com deficiência é o da educação sexual, bastante atrelado à área da pedagogia.

Essa educação sexual hoje começa com os pais e professores, para que eles compreendam a sexualidade dessas crianças que, na puberdade, irão ter desejos e curiosidades semelhantes aos de outras crianças da mesma idade que não possuem deficiência. A diferença é que elas costumam ser muito mais vigiadas e que há ainda muitos mitos em torno da sexualidade destas pessoas, que são tratadas “como se fossem naturalmente hipossexuais ou hipersexuais ou assexuais“, o que não é verdade.

Pesquisas já constatam a normalidade da sexualidade na vida de crianças e jovens com deficiência. O que as impede de ter uma vida sexual plena e saudável seriam os tabus e mitos que permeiam essa condição.

A partir disso, busca-se na educação sexual um caminho para informar pais e profissionais que lidam com essa população e também para empoderar as crianças e jovens com deficiência para sua própria sexualidade. Marco lembra, no entanto, que essa perspectiva trata a sexualidade como uma função biomecânica, ligando-a somente às funções sexuais, às mudanças que o corpo passa na puberdade, seu desenvolvimento físico-motor, hormonal, etc. 

Quando você olha as políticas públicas pras pessoas com deficiência, quando elas tocam o tema da sexualidade, elas sempre vão tocar na dimensão do direito sexual e reprodutivo e na dimensão da educação sexual, da pedagogia sexual, porque vai se partir de um pressuposto de que esses indivíduos, eles só não são compreendidos na sua sexualidade ou eles não conseguem usufruir de uma sexualidade dita normal. E a sexualidade nesse debate aparece também como uma série de práticas somente coligadas à esfera de uma certa biomecânica do sexo. A capacidade de transar, a capacidade de se reproduzir sexualmente, nos homens a capacidade de manter uma ereção, nas mulheres a capacidade de manter uma lubrificação, de casar, de poder ter filhos…“, critica.

O pesquisador aponta que esta visão biomecânica pode ser uma saída administrativa encontrada para que órgãos estatais consigam oferecer uma mínima proteção social a pessoas que são consideradas vulneráveis. Na perspectiva de Marco, temos atualmente “uma diretriz de direitos humanos e salvaguarda dos direitos sexuais e reprodutivos” destas pessoas, mas é difícil saber como isso ficará nos próximos anos, visto a onda conservadora no país, com tendência a tratar temas sobre sexualidade de maneira sensacionalista.

Quando a gente fala de educação sexual para a população LGBT ou quando fala de educação sexual hoje, em qualquer lugar, principalmente numa escola, a tendência das pessoas entenderem educação sexual como ideologia de gênero é muito grande. As pessoas não vão pensar diretamente na necessidade de ensinar, por exemplo, as crianças a usar um preservativo o mais cedo possível para estarem preparados para quando sua puberdade chegar“, exemplifica.

Para saber mais 

 

Filme “Yes, We Fuck” disponível online

Blog Desintegrações, escrito por Marco Antônio Gavério

Feminist, Queer, Crip, livro de Alison Kafer

Filme “Vivir y Otras Ficciones”

Publicidade

Créditos sob as imagens


Mari Dutra
Especialista em conteúdos digitais, Mariana vive na Espanha, de onde destila textos sobre turismo, sustentabilidade e outros mistérios da vida. Além de contribuir para o Hypeness desde 2014, também compartilha roteiros e reflexões mundo afora no blog e no Instagram do Quase Nômade.

Branded Channel Hypeness

Marcas que apoiam e acreditam na nossa produção de conteúdo exclusivo.



X
Próxima notícia Hypeness:
‘Eu chamo isso de parceria própria’: Emma Watson rebate pressão para casar e ter filhos aos 30