Entrevista Hypeness

Thierry Geoffroy: ‘a arte de emergência e a autocrítica podem salvar o mundo’

por: Brunella Nunes

“Bem-vindos, trabalhadores baratos”. A frase pixada numa barraca de camping é parte da chamada arte de emergência, defendida pelo artista francês Thierry Geoffroy como uma possível salvação do mundo. Focado no despertar da consciência coletiva, ele realiza intervenções ao redor do mundo para provocar mudança no agora, antes que seja tarde demais, conforme ditam suas próprias palavras.

Também conhecido como Colonel, o francês vive em Copenhague, na Dinamarca. Mais do que ser um artista, é um artivista, pois faz uso de vertentes artísticas para despertar uma manifestação em nome da inquietude, na luta contra a apatia, a sensação letárgica que paira sobre boa parte do planeta. Pautado pelo o que há de mais emergente, categoriza seus formatos de arte como “ultracontemporâneos“, tendo como desdobramento a Copenhagen Ultracontemporary Biennale, criado por ele e pela curadora Tijana Miskovic.

Temas como religião, política, crise migratória, economia e tecnologia são alvo constante de suas criações, sempre carregadas de crítica e de perigos iminentes, expostas para a sociedade  que, segundo Geoffroy, está dormente. São como objetos de estudo que, depois de posicionadas ou realizadas em locais estratégicos  -  como por exemplo, em frente à embaixadas  - , são documentadas para chegarem às galerias.

Thierry, Tijana e a instalação “fear the fear makers”.

A urgência é sempre colocada como gatilho para ações, como acontece durante a chamada de Emergency Room (Sala de Emergência, em português), que não é uma sala de hospital, embora tente achar uma cura para os problemas, mas uma resposta imediata dos artistas às notícias do dia. Mais efêmera do que nunca, é substituída a cada 24 horas.

O projeto colaborativo pode ser visto como uma residência artística, um laboratório contínuo em expansão e constante movimento. São propostas ações imediatas para artistas, que segundo Geoffroy, são “termômetros para detectar, medir e diagnosticar as disfunções da sociedade”, trazendo uma mudança constante no espaço expositivo a partir da reação aos fatos em tempo real.

O público em geral é convidado a pensar e a interagir durante a “Critical Run”, uma corrida na qual as pessoas vão debatendo algum assunto durante a prática. Quando esteve no Brasil, em 2016, fez algo semelhante na Galeria Emma Thomas.

Avesso às redes sociais, Geoffroy é bastante crítico com a sociedade contemporânea e seu comportamento. Às vezes, durante a conversa, ele próprio cai em seus julgamentos, reconhecendo-se um ser humano falho ou contraditório, e tudo bem quanto a isso, afinal, não teria como ser diferente, já que é errando que se aprende.

Da Dinamarca, ele conversou com o Hypeness sobre arte, ativismo, problemas e soluções.

Hypeness: Sua pesquisa sobre as bienais de arte tem sido longa, desde 1989. O que realmente te incomodou e continua incomodando em relação à indústria artística?

Thierry: A arte deve ser honesta, transparente sobre o que se propõe. O problema das bienais é que atendem aos interesses dos patrocinadores. Acho que esses eventos são uma parte responsável dessa apatia. Quanto mais confortáveis estamos, mais alimentamos a apatia.

Então nesse sentido eu diria que elas são perigosas, de forma semelhante ao da democracia atualmente. As pessoas acham que vão eleger alguém que irá resolver os problemas para elas, assim não precisam mais pensar.

É a mesma coisa que se imprime de um museu ou bienal quando há uma atitude política. Na maioria dos casos as bienais mostram algum tipo de compaixão, interesse nos problemas mundiais, mas na verdade não possuem. Então as pessoas acham esse fato já resolve alguma coisa.

E na verdade é oposto! As bienais estão a serviço de patrocinadores, e são usadas para coisas como a gentrificação. Existe uma política higienista nestes eventos. É como se fossem uma máquina de limpeza, que elitiza a arte e faz os preços imobiliários subirem. Acho que no fundo as bienais existem para vender outra coisa, não arte. É uma perda de tempo.

E como seria a Biennalist, a bienal que você mesmo criou?

É um formato de arte, criado para questionar as estruturas e debater temas por meio de site specific. A Documenta (como é chamada) recebe 1 milhão de visitas, o que é enorme, é mais do que uma partida de futebol no Rio [de Janeiro]. E inclui pessoas em posições de poder, como um diretor acadêmico ou de uma revista.

No caso, e eles precisam conversar sobre o pensamento intelectual de uma máquina de poder. São 1 milhão de pessoas passando por um lugar para conversar juntas. Quando faço a Critical Run, as pessoas debatem entre si, dão opiniões diversas e eu não tenho nenhum controle sobre isso. Mas incentivo que debatam. Acho interessante mexer com as emoções, então é para isso que uso a Biennalist.

“As bienais são perigosas?”

Falando em emoções…você é bastante crítico com as redes sociais e seu trabalho começou, ironicamente, com algo semelhante ao que hoje chamamos de Facebook. Pode explicar como foi?

Começou em 1988, era um projeto sobre exibicionismo. Fiz num formato no qual as pessoas compartilhariam fotos privadas, com a melhor foto que as representasse. Um pedaço de plástico era usado como corpo, anexo à fotografia, junto com um texto que contasse o que elas estavam fazendo, como uma estátua.

O evento era proibido para voyeurs. Ou seja, impedia as pessoas de assistirem, era apenas para participantes. No começo das mídias sociais você precisava de um login para ver o que as pessoas estavam fazendo. No final das contas, meu trabalho resultou no que é o Facebook hoje. O mecanismo da plataforma é igual! É engraçado pensar nisso.

Na época, acredito que as pessoas se sentiam nuas, no sentido de vulneráveis, pois não podiam esconder quem elas eram. Se as pessoas não escondem quem elas são, talvez tenhamos uma comunidade melhor.

E como você enxerga o Facebook e suas redes atualmente?

O que o Facebook está fazendo é uma ilusão de abertura, para que as pessoas pensem que o que postam é real, autônomo, mas na verdade a empresa está controlando o que você posta e com quem você está conectado.

Numa comparação com a democracia, parece que podemos opinar sobre tudo, temos a sensação de estarmos participando de alguma coisa, mas na verdade é o Facebook que regula o que você faz, te mostrando mais um certo tipo de coisas e escondendo outras. É um território onde você vê tudo seletivamente.

A cultura do consumo tornou as pessoas mais egoístas, assim como as redes sociais. Você se cerca das suas próprias referências e muta o que não te agrada, dentro de um ambiente monitorado e controlado.

Se você postar algo político, que seja considerado contra o sistema, eles escondem seu post para os outros. Então existe a sensação de que você diz o que quer, mas se ninguém ver, significa que nunca existiu.

E aquilo tudo serve para quê? Não é para unir as pessoas, mas para obter lucro. E os usuários são esse produto, esse meio de ganhar dinheiro.

“Eles possuem nossa memória, nossa história e o direito de mudá-las”

 

 

Você sempre fala muito sobre o “Awareness Muscle” (ou Músculo do Alerta, em tradução livre). Seria um convite para o despertar de uma consciência coletiva?

Sim, porque é preciso estar atento, encontrar um sistema onde se enxerga o que está acontecendo, para proteger a si mesmo e o resto da sociedade. Se as pessoas estão entretidas o tempo todo, não há espaço na cabeça para enxergar e absorver mais nada. Então elas pairam sob a apatia, que para mim é uma forma de não estar desperto.

Em termos de solução, acredito que a arte pode treinar esse “músculo” da consciência, que evidentemente não existe, eu criei. É como a memória, que quanto mais você treina, mais ela cresce.

Assim, com 15 minutos de dedicação por dia, você consegue estar mais em alerta para detectar coisas como a propaganda, a publicidade, enganando um bando de gente. Se você assistir à televisão, poderá detectar quando e o que estão usando para tentar te enganar, identificar os mecanismos usados para te distrair ou brincar com as suas emoções. Muitas dessas coisas vêm da política ou do entretenimento. Caso contrário, você não pensa e é absorvido pela propaganda.

Mas você sempre conseguiu treinar o seu músculo do alerta? Como foi esse processo de despertar?

Essa ideia me ocorreu quando eu estava viajando. A 30 anos atrás comecei a viajar muito, para todos os tipos de lugares, e por causa da autocrítica você consegue treinar o seu músculo da consciência.

Comecei a notar que, talvez, o que eu estava fazendo não estava certo. O turismo se tornou uma coisa interessante para mim, porque comecei a ser crítico sobre a minha posição como turista, como eu era impactado pelo lugar sendo um mero visitante. Me veio a prática da autocrítica.

Por exemplo, agora vemos que as coisas voltam, como tudo está ligado num ciclo, como é caso da poluição. Podemos dizer que a Índia e a China criam muita poluição, mas podemos dizer que também é minha culpa. Ao invés de jogar problemas para todo mundo, você pode começar a ver a sua posição no problema.

“Bem-vindos trabalhadores baratos”

No caso da crise migratória…isso não é sobre imigração, mas sobre guerra. E em alguns países existe a guerra por causa de lucro econômico. Se vendemos bombas a eles, fazemos muito dinheiro. E aí por causa disso as pessoas se tornam refugiadas. 

E depois se torna um problema os refugiados virem para cá. Quer dizer, nós também somos responsáveis por isso. Na Dinamarca, por exemplo, se as pessoas pudessem, colocariam os imigrantes numa ilha. É uma situação muito ruim. A xenofobia cria medo e o medo cria mecanismos de controle, que envolvem as pessoas em bolhas, dando a falsa sensação de segurança.

A partir daí comecei a desenvolver a ideia da autocrítica. É isso o que chamo de estar atento, vigilante. Você precisa se ver como parte do problema.

“Nós rejeitamos refugiados, vítimas de guerras que nós criamos”.

 

Uma das suas críticas têm relação com a apatia e a sensação de dormência que as pessoas apresentam em relação aos problemas globais. Se ocupar numa bolha social faz com que ninguém tenha forças para realmente agir?

É um ciclo. As pessoas estão adormecidas, dormentes. Você tem muitos problemas ao redor, mas não presta atenção neles a ponto de fazer alguma coisa porque é sempre interrompido pela propaganda e outros meios de entretenimento que te distrai. Hoje existe ainda a autopropaganda, no qual você se coloca como um produto, igualmente editado e vende a sua imagem para os outros. Você manipula.

E a manipulação cega as pessoas. Esse não é um fenômeno exclusivo do Brasil, mas está ao redor do mundo todo. E tudo isso só acontece com base na propaganda, que abre caminhos para o poder, seja na política, no mercado ou qualquer outra coisa.

Como você acha que a arte contribui para impedir a onda autoritária em ascensão?

As coisas que estamos vendo no Brasil ou na Europa, acontecem porque as pessoas foram trapaceadas, alimentadas com propaganda, com uma injeção de publicidade, para que não entendam o que está acontecendo.

Se as pessoas estão conscientizadas, se elas treinam o “músculo do alerta”, não serão enganadas pela propaganda.Uma vez que as pessoas tenham contato com propaganda política, religiosa ou de consumo, elas se deixam enganar por ditadores, por líderes.

Existem pessoas autoritárias chegando ao poder, em diferentes lugares do mundo, porque existem alienados votando neles. E se essas pessoas sequer soubessem em quem estavam votando, não teriam feito isso. Então o que eu tento fazer na arte é deixá-las cientes do que está acontecendo, pelo simples fato de que se você está ciente, não consegue ser enganado.

“A memória tem de ser treinada no agora. A história é contemporânea”

É daí que surge a chamada arte de emergência?

Meu propósito é fazer com que os artistas respondam ao o que acontece agora, que deem uma resposta aos acontecimentos do dia. O trabalho do artista pode ser o de alertar a sociedade e como artista sou muito consciente dos mecanismos do mundo a partir destes cenários cotidianos. É por isso que eu digo: o músculo do alerta, da consciência, deve ser treinado, assim como a autocrítica.

Considera que seu trabalho é disruptivo ou subversivo? Acredita que possa estar mudando o mindset das pessoas? 

Acho que a ideia do meu trabalho não é ser disruptivo, mas construtivo, de maneiras positivas e entusiásticas. É disruptivo contra o que não está se movendo. Meu trabalho funciona dessa maneira: promove o debate e o criticismo. É como a democracia, quanto mais você dá sua opinião, é melhor para o funcionamento dela.

E não acho que está mudando o mindset das pessoas, porque minha técnica não é boa o suficiente. Não tem o alcance que deveria ter. Se eu quero provocar mudança, então eu preciso ser melhor. Para provocar mudança, é como uma guerra. Uma guerra contra a apatia, que precisa ser vencida. E para fazer isso, eu preciso que antes todos estejam acordados.

É preciso que exista uma certa ideia de eficiência e há duas formas de fazer isso: treinar seu músculo da consciência, para não ser enganado; e ter o chamado momento de claridade, como um flash, que acontece de forma muito rápida e forte, criando uma clareza nas pessoas, a ponto delas conseguirem ver os aspectos falsos do mundo.

Se essa batalha entre apatia e consciência está acontecendo, então o treinamento [do músculo do alerta] começou. Mas se eu não estou apto a fazê-lo é porque o jeito que faço está errado, não é inteligente o suficiente. Talvez eu não seja verdadeiro ou autêntico o suficiente. Então só consigo pensar em como posso ser melhor. É isso o que estou buscando, mas é tudo uma questão de energia. Com energia, você pode contribuir com o mundo.

“o músculo do alerta deve ser treinado todos os dias”

Como você busca ferramentas inovadoras para realizar algo que já faz há tanto tempo? 

No momento eu não procuro, tento diminuí-las. A sociedade já é inovadora, já existe muita coisa e todos são levados por elas. Então eu tento reduzir, me livrar dos excessos. Meu problema é a energia. Não perder a energia para continuar. Por isso não me apego ao passado. Procuro investir minhas energias no agora, me inserindo na responsabilidade dos problemas. Não é tão simples, porque quando você pisa em certos territórios, pode perder pessoas ao seu redor.

E isso acontece com você? 

Sim, claro. Muito.

Como você lida com essas perdas? 

Eu falo com você. Surgem pessoas novas, coisas novas…as novas energias podem vir de momentos em que você está puto, ou super enérgico ou muito feliz. Há diferentes formas. É importante não estar sozinho. Talvez no Brasil seja diferente.

Eu vivo num país super frio, onde as pessoas não falam muito. Se eu chamá-las para uma cerveja grátis, elas provavelmente virão. Mas se eu chamá-las para treinar o músculo da consciência e serem autocríticas…não é algo super sexy. É um pouco mais difícil! [risos]

“sempre questione a estrutura”

Acho que existe um distanciamento do público com territórios artísticos. A sensação é de que a arte poderia ser mais palpável, menos seletiva e mais agregadora, porque em sua maioria ainda é algo formada por poucas pessoas e para poucas pessoas…

Porque essas pessoas, que frequentam e compram em galerias de arte, não podem ser perturbadas, insultadas ou atacadas pela arte. E a arte de rua, as intervenções, as perturba. A definição de arte que não provoca, que é colocada só para agradar, ou a ideia de arte ser roubada, pega ou controlada por uma minoria, eu chamo de arte contemporânea [risos]. E para mim esse tipo de arte é suspeita.

Sim, mas você está nessa categoria, certo? Você produz arte contemporânea. 

Sim, você pode me colocar nessa categoria. [risos] Mas se estou dentro dessa categoria, então é minha tarefa questioná-la, não? Para decliná-la. Eu gostaria de me colocar em outra categoria, em uma que eu fiz. Só que também sou cheio de contradições.
Mas se eu for numa bienal, onde há muita gente influente e poderosa, para criar um alerta para as mudanças climáticas, talvez eu alcance algum tipo de sucesso com seus leitores.

“Por que o capitalismo quer parecer humanista?”

O que realmente te preocupa: alcançar pessoas de forma geral ou pessoas que precisem, como você disse, despertar? É mais importante ser provocador e questionar o sistema? 

Meu trabalho não é para a audiência. A audiência é uma ferramenta. Meu trabalho é sobre eficiência. Se houver alguma mudança…se muitas pessoas começarem a se preocupar, protestarem, talvez algo mude no mundo.

Se apenas duas fizerem isso, é mais difícil mudar alguma coisa. Eu protesto porque é importante que as pessoas saibam das catástrofes. Como artista, minha luta é ir contra a apatia, despertar para a autocrítica.

E como as pessoas podem despertar para a autocrítica?

Elas conseguem fazer isso se não têm medo de perder suas máscaras. Não têm medo do que são. Reconhecer que o problema não está aqui por causa dos outros, mas por causa de mim. Não terceirizar os problemas para outros, porque nós também podemos ser a fonte dos problemas. É por isso que digo que qualquer tipo de arte contemporânea ou entretenimento, um show, um filme, uma exposição, é construído para ser um espetáculo. É o que te coloca para dormir.

Você acha que a nova geração está mais atenta sobre as coisas que vêm acontecendo? Como é sua relação com os adolescentes que têm contato com o seu trabalho?

Eles são curiosos. São informados sobre questões ambientais, sobre a guerra, sabem a diferença entre bom e mau. Mas veem as coisas em um ou dois minutos, também não estão conscientes.

Ao mesmo tempo passam horas vendo séries de 20 episódios na TV, no computador ou smartphone. O que quero dizer é que não há tempo para eles pensarem porque estão sempre super ocupados. Os adolescentes são prisioneiros do entretenimento. E algumas pessoas lucram com isso, têm ganhos comerciais.

Talvez você precise fazer uma série para eles assistirem…

Isso que você está falando é engraçado, mas é verdade! Exatamente.

“Não mantenha a calma, o mundo está em colapso”

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Todas as fotos são uma cortesia do artista ao Hypeness.


Brunella Nunes
Jornalista por completo e absoluto amor a causa, Brunella vive em São Paulo, essa cidade louca que é palco de boa parte de suas histórias. Tem paixão e formação em artes, além de se interessar por ciência, tecnologia, sustentabilidade e outras cositas más. Escreve sobre inovação, cultura, viagem, comportamento e o que mais der na telha.

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