Seleção Hypeness

7 livros de ficção que inspiraram crimes na vida real

por: Vitor Paiva

A ficção e os grandes romances da humanidade não devem conhecer limites – e servem, entre muitas outras coisas, para que justamente possamos nos aventurar e experimentar aspectos sombrios e muitas vezes assustadores da compleição humana sem que precisemos faze-lo na vida real. Ao longo da história, porém, a doença humana se sobrepôs em alguns casos ao saudável e fundamental exercício da leitura e da imaginação – tornando, assim, o que era pra ser somente ficção em uma realidade terrível e trágica: certos crimes importantes foram cometidos “em nome” de livros ficcionais, ou inspirados em obras que por nada deveriam constar em autos policiais.

Alguns dos livros citados serviram de inspiração direta, por retratarem crimes na ficção que efetivamente inspiraram monstruosidades na vida real. Outros, porém, precisaram da loucura humana para poderem se tornar combustível de crimes em carne e osso. Naturalmente que, em ambos os casos, o autor não pode de forma alguma ser minimamente responsabilizado por tal macabra inspiração – um escritor não é responsável pelo que pensam e fazem seus leitores, e a loucura humana é capaz de perceber sentido e incentivo em qualquer coisa para que horrores sejam cometidos.

A “Bíblia e o Corão”, assim como outros livros sagrados, são a prova concreta dessa natureza, e não estão citados aqui pois são incontáveis os crimes cometidos em nome de tais obras – a lista se refere a romances originais, livros de ficção evidente, que em princípio nada tinham a ver com a vida real. Pelo mesmo motivo, livros políticos como “Minha Luta”, de Adolf Hitler ou o “Livro Verde”, do Aitolá Khomeini também não foram incluídos. Assim, separamos aqui, como uma denúncia à loucura das armas e da violência, 7 livros que foram apresentados como estímulo ou impulso para a mente doentia de leitores que decidiram tornar tragédias ficcionais em crimes reais – ou simplesmente apresentaram obras de ficção como centelhas para a realização de horrores absoluta e lamentavelmente reais.

1. ‘O Agente Secreto’, de Joseph Conrad (1907)

 

Publicado em 1907, “O Agente Secreto”, de Joseph Conrad, se passa na Londres de 1886, e conta a história de um ex-professor universitário e espião de um país não identificado, que planeja destruir o Observatório de Greenwich com dinamites. O livro não fez muito sucesso comercial à época, mas foi reconhecido como uma das obras mais importantes de Conrad. Por tratar de temas como anarquia, espionagem e principalmente terrorismo, O Agente Secreto foi uma das obras mais citadas nos EUA e no mundo após o 11 de setembro.

Um dos maiores fãs do livro de Conrad era, porém, Ted Kaczynski, mais conhecido como Unabomber. O mais célebre terrorista domésticos dos EUA, responsável por matar 3 pessoas e ferir outras 23, é fã da obra de Conrad desde a adolescência, identificando-se com o personagem do professor. Segundo dados, Kaczynski teria dito a sua família que seria impossível entender suas motivações e gestos sem ler o livro de Conrad.

O terrorista chegou a utilizar o nome Conrad para assinar sua hospedagem em diversos hotéis. Durante as investigações para prender o Unabomber, o FBI chegou a contratar acadêmicos especializados na obra de Conrad para ajuda-los a melhor entender os motivos e a maneira de agir do terrorista, que segue preso desde 1996 em oito sentenças de prisão perpétua.

2. ‘Fundação’, de Isaac Asimov (1942-1993)

Dividida em sete diferentes obras, a série “Fundação”, do mestre da ficção científica estadunidense nascido na Rússia Issac Asimov, conta a história de um futuro distante e distópico, no qual o futuro dos seus habitantes é pautado por uma instituição chamada Fundação Enciclopédica. Os livros contam a história da queda de um império, inspirada na queda real do Império Romano, e o surgimento de um mundo da ciência e da sabedoria, orientado pela “verdade”.

A publicação dos livros da série tomou praticamente toda a vida de Asimov, mas a obra originalmente foi publicada como uma trilogia, em 1951 – a obra foi retomada por Asimov somente em 1981, depois de ter sido convencido pelos fãs e pela opinião pública de sua importância e impacto. A importância da obra é reconhecida e, infelizmente, o atentado inspirado pela Série da Fundação é também dos maiores.

Na mesma época em que Asimov retomou os livros, foi fundado, em 1984, o Aum Shinrikyo, culto fundamentalista apocalíptico japonês responsável pelos ataques com gás sarin no metrô de Tóquio, em 1995. Nos ataques, coordenados em cinco diferentes trens, 13 pessoas morreram, 54 pessoas foram gravemente feridas, e outras 980 foram afetadas. Estima-se, porém, que cerca de 6 mil pessoas tenham sido feridas pelos efeitos do sarin. A história do colapso de um império e de “renovação” dos livros de Asimov inspiraram os membros do culto a idealizarem e realizarem o ataque.

3. ‘O Apanhador no Campo de Centeio’, de J. D. Salinger (1951)

 

Obra-prima de J. D. Sallinger, “O Apanhador no Campo de Centeio” é um dos mais vendidos e influentes livros em todos os tempos (estima-se que cerca de um milhão de cópias ainda sejam vendidas anualmente, e o livro é reconhecido como responsável por “inventar” a geração estadunidense dos anos 1950, e criar a ideia da literatura “jovem” e de libertação).

As aventuras do adolescente Holden Caufield por Nova Iorque depois de ter repetido de ano são um marco da literatura, mas essa obra estará pra sempre ligada a um dos mais impactantes crimes do século XX: o assassinato de John Lennon. Segundo a loucura do assassino Mark David Chapman, a morte do ex-beatle, em dezembro de 1980, seria o “27o capítulo” do livro – Chapman chegou a citar trechos do Apanhador em seu julgamento, e na cópia que foi encontrada com ele estava escrito: “esse é meu depoimento”. Em 2000, Chapman – que segue preso no estado de Nova Iorque – afirmou que o livro não o fez assassinar Lennon, mas que ele teria ido longe demais em sua identificação com o personagem Holden Caufield.

4. ‘Laranja Mecânica’, de Anthony Burgess (1962)

 

Um dos mais antológicos romances em língua inglesa no século 20, “Laranja Mecânica”, do autor inglês Anthony Burgess, , se passa em um futuro distópico no qual, diante de uma extrema cultura de violência dominante, um adolescente narra feitos violentos, uso de drogas e experiências em reformatórios e prisões suas e de sua turma. Escrito em estilo extremado, com palavras inventadas, termos em outras línguas e uso de gírias, o livro foi recebido como uma obra-prima e até hoje permanece como tal.

O filme de mesmo nome, dirigido por Stanley Kubrick em 1971, também é considerado uma das grandes obras da história do cinema, o que ajudou a elevar o livro a condição de um clássico moderno irrevogável. Há, porém, por trás de todos esses louros, alguns marcos sombrios na história de “Laranja Mecânica”.

O livro foi originalmente inspirado em um terrível crime: o estupro por quatro soldados dos EUA, da primeira mulher do autor, Lynne. Depois da publicação e do lançamento do filme, em 1973 um jovem de 16 anos, vestido como um dos membros da gangue da história, esfaqueou outro jovem. Em 2008, um homem, também vestido como um “droog”, deu um soco no rosto de uma mulher em uma pista de dança em uma festa.

5. ‘Fúria’, de Stephen King (1977)

 

Publicado em 1977 sob o pseudônimo Richard Bachman, utilizado diversas vezes pelo autor estadunidense Stephen King, o livro “Fúria” retrata algo que se tornaria um terrível marco na realidade dos EUA: um assassinato em massa em uma escola. A conexão do livro com uma série de massacres reais em escolas dos país fez com que o autor pessoalmente decidisse banir novas edições da obra.

O gesto de King se explica: em 1988, um estudante na Califórnia manteve 60 estudantes como reféns, até ser nocauteado, sem que ninguém mais fosse gravemente ferido – o livro de King foi apresentado como inspiração. Em 1989, outro grupo de estudantes foi mantido refém por um leitor obcecado pela obra no estado de Kentucky, nos EUA, também sem vítimas. Em 1993, porém, duas pessoas foram assassinadas por um aluno também de Kentuck; em 1996, dois estudantes e um professor foram mortos no estado de Washington, e em 1997, oito estudantes foram baleados, com três mortes, por um aluno, também em Kentucky – em todos os casos citados, os criminosos carregavam uma cópia de Fúria ou sabidamente tinham o livro como guia.

O livro foi tirado de circulação definitivamente depois de 1997, por um pedido do próprio King a seu editor – e levando o autor a escrever um ensaio, intitulado “Armas”, sobre o tema e contra as armas, com todo o lucro direcionado para campanhas de prevenção à violência.

6. ‘Os Versos Satânicos’, de Salman Rushdie (1988)

 

Inspirado na mitologia que sugere que alguns versos do Corão teriam sido subtraídos do livro original por terem sido passados a Maomé não pelo anjo Gabriel, mas sim pelo Diabo, o escritor britânico de origem indiana Salman Rushdie escreveu a história de dois indianos muçulmanos que sobrevivem a um atentado a bomba – um deles desenvolve chifres, cascos e um rabo, e o outro um halo. “Versos Satânicos” foi recebido como uma crítica ferrenha ao islamismo e, apesar da excelente recepção da crítica, as reações foram das mais intensas contra uma obra em todos os tempos.

Inicialmente, militantes queimaram a obra em vários países, e Os Versos Satânicos chegou a ser proibido em diversas partes do mundo. Em 1989, a reação passou ao extremo: o aiatolá Khomeini, então líder do Irã, decretou uma sentença de morte (fatwa) contra Rushdie, clamando pela morte do autor e de todos os envolvidos com a publicação. Alguns líderes religiosos chegaram a oferecer 6 milhões de dólares para quem matasse Rushdie – que por mais de uma década viveu escondido com outro nome, e até hoje oficialmente segue jurado de morte, o que levou a tensões e rompimentos extremos entre o Reino Unido – que mantém o autor sob proteção – e o Irã.

Para além da perseguição a Rushdie, diversos outros crimes foram cometidos por conta de um mero livro de ficção. Em 1991, o tradutor japonês do livro foi assassinado a facadas; o tradutor italiano do livro também foi esfaqueado em 1991, mas sobreviveu; o editor norueguês de Versos Satânicos foi baleado, mas também sobreviveu, e o mais grave atentado, em 1993, quando um hotel foi incendiado para tentar assassinar o tradutor local, levando a morte de 37 pessoas.

7. ‘O Psicopata Americano’, de Bret Easton Ellis (1991)

 

Em “O Psicopata Americano”, publicado por Bre Easton Ellis em 1991, um empresário nova-iorquino da bolsa de valores na década de 1980 possui outra faceta sombria em sua personalidade: ele é também um serial killer. A crítica recebeu o livro com elogios e espanto, mas a opinião pública se colocou radicalmente contra, como sendo uma espécie de elogio aos assassinos seriais e por retratar graficamente violência contra mulheres. O livro foi transformado em um filme, estrelado por Christian Bale em 2000. O sucesso do livro encontrou em um leitor específico, porém, um caminho trágico.

Ainda que diversos crimes tenham sido forçosa ou exageradamente conectados a “O Psicopata Americano”, em 2007 um jovem de 14 anos esfaqueou e matou um colega de classe na Flórida, nos EUA. O assassino, condenado à prisão perpétua, disse que o crime foi ordenado por Deus – e inspirado no livro de Bret Easton Ellis.

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© fotos: divulgação


Vitor Paiva
Escritor, jornalista e músico, doutorando em literatura pela PUC-Rio, publica artigos, ensaios e reportagens. É autor dos livros Tudo Que Não é Cavalo, Boca Aberta, Só o Sol Sabe Sair de Cena e Dólar e outros amores.

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