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‘A Divisão’ recria série de sequestros no Rio e tenta fugir de dinâmica ‘mocinho x bandido’

por: Rafael Oliver

O Hypeness participou da coletiva de imprensa da nova minissérie da GloboPlay, “A Divisão”, produção da AfroReggae Audiovisual em parceria com o Multishow e a Hungry Man. Criada por José Júnior, do Afroreggae, e dirigida por Vicente Amorim, o thriller policial é baseado em histórias reais e retrata os bastidores de uma força tarefa que se uniu, nos anos 1990, para acabar com a onda de sequestros que aterrorizava o Rio de Janeiro, onde havia uma média de 11 por mês. A elite carioca era o principal alvo dos criminosos.  

Criador e roteirista da série, José Junior contou ao Hypeness como aproveitou a experiência acumulada com a ONG Afroreggae, que cuida de jovens de comunidades carentes afastando-os do tráfico de drogas, para dar mais veracidade ao projeto. Depois de entrevistar o ex-delegado da DAS Marcos Reimão em um programa no Multishow, em 2011, Júnior realizou rodas de conversas com policiais, reféns e até ex-sequestradores que já cumpriram suas penas.

Era em 2009. Nenhuma escola de samba de favela do Rio poderia desfilar naquele ano. Só a Beija Flor. O tráfico do Rio decidiu isso. Sabe onde eu fui mediar? Em Londres

 

 

“É mais fácil estar à frente desse projeto para quem vê de perto a violência. Mas ao mesmo tempo tem dificuldades de imprimir essa marca da verdade. Eu tinha que fazer o diretor entender aquilo que eu acreditava. Infelizmente, boa parte das produções audiovisuais, quando se trata de violência e polícia, é fake”, conta Júnior. Para ilustrar o que diz o roteirista, basta lembrar do sargento brasileiro preso com 39 kg de droga. Viu? É bem mais difícil do que apenas uma mentira entre “mocinhos x bandidos”. Essa é a tentativa da nova série.

Júnior, que viveu sob proteção policial por 5 anos, manteve contato com chefões do tráfico, como Elias Maluco e Celsinho da Vila Vintém, é respeitado por todos os lados. Já intermediou guerras entre facções e entre policiais e traficantes. Entrou em presídios durante rebeliões. Diz ter ajudado pessoas amarradas a escaparem da morte. Durante as gravações da série, pediu para que parassem um tiroteio no morro para que a filmagem prosseguisse. Parece loucura. Mas não para Junior, que contou ter viajado a outro continente para negociar com o tráfico carioca.

“Era em 2009. Nenhuma escola de samba de favela do Rio poderia desfilar naquele ano. Só a Beija Flor. O tráfico do Rio decidiu isso. Sabe onde eu fui mediar? Em Londres”, explica. Como você já dever lido aqui mesmo no Hypeness, a ideia de que tráfico se restringe às regiões mais pobres é uma falácia. A guerra às drogas segue um rumo trágico de marginalizar a periferia e segregar a sociedade.

O fundador do AfroReggae garante que o Rio de Janeiro é o epicentro dos problemas de segurança pública do Brasil inteiro. Diz que  parte do crescimento dos grupos armados, como o PCC de São Paulo, tem muito a ver com o intercâmbio do Rio para outros estados e a transferência dos presos em 2007 para os presídios federais.

Não foi por acaso que o doutor da série é negro e a doutora é negra. Em boa parte do audiovisual brasileiro o negro é escravo, empregado. Tudo o que o AfroReggae fizer, negro é protagonista

“Quando o Rio de Janeiro exporta seus problemas para outros estados, ele exporta tecnologia social do crime junto. Por isso você vê esse problema todo que acontece no país. O que a gente vive no Rio, nenhum outro lugar do mundo vive. Fazendo uma conta rápida: são 1200 áreas conflagradas e 18 grupos armados disputando território. Se tem só 50 bandidos por área ( tem áreas que tem 2 mil bandidos), se tem só 5 fuzis ( que não é verdade, tem áreas que tem 700 fuzis), é só fazer a conta. Nem a Faixa de Gaza tem esse quantitativo armado. Tem tipos de armas que não tem nem na Guerra da Síria.”

Junior ainda falou sobre como ajudou a escolher os atores. Explicou que o Afroreggae Audiovisual busca fugir de estereótipos e garante que sempre terá atores negros como protagonistas.

“Não foi por acaso que o doutor da série é negro e a doutora é negra. Em boa parte do audiovisual brasileiro o negro é escravo, empregado. Tudo o que o AfroReggae fizer, negro é protagonista. Sempre. Essa é uma marca nossa.”

A doutora da trama que Junior se refere é a atriz Cinara Leal, que se destaca pela brilhante atuação logo no primeiro capítulo. Diferente dos outros atores, ela nasceu em uma comunidade do Rio e viveu de perto a violência abordada na série. Contou ao Hypeness um pouco da sua visão e falou sobre a importância do seu papel.

“Esse trabalho tem uma importância grande na minha vida. Não só por reverberar e potencializar outras mulheres, a minha raça negra, mas justamente por unir, por despertar a sociedade como um todo. Para esse papel eu trouxe minha experiência como mulher negra, que não é fácil. A gente sabe que não é fácil na sociedade que a gente vive. Diferente de todos aqui, eu poderia ter ido para o crime. A arte me salvou”.

A nova série original da plataforma de streaming da Globo tem apenas 5 episódios na primeira temporada e já está disponível para os assinantes. O elenco ainda conta com Silvio Guindane, Erom Cordeiro, Marcos Palmeira, Dalton Vigh, Natalia Lage e Vanessa Gerbelli.

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Divulgação

Agradecimentos: Agência Soko, Juliana Alencar e Pamella Espíndola.


Rafael Oliver
Publicitário de formação, com passagens por grandes agências, também atua por vocação na área da comédia. É redator, roteirista e humorista . Encontrou em San Diego, na Califórnia, seu segundo lar. Está sempre por lá. Vive uma busca incessante por novas experiências. E está longe de parar.

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