Arte

Cena Musical do Pará pulsa no premiado documentário ‘Amazônia Groove’

por: Janaina Pereira

Uma floresta amazônica que vai além de sua beleza, onde a musicalidade se faz presente em ritmos e versos bem particulares. É desta forma singular que o documentário “Amazônia Groove”, já em cartaz nos cinemas brasileiros, apresenta a cena musical do Pará, com músicas dos mais variados gêneros, como carimbó, búfalo bumbá, guitarrada, violão clássico amazônico e tecnobrega. A produção foi premiada este ano no Festival South by Southwest (SXSW), no Texas.

Intercalando a sonoridade com as lendas dos rios, a fé e as histórias de artistas e anônimos, o documentário dá voz aqueles que andam efervescendo a nossa música mundo afora. São nomes como Dona Onete, Manoel Cordeiro, Sebastião Tapajós, Mestre Damasceno, Paulo André Barata, Albery Albuquerque, Mg Calibre, Waldo Squash e Gina Lobrista, que mostram a variada musicalidade que ecoa na região.

A ideia para realizar “Amazônia Groove” surgiu do cantor e compositor paraense Marco André, após assistir Buena Vista Social Club, o clássico documentário de Wim Wenders sobre a música cubana. Ele procurou o diretor Bruno Murtinho, que na época dirigia videoclipes e trabalhava com música, e começaram a pesquisar personagens e projetar como o filme seria realizado. Oito anos se passaram até que chegasse às telas dos cinemas. “No início eram 20 personagens, mas acabamos fazendo só com nove”, conta Murtinho.

O diretor espera que o documentário ajude as pessoas a olharem para a Amazônia de uma maneira mais humana. “Gostaria que vissem a Amazônia menos alegórica e com menos piedade e mais presença. A gente tem uma mania no Sudeste de olhar para a Amazônia e os índios como se eles fossem coitadinhos e que precisam da nossa ajuda. Mas somos nós que precisamos da ajuda deles”.

Bruno Murtinho acredita que é preciso entender a música e toda a criação artística que existe no Pará. “Acho que precisamos entender a musicalidade, como funciona a floresta e assim melhorar a nossa qualidade de vida aqui [no Sudeste]. Espero que os brasileiros possam ter contato com esse movimento artístico que está tão vivo e tanto pulsa no Pará. Que possam dançar e viver essas canções. E que as pessoas possam ir até lá para vivenciar a beleza que é a música paraense, e ver a espiritualidade que está por trás de toda a criação paraense também”.

A riqueza sonora de “Amazônia Groove” ganha ainda mais força com as imagens da natureza amazônica. Toda a exuberância da floresta, unida à simplicidade da comunidade, se difunde em cenas inspiradoras. Uma das personalidades que participa do filme, Dona Onete é a força vibrante deste cenário. Aos 80 anos, a revelação da música paraense está lançando seu terceiro disco, Rebujo. Os outros dois foram lançados depois dos 60 anos, transformando a mulher que foi Professora de História, Secretaria de Cultura e Fundadora de grupos de dança e música regional como o Canarana, em um dos nomes mais poderosos da região. “É tudo muito verdadeiro, é tudo com muito amor. Eu quero cada vez mais poder dizer aos nossos idosos que eles podem tudo! Que eles podem ser felizes até o final!”, revela Dona Onete em entrevista exclusiva ao Hypeness.

Para a cantora, participar de “Amazônia Groove” foi um momento especial. “É um documentário de extrema importância, que abre janelas e portas mostrando o que somos, o que temos de bonito nesse Pará enorme. Temos tanta coisa linda a ser mostrada”.

Ela acredita que a música paraense vive um grande momento já a algum tempo. “Antes era como se não existisse Norte, as pessoas não falavam de Pará, mas com muita luta, estamos levando nossa cultura, música e gastronomia longe”.

E por falar em gastronomia, além da música, Dona Onete também se dedica a culinária. Ela tem um projeto, “A Cozinha Maravilhosa da Dona Onete”, que leva os sabores do Pará para o mundo. “Isso é uma ‘doidice’, sair para cozinhar pelo mundo sem falar inglês é algo que nunca imaginei. Canto muito sobre nossas comidas, temperos, gostos. Aconteceu naturalmente, meu empresário Geraldinho fala para todo mundo sobre nossa comida, e um dia acabou acontecendo. Já cozinhei em Londres, Austrália, Nova Zelândia…”

Dona Onete enaltece a importância da cultura paraense, e como “Amazônia Groove” pode colaborar para divulgar a região. “Esse documentário é nosso avião para o mundo e para o Brasil todo!”, finaliza.

Publicidade


Janaina Pereira
Jornalista e publicitária. Especializada em cultura - principalmente cinema - e gastronomia. Desde 2009 cobre os principais festivais da sétima arte, como Veneza, Cannes, San Sebastian, Berlim, Rio e Mostra Internacional de São Paulo. Participou dos livros "Negritude, Cinema e Educação" (escrevendo sobre o filme "Preciosa", de Lee Daniels) e "Guia de Restaurantes Italianos" (escrevendo sobre 45 restaurantes ítalo-brasileiros de São Paulo).

Branded Channel Hypeness

Marcas que apoiam e acreditam na nossa produção de conteúdo exclusivo.



X
Próxima notícia Hypeness:
Keanu Reeves está em novo filme do Bob Esponja e isso é maravilhoso