Matéria Especial Hypeness

Como e porque nasceu a bandeira arco-íris do movimento LGBTQ+. E o que Harvey Milk tem a ver com isso

por: Vitor Paiva

Costumeiramente uma bandeira deve representar um país em sua simbologia profunda. Seu povo, e principalmente a história e as lutas da população de tal país, no entanto, não necessariamente se veem contemplados na representação ou na própria história de sua bandeira. Salvo em momentos ou casos de extremo nacionalismo, o reconhecimento de uma bandeira se dá mais por hábito e convenção do que propriamente por identificação real ou sentido.

Há uma bandeira, porém, que supera as fronteiras e os limites nacionais e que, mesmo tendo uma história muito mais recente do que a absoluta maioria dos outros símbolos em panos hasteados, efetivamente hoje representa um povo e sua dura porém gloriosa história – espalhado por todo o mundo: a bandeira do arco-íris, símbolo da causa LGBTQ+. Mas como nasceu essa bandeira? Diante da celebração pelos 50 anos da revolta de Stonewall em 1969 (e, com ela, o nascimento do movimento gay e LGBT moderno), qual a narrativa original de sua feitura e de cada cor dessa flâmula?

Ao se tornar um dos mais bonitos e impactantes símbolos contemporâneos, a bandeira do arco-íris revelou-se também um triunfo do design – significando graficamente com precisão e impacto imediato seu ideal, mesmo que ninguém saiba o significado objetivo original e a história por trás da bandeira. Mas o fato é que, até 1978, o movimento gay de então (que viria a se ampliar em seus tantos braços atuais, rumo à sigla LGBTQ+) não possuía um símbolo unificador.

“Nunca Mais”: ativistas e o triângulo rosa

Durante as Paradas Gays que se sucederam entre 1969 e 1977 o símbolo mais comum utilizado trazia um sentido sombrio de uma memória assombrosa: o triângulo rosa, outrora utilizado nos campos de concentração nazistas costurado à roupa dos que ali estavam presos por serem homossexuais – da mesma forma que era utilizada a estrela de Davi nos prisioneiros judeus.

Era preciso urgentemente um novo símbolo, que significasse a luta e a dor dos que foram perseguidos ao longo dos séculos, mas que também trouxesse vida, alegria, felicidade e amor para a causa LGBTQ+. É nesse ponto que entram em cena dois nomes fundamentais para a confecção desse símbolo universal: o político e ativista gay norte-americano Harvey Milk e o designer e também ativista Gilbert Baker, responsável pela concepção e feitura da primeira bandeira arco-íris.

Gilbert Baker, o designer criador da bandeira

Baker foi transferido para San Francisco em 1970 ainda como um oficial das forças armadas dos EUA e, depois de ser dispensado do exército com honrarias, decidiu seguir vivendo na cidade, sabidamente mais aberta aos homossexuais, para tentar uma carreira como designer. Quatro anos depois, sua vida viria a mudar e sua mais célebre criação começaria a nascer quando, em 1974, foi apresentado a Harvey Milk, então dono de uma loja de fotografia no bairro do Castro, mas já um ativista local importante.

Harvey Milk

Em 1977, Milk seria eleito como supervisor da cidade (algo como um vereador dentro da Câmara local), tornando-se o primeiro homem abertamente gay a ocupar um cargo público na Califórnia. Foi então que ele encomendou, junto com o escritor Cleve Jones e o cineasta Artie Bressan, a Baker a criação de um emblema unificador, reconhecível, bonito e principalmente positivo para o movimento gay, a fim de abandonar a estrela rosa e abraçar um emblema único e à altura da luta.

Harvey discursando em campanha

“Como uma comunidade local e internacional, os homossexuais estavam no centro de um levante, uma batalha por direitos iguais, uma mudança no status na qual estávamos exigindo e tomando poder. Essa era nossa nova revolução: uma visão ao mesmo tempo tribal, individual e coletiva. Isso merecia um novo símbolo”, escreveu Baker.

“Eu pensei na bandeira dos EUA com suas treze faixas e treze estrelas, as colônias vencendo a Inglaterra e formando os Estados Unidos. Pensei no vermelho, branco e azul verticais da Revolução Francesa e como as duas bandeiras começaram de uma revolta, uma rebelião, uma revolução – e pensei que a nação gay deveria ter também uma bandeira, para proclamar sua ideia de poder”.

A criação da bandeira também foi inspirada na chamada Bandeira da Raça Humana, um símbolo utilizado principalmente pelos hippies durante o fim da década de 1960, trazendo cinco faixas nas cores vermelha, branca, marrom, amarela e negra, em passeatas pela paz. Segundo Baker, pegar emprestado essa inspiração dos hippies foi também uma maneira de homenagear o grande poeta Allen Ginsberg, ele mesmo um símbolo hippie e da vanguarda da causa gay.

A primeira bandeira e a máquina de costura na qual foi feita, exposta em um museu nos EUA

A primeira bandeira do arco-íris foi confeccionada por um grupo de artistas liderado por Baker, que recebeu 1 mil dólares pelo trabalho, e trazia originalmente oito cores em faixas, cada um com um significado específico: rosa para o sexo, vermelho para a vida, laranja para a cura, amarelo para a luz do sol, verde para a natureza, turquesa para a arte, índigo para a serenidade e violeta para o espírito.

Na Parada Gay de 1978, Harvey Milk chegou a caminhar por sobre a bandeira original, e discursar diante dela, poucos meses antes de seu assassinato a tiros por Dan White, outro supervisor da cidade, de linha conservadora.

Milk durante a Parada Gay de 1978, em San Francisco

No evento do assassinato de Milk, Dan White também viria a assassinar o prefeito de San Francisco, George Moscone. Em um dos mais absurdo vereditos já proferidos pela justiça norte-americana, White viria a ser condenado por homicídio culposo, quando não há a intenção de matar, e cumpriria pena de somente cinco anos de prisão. A morte de Milk e o julgamento de White, uma das mais trágicas e simbólicas páginas da história da luta LGBTQ+ nos EUA, tornaria ainda mais a bandeira arco-íris um símbolo popular e irrevogável. Dois anos depois de ser solto, em 1985, White viria a se suicidar.

 

Pensei na bandeira dos EUA com suas treze faixas e treze estrelas, as colônias vencendo a Inglaterra e formando os Estados Unidos. Pensei no vermelho, branco e azul verticais da Revolução Francesa e como as duas bandeiras começaram de uma revolta, uma rebelião, uma revolução – e pensei que a nação gay deveria ter também uma bandeira, para proclamar sua ideia de poder

Inicialmente por questões de dificuldades de produção, ao longo dos anos seguintes a bandeira se transformou no padrão que hoje é mais popular, com seis faixas e cores: vermelho, laranja, amarelo, verde, azul e roxo. Baker nunca cobrou direitos autorais pelo uso da bandeira que criou, mantendo o propósito de efetivamente unificar as pessoas em prol de uma causa, e não do lucro. Em comemoração aos 25 anos da bandeira, a Parada Gay de Key West em 2003 convidou o próprio Baker para criar a maior bandeira arco-íris da história, com cerca de 2 km de extensão – para essa versão ele retomou as oito cores originais. Em março de 2017, em resposta à eleição de Donald Trump, Baker criou sua versão “final” da bandeira, com 9 cores, adicionando uma faixa em lavanda para significar “diversidade”.

A maior bandeira arco-íris, em Key West, em 2003

Gilbert Baker veio a falecer em 2017, deixando seu nome marcado na história do movimento LGBTQ+ dos EUA e do mundo como um corajoso e pioneiro ativista. Segundo um de seus amigos responsáveis hoje pela condução de seu legado, uma de suas grandes alegrias foi ver a Casa Branca iluminada pelas cores de sua bandeira, por conta da aprovação, em junho de 2015 pela Suprema Corte, do casamento entre pessoas do mesmo sexo. “Ele ficou tomado de alegria em ver aquela bandeira, criada por hippies de San Francisco, se transformar um símbolo permanente e internacional”.

A Casa Branca “vestindo” a bandeira, em 2015

Baker e o presidente Barack Obama

Outras versões da bandeira arco-íris foram desenvolvidas ao longo dos anos – como na Parada do Orgulho LGBT do estado da Filadélfia de 2017, que incluiu uma faixa marrom e outra preta, a fim de representar as pessoas negras que anteriormente se sentiam marginalizadas ou ignoradas das próprias Paradas Gays, ou como na Parada de São Paulo que, em 2018, incluiu, além das 8 faixas originais, uma faixa branca, representando todas as cores humanas, a diversidade e a paz. Segundo representantes de Baker, ele teria adorado as novas versões.

A versão criada na Filadélfia, com as faixas preta e marrom

Para além das cores objetivamente, é o legado de união, luta, alegria e amor que tanto significam a bandeira que efetivamente importa – e da mesma forma o legado do trabalho e da história de Baker, de Harvey Milk e tantos outros, como a herança mais forte e reluzente da própria causa pela qual viveram, tão perfeita e universalmente significada pelo símbolo, simples e ao mesmo tempo profundo, que Baker criou.

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© fotos: Divulgação


Vitor Paiva
Escritor, jornalista e músico, doutorando em literatura pela PUC-Rio, publica artigos, ensaios e reportagens. É autor dos livros Tudo Que Não é Cavalo, Boca Aberta, Só o Sol Sabe Sair de Cena e Dólar e outros amores.

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