Matéria Especial Hypeness

Fã faminto invadiu a casa de John Lennon e Yoko Ono. E recebeu empatia e comida

por: Vitor Paiva

Antes do advento da internet, muitas perguntas sobre temas variados, se não pudessem ser respondidas por pesquisas em livros, filmes ou registros oficiais, simplesmente permaneciam sem resposta. Mesmo sobre alguns dos artistas mais populares de todos os tempos, certas dúvidas ou mistérios poderiam quedar sem solução por décadas – até que a internet surgiu para responder questões que muitas vezes sequer sabíamos que tínhamos. Dentre os fãs mais incorrigíveis dos Beatles e de John Lennon – aqueles que de fato tratam todo e qualquer assunto ligado à banda como material de pesquisa de suma importância – uma pergunta permaneceu por muito tempo: quem era o jovem que apareceu na casa de John Lennon em 1971, e que travou um interessante diálogo com o cantor e compositor, para em seguida tomar um café e comer um pão com John e Yoko?

John e Yoko em 1971, à época em que Curt os visitou e, abaixo, o jovem em questão

Esse obscuro e interessante personagem da imensa fauna que habita a mitologia ao redor dos Beatles, mais precisamente em torno de John Lennon e Yoko Ono, provavelmente surgiu para o mundo no documentário “Gimme Some Truth: The Making Of John Lennon’s Imagine Album”. O filme, como o título sugere, revela os bastidores da gravação do disco “Imagine”, o mais importante da carreira solo de Lennon e um dos mais impactantes da história do rock.

Considerado um dos melhores documentários de rock já feitos – pela entrada irrestrita no estúdio, na vida e na própria casa de Lennon e Yoko em 1971 – “Gimme Some Truth” coloca o espectador de fato sentado à mesa de som (ou de jantar) em Tittenhurst Park, propriedade a pouco mais de 1 hora do centro de Londres, na Inglaterra, onde o casal morou até se mudar para Nova York – e onde também ficava o Ascot Sound, estúdio no qual “Imagine” foi gravado. Entre ensaios, gravações, conversas e muita música, subitamente um jovem aparece à porta da casa – querendo falar com John.

John em Ascot, durante a gravação do disco Imagine

Nesse primeiro documentário, não há maiores detalhes sobre o personagem – um jovem bonito e confuso, de olhar profundo e semblante cansado, que estava “ficando nos jardins” da casa, segundo a narração de Yoko, já há diversas noites. “Não havia nenhuma segurança especial (…) John sempre se sentiu responsável por essas pessoas, pois eles eram resultado de suas canções – era assim que ele sentia”, diz Yoko. Em seguida, vemos a impressionante cena, doce e generosa, ingênua, quase fraterna, ao mesmo tempo que estranha: um jovem, com um casaco pesado e claramente vestindo em seu corpo os efeitos de não ter casa, conversando com o maior astro do mundo, parado sob a soleira da porta. “Não confunda as músicas com sua própria vida”, diz Lennon. “Elas podem ser relevantes, mas muita coisa é. Então, nos conhecemos. Eu sou só um cara, que escreve canções”, ele segue.

Acima, a conversa à porta

Lennon, na cena em que conversa com o jovem

 

Não havia nenhuma segurança especial. John sempre se sentiu responsável por essas pessoas, pois eles eram resultado de suas canções – era assim que ele sentia

 

Durante o diálogo o jovem dá a entender que acreditava que encontraria uma conexão especial, quase divinal, com John. “Eu achei que se nos encontrássemos eu iria saber, só de te encontrar”, ele diz – ao que John devolve, realista e inclemente: “Saber o quê?” A conversa segue, em uma dialeto de época, sobre como tudo se encaixa, se estivermos na viagem certa, mas sobre como Lennon de modo geral escreve pensando nele mesmo, no máximo em Yoko (é especialmente tocante o discreto momento em que o jovem cita a canção “Carry That Weight”, dos Beatles, e John o lembra que é Paul quem a canta). Depois de um momento de silêncio, desiludido e ao mesmo tempo fraterno, John pergunta: Você está com fome? O rapaz responde que sim com um aceno de cabeça, e todos entram até a cozinha, onde o jovem molha um pão com manteiga em uma xícara de café com leite com a fome de quem não se alimentava possivelmente há dias. No doc, a cena se encerra ao som do belo piano da canção “Jealous Guy”.

Durante décadas sequer o nome do rapaz era de conhecimento geral, e qualquer pergunta sobre ele era respondida com uma contundente interrogação. Especulava-se sobre ser ele na plateia de um talk show nos EUA, mas tudo era pura teoria – até esse ano. O novo (e excelente) documentário “John & Yoko: Above Us Only Sky”, além de fazer justiça à importância de Yoko como artista e na vida de John, também ajuda a começar a responder algumas perguntas sobre o misterioso personagem. O filme se passa justamente no cenário e no período da gravação de “Imagine”, e subitamente, traz de volta o jovem, na mesma histórica cena – mas agora, preenchida por novas informações.

Segundo consta no novo filme, lançado em março de 2019 no Netflix, o jovem se chamava Curt Claudio, e era um veterano da Guerra do Vietnã, que carregava os traumas do campo de batalha em sua mente abalada, e que via em Lennon uma espécie de profeta, que traria sentido e felicidade para todos. Curt vinha escrevendo telegramas para o endereço de John, informando que estava a caminho e afirmando, nas palavras do próprio Lennon, que ele precisava “olhar nos olhos” dele para “saber” a “resposta”. A polícia tinha planos de prender Claudio, mas o próprio John teria intercedido para que a prisão não acontecesse.

Uma das muitas correspondências enviadas por Curt para John Lennon

“Above Us Only Sky” mostra uma versão estendida do diálogo à porta da casa de John e Yoko. Nele, John conta que seu então último disco (referindo-se a “Plastic Ono Band”, seu primeiro trabalho solo) era justamente ele “saindo” de seu sonho, de seu delírio. “Você pode viver a vida inteira no seu sonho, e aí tudo acaba” ele diz. Lennon não tem seguranças mediando sua relação com aquele fã, e parece travar um diálogo sem pressa, simplesmente por empatia, por se importar com aquela pessoa que, em frangalhos, indiretamente lhe pede ajuda.

Pouco tempo depois do lançamento do novo documentário, uma página no Instagram chamada The Daily Beatles publicou um post, com informações ainda mais detalhadas sobre Curt – que  tinha apenas 23 anos quando apareceu em Tittenhurst Park. Filho de um pai músico, Curt (nascido Cesare Curtis Claudio) nasceu e viveu na Califórnia, formando-se na escola em 1966. Seu pai chegou a se tornar violoncelista da Orquestra Sinfônica de São Francisco, e desse cenário musical familiar nasce, supõe-se, a importância da música na vida de Curt e, com isso, a conexão que o jovem encontrou com a música de Lennon. Curt teria morrido em 1981, em um acidente com um avião ultraleve – não há maiores detalhes sobre o que aconteceu em sua vida entre o encontro com Lennon e sua morte.

Acima, todos à mesa para o lanche; abaixo, Yoko conversando com Curt

Mesmo com a internet, qualquer história sobre um personagem tão pouco documentado é ainda especulativa – há pessoas na rede que afirmam ser da família de Curt, e que ele nunca esteve no exército, e na realidade teria tomado drogas demais. Provavelmente nunca saberemos de fato os mínimos detalhes da vida desse personagem ao mesmo tempo anônimo e tão conhecido. Seja como for, John Lennon e Yoko Ono o receberam em sua casa com abertura e carinho, dialogando francamente sobre as questões e angústias que pareciam atravessar o jovem, em um tipo de acesso que um artista da dimensão de Lennon hoje (se existisse um artista da dimensão de Lennon hoje) provavelmente jamais ofereceria.

A própria morte de Lennon, assassinado por um dito fã (para quem havia autografado um disco, horas antes de ser morto) na porta do edifício Dakota, onde morava em Nova Iorque, em 8 de dezembro de 1980, transformou para sempre a relação entre artistas e admiradores no mundo. Hoje, a cena da conversa entre Curt, Lennon e Yoko mostra o quanto um artista poderia impactar a vida de uma pessoa comum – e o quanto esse mesmo artista poderia se dedicar a derrubar a própria “divindade” atribuída a ele, sem, com isso, perder sua importância. Pelo contrário: é provável que Lennon tenha se tornado um artista ainda maior e mais reconhecido por, desde o fim dos Beatles até sua morte, ter questionado seu personagem idolatrado, e se colocado, pelas ruas de Nova York, de modo acessível aos fãs – como também uma pessoa comum.

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© fotos: reprodução/divulgação


Vitor Paiva
Escritor, jornalista e músico, doutorando em literatura pela PUC-Rio, publica artigos, ensaios e reportagens. É autor dos livros Tudo Que Não é Cavalo, Boca Aberta, Só o Sol Sabe Sair de Cena e Dólar e outros amores.

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