Debate

Origem da palavra ‘encrenca’ pode estar ligada à exploração sexual de mulheres judias

por: Vitor Paiva

A etimologia é um braço da gramática que estuda a origem e a história das palavras – seus significados originais, as transformações que atravessou no tempo, e os elementos que formaram no passado e que ainda formam uma palavra determinada. Boa parte dos estudos etimológicos, em suas buscas pela raiz de um termo, retornam a idiomas e povos ancestrais, descobrindo origens no sânscrito, latim, no chinês antigo ou em dialetos árabes.

Dessa forma, muitas vezes a etimologia de uma palavra conta não só a história daquele termo, como também parte da própria história do local ou época em que foi cunhado – de migrações, mudanças, guerras, e mais. Existem, porém, palavras jovens, que surgiram recentemente a partir de neologismos ou empregos supostamente errados de termos em outras línguas – e que ganham novos sentidos. É o caso da palavra encrenca – um termo que só existe no Brasil, que nasceu, ao que tudo indica, na virada do século 19 para o século 20 e que, para além de seu significado atual, traz em si uma história cheia de duros simbolismos e metáforas sobre nosso próprio país.

“3 Prostitutas”, pintura de Otto Dix

Pois o fato de uma palavra possuir uma etimologia recente e circunscrita a somente um local não quer dizer que ela não possua uma história vasta e importante – que não conte também a história de seu contexto. A juventude de um termo, especialmente se originalmente ele era considerado chulo – como no caso da encrenca – pode tornar a determinação correta de sua etimologia até mais difícil. Há quem creia que a palavra encrenca veio da Argentina, numa reciclagem da gíria catalã enclenque, que significa “acamado por doença”, “deitado”, “sem forças”. Outros, por sua vez, creem no nascimento da encrenca a partir de uma versão abrasileirada do latim clinicare, que se referiria a “doente acamado” – a partir de tais origens, a palavra teria ganhado, por aqui, o sentido de “tumulto, intriga, dificuldade”.

Há, no entanto, um terceiro e mais elaborado apontamento da origem etimológica da palavra encrenca, confirmado pela jornalista canadense Isabel Vincent no livro “Bertha, Sophia e Rachel: a sociedade da verdade e o tráfico das polacas nas Américas” (Editora Relume Dumará, 2006), que se afirma como a mais provável e mais simbólica das raízes da encrenca. Tudo teria começado quando o Brasil recebeu, justo na virada dos séculos 19 para o 20, um sem-fim de imigrantes europeus – que fugiam da turbulência da época para tentar melhorar de vida no eldorado que seria o Brasil.

As oportunidades nas lavouras de café pareciam promissoras, e a pobreza europeia, aliada ao crescimento do antissemitismo no velho continente fez do Brasil o destino para diversas família judias. Nem sempre, porém, a família inteira conseguia migrar – e muitas vezes somente a filha era entregue para agenciadores, que prometiam casamentos redentores em terras brasileiras. A realidade, contudo, na maioria das vezes não poderia ser mais diferente.

As “polacas” fotografadas por Augusto Malta à época

Durante a própria viagem, nos porões dos navios, a tal promessa se revelava como contrabando sexual: as mulheres seriam vendidas como prostitutas nas grandes cidades brasileiras – Rio, São Paulo, Salvador e Recife receberam as jovens judias que, obrigadas ao ofício da prostituição, passaram a ser conhecidas como “polacas” (expressão que ainda hoje serve de apelido para pessoas de origem polonesa ou do leste europeu de modo geral). A presença das “polacas” foi tamanha na noite carioca ou paulistana que se tornaram índice forte no imaginário da época – tendo ajudado a cristalizar a mitologia do fenótipo loiro de olhos claros (em verdade impreciso e um tanto generalista para definir o biotipo das mulheres judias ou do leste europeu) como símbolo de beleza por aqui. Essas mulheres ocupavam evidentemente um lugar marginalizado na sociedade de então, e a descriminação exigiu que criassem, pela própria sobrevivência, uma rede de solidariedade entre elas.

Mas onde entra a origem da palavra encrenca em toda essa história? Essa tal rede de segurança criada entre as prostituas judias funcionava essencialmente através do ídiche – idioma ancestral adotado por diversas comunidades judaicas – para se comunicarem sem que os empregadores e clientes as compreendesse. No ídiche, o termo “ein krenke” quer dizer “doença”, e era assim que essas mulheres se referiam a um “cliente” que parecia portar alguma doença venérea.

Para elas, portanto, um “ein krenke” era justamente sinônimo de problema, de alguém que deveria ser evitado. Com o passar do tempo e a popularização do termo, o português do Brasil aos poucos teria adaptado tal uso, abrasileirado a própria dicção da expressão, e criado assim a palavra “encrenca”.

Duas lápides no Cemitério Israelita de Cubatão, onde muitas “polacas” foram enterradas separadas de suas famílias, como mulheres “esquecidas”, que se tornou o primeiro cemitério tombado em definitivo no Brasil

Não é possível confirmar se essa é a única origem da palavra, e é provável, como em tantos casos, que a verdade seja uma mistura imprecisa de algumas das histórias sugeridas. O fato é que, se levantarmos o tapete da história do Brasil em qualquer nível – mesmo para descobrirmos a história de uma gíria supostamente banal – parece que quase sempre iremos nos ver diante de terríveis tradições de exploração e miséria, mas também da luta de pessoas, quase sempre ligadas a minorias, de transformar tais durezas e melhorar, na menor medida do possível, a realidade que as cerca. Contornar a encrenca é, portanto, o ofício da maioria dos brasileiros, desde a época em que essa palavra ainda nem existia.

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© Arte (1): Otto Dix

© foto (2): Augusto Malta

© fotos: arquivo/divulgação


Vitor Paiva
Escritor, jornalista e músico, doutorando em literatura pela PUC-Rio, publica artigos, ensaios e reportagens. É autor dos livros Tudo Que Não é Cavalo, Boca Aberta, Só o Sol Sabe Sair de Cena e Dólar e outros amores.

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