Inspiração

Tunísia já pode se orgulhar de seu primeiro presidenciável LGBT

por: Vitor Paiva

Ser um candidato à presidência abertamente homossexual lamentavelmente é um gesto de coragem em qualquer país do mundo. Nesse cenário, o caso do advogado Mounir Baatour é especialmente notável: aos 48 anos ele concorre pelo Partido Liberal Tunisiano ao mais alto cargo do executivo na Tunísia como o primeiro candidato gay de todo o mundo árabe. A luta de Baatour se sucede em um país em que qualquer prática homossexual é punida com até três anos de prisão.

O candidato Mounir Baatour

Apesar do rigor medieval das leis homofóbicas na Tunísia, as organizações em defesa dos direitos LGBTI são legais no país desde a revolução de 2011, quando o então presidente Zine el-Abidine Ben Ali foi deposto depois de 24 anos no poder. Baatour tornou-se então líder da Shams, uma das mais reconhecidas organizações do mundo árabe. Apesar de toda sua importância como líder da causa LGBTI, o candidato afirma que sua sexualidade não deve ser uma barreira. “Minha orientação sexual não é um assunto relevante. Não perguntam sobre isso aos outros candidatos. Não me incomoda que a mídia mencione, mas eu me vejo como um simples candidato de um partido”, afirmou.

Entre suas prioridades como candidato está uma das mais fundamentais noções democráticas, mas cada vez menos respeitada pelo mundo: a separação total entre a religião e a política – além, é claro, da abolição do artigo 230 da constituição da Tunísia, que criminaliza a homossexualidade. Em um país que gosta de se dizer aberto e liberal, somente 7% da população considera a homossexualidade uma prática “aceitável” – abaixo de outros países tidos como mais conservadores, como o Sudão e a Argélia.

Baatour afirma já possuir 10 mil assinatura a favor de sua candidatura, mas tanto ele quanto sua organização não possuem toda a simpatia da comunidade LGBTI ou de ONGs nem mesmo dentro do próprio país: a Shams é acusada de publicar informações pessoais e de tirar pessoas do armário sem o seu consentimento. Assim, o desempenho do ativista e advogado nas urnas não deve ser promissor, mas ao se tornar o primeiro candidato à presidência abertamente gay em um país árabe, Mounir Baatour já realiza um importante passo simbólico não só para a região mas para todo o mundo.

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© fotos: divulgação


Vitor Paiva
Escritor, jornalista e músico, doutorando em literatura pela PUC-Rio, publica artigos, ensaios e reportagens. É autor dos livros Tudo Que Não é Cavalo, Boca Aberta, Só o Sol Sabe Sair de Cena e Dólar e outros amores.

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