Matéria Especial Hypeness

Ubuntu: O pioneirismo de Ruth de Souza nas artes do Brasil

por: Kauê Vieira

Ruth de Souza nos deixou. Aos 98 anos, a atriz brasileira não resistiu a uma pneumonia e faleceu no domingo (28), na zona sul do Rio de Janeiro. Sua trajetória confirma a vocação do Brasil, reconhecido internacionalmente pela dramaturgia. 

Os negros, especialmente as mulheres negras, tiveram atuação decisiva no sucesso de telenovelas e peças de teatro. Quem não se lembra dos papéis marcantes interpretados pela atriz carioca Zezé Motta em ‘Xica da Silva’ ou como Dandara no filme de ‘Quilombo’, de Cacá Diegues? 

– ‘Olhos que Condenam’ nos sufoca ao mostrar como a Justiça desumaniza jovens negros

Ruth de Souza em cena de ‘O Filho Pródigo’, 1947

É importante dizer que Dandara, além de esposa de Zumbi, foi uma das mais importantes figuras de resistência negra no Quilombo dos Palmares. Ela liderou grupos de mulheres e homens pela libertação total dos negros escravizados na Serra da Barriga, em Alagoas. Outra figura fundamental na história da interpretação brasileira é Ruth de Souza.

Nascida no ano 1921, em Engenho de Dentro, bairro da periferia carioca, Ruth Pinto de Souza é filha de Sebastião e Alaíde Pinto de Souza. Logo após seu nascimento, ainda muito pequena, se mudou para Minas Gerais onde viveu num sítio ao lado dos irmãos Maria e Antônio. O sonho de se tornar atriz a acompanha desde a primeira infância. Aos nove anos, após o falecimento do pai, fato que fez com que a família retornasse ao Rio, Ruth foi ao cinema se encantou com a arte de interpretar.

– Entrevistão com KL Jay (PARTE UM): ‘Unicamp acertou. Racionais MC’s é um livro que ensina muito’

Ao lado da mãe assistiram ‘Tarzan, O Filho da Selva’. A menina deixou a sala de cinema decidida, queria ser atriz. Seguiu em frente mesmo com os avisos de que nunca chegaria ao objetivo por causa de sua cor de pele. Isso mesmo, em funçao de sua ligação direta com a ancestralidade africana, Ruth de Souza, segundo alguns, não conseguiria realizar o sonho de se tornar atriz.

Ruth abriu os caminhos para os negros nas artes

O tempo foi passando, Ruth crescendo e aos poucos derrubando os obstáculos impostos por um pensamento racista que dominava e teima em se manter vivo no Brasil. No ano de 1944 decide estudar teatro. A vida muda ao tomar conhecimento do Teatro Experimental do Negro (TEN), criado por Abdias do Nascimento. A então aspirante a atriz encontra um início para sua caminhada. 

O Teatro Experimental do Negro surge com objetivo de pensar uma nova dramaturgia, abrindo espaço para homens e mulheres negras rejeitados pelo mercado racista. Com isso, empregadas domésticas e trabalhadores da indústria encontram abrigo para expressar arte e cultura, mudando os caminhos da dramaturgia do Brasil.

O TEN contribui muito para colocar ponto final no que ficou conhecido nos dias de hoje como black face – quando um ator branco é pintado de negro para interpretar um personagem afrodescendente. Seu primeiro espetáculo como membra da companhia foi em 1945 na peça ‘O Imperador Jones’, onde interpreta uma escravizada. Nos anos 1940, Ruth de Souza ainda contracenou com quem se tornaria um grande amigo, Grande Otelo. A dupla dividiu cenas em filmes da antiga produtora Atlântida.

– Clyde Morgan, o Filho de Gandhi que nasceu nos EUA, mas aprendeu tudo na Bahia

Contudo, sua carreira começou a ganhar corpo na década de 1950, tempo em que Ruth estudou teatro nos Estados Unidos e ao retornar para o Brasil se destacou no cinema e também no teatro, tendo encenado peças escritas por Nelson Rodrigues e contracenado com Sérgio Cardoso. Em 1951, estrelou o filme ‘Sinhá Moça’, um dos mais marcantes da dramaturgia brasileira. No longa Ruth interpretou Sabina, papel que lhe rendeu o prêmio ‘Saci’, entregue aos melhores nomes do cinema nacional pelo jornal O Estado de São Paulo.

Outro ponto alto da trajetória de Ruth de Souza foi quando viveu Carolina Maria de Jesus, considerada um dos maiores nomes da literatura brasileira. Dona Ruth protagonizou o espetáculo ‘Quarto de Despejo’, homônimo do principal livro escrito por Carolina Maria de Jesus. A TV surgiu em sua vida a partir de 1965, tempo que trabalhou na Tupi, Record e mais tarde na TV Globo. Na lista estão novelas como ‘O Bem Amado’, (1973) com célebre cena ao lado do amigo Milton Gonçalves; ‘Sinhá Moça’ (1986) e ‘O Clone’ (2001).

Ao lado do amigo Milton Gonçalves em ‘O Bem Amado’

Ruth de Souza partiu aos 98 anos, virou ancestral no mesmo domingo em que mulheres negras em marcha abriam novos caminhos e celebravam o legado de figuras como ela. Dona Ruth virou ancestral e pedra indispensável para pensar o Brasil. Foram mais de 25 peças teatrais e 30 novelas. Agraciada com o prêmio de melhor atriz no tradicional ‘Festival de Gramado’, Ruth de Souza é a representação viva da arte, gana e garra das mulheres negras do Brasil. É pioneira, é uma diva da dramaturgia!

“É difícil a gente descrever a si própria, mas eu diria que sou maravilhosa.”

Publicidade

Fotos: foto 1: Ipeafro/Reprodução/foto 2: Reprodução/YouTube/foto 3: Reprodução/TV Globo


Kauê Vieira
Nascido na periferia da zona sul de São Paulo, Kauê Vieira é jornalista desde que se conhece por gente. Apaixonado pela profissão, acumula 10 anos de carreira, com destaque para passagens pela área de cultura. Foi coordenador de comunicação do Projeto Afreaka, idealizou duas edições de um festival promovendo encontros entre Brasil e África contemporânea, além de ter participado da produção de um livro paradidático sobre o ensino de África nas Escolas. Acumula ainda duas passagens pelo Portal Terra. Por fim, ao lado de suas funções no Hypeness, ministra um curso sobre mídia e representatividade e outras coisinhas mais.

Branded Channel Hypeness

Marcas que apoiam e acreditam na nossa produção de conteúdo exclusivo.



X
Próxima notícia Hypeness:
Homem trans grávido dá à luz a uma menina em SP