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29º FIG: maior festival de cultura do Brasil mostra potência nordestina em meio ao agreste

por: Gabriela Rassy

O Festival de Inverno de Garanhuns chegou à sua 29ª edição em um momento essencial para falarmos de cultura e, principalmente, de nordeste. Esta que é a maior festa da cultura em todo o Brasil durou 10 dias reunindo mais de 3 mil artistas em sete palcos de música, além de uma infinidade de espaços recebendo teatro, circo, dança, cinema, artesanato, oficinas, gastronomia e festas.

Nem o frio nem a chuva constante impediram que o público de 600 mil pessoas tomasse as ruas da pequena cidade de Garanhuns, no agreste de Pernambuco. Dentre as atrações, gigantes como Lenine, Otto, Maria Rita, Marienne de Castro, Fafá de Belém, Alcione, Elba Ramalho e Céu dividiam as noites com bandas que apontam firmes no novo cenário nacional.

“Respeita o nordeste, féla da puta”. A frase de Pantico Rocha, baterista de Lenine, não soou sozinha. Não teve um artista sequer que faltasse a se manifestar sobre o tratamento preconceituoso do presidente em relação aos nordestinos. A indignação era – e é – geral.

No palco que se dividia entre pop e forró, a viceral apresentação das curitibanas da Mulamba fez mulheres entoarem suas letras feministas potentes e pularem alto cantando “É a mulherada ficando embucetada”. Francisco, El Hombre subiu ao palco depois de Ave Sangria provocando apoteose ao som da já clássica “Triste, Louca ou Má” e da “Bolso Nada” – em um recado ao fatídico presidente.

Perto dali, o Som na Rural fazia o palco das novidades. A Rural Willys 1969, geralmente pilotada por Roger de Renor, dominava lindamente o cenário, convidando a entrar e tomar uma foto. Por lá, a banda Tuyo fez o público se abraçar e cantar junto seus hits recém lançados. A mesma galera se enfileirou apaixonada para ter um minuto com os integrantes, ainda que debaixo de chuva.

A Rural recebeu ainda uma noite com Uana Mahim, de Pernambuco, e outra com a cantora performando como DJ dentro do coletivo Batekoo. Um grito de resistência pelos corpos pretos e LGBT+ que vem acompanhado de libertação. As bundas tiveram um encontro marcado com o chão nesta noite, que foi seguida de after essencial com artistas trans do agreste no Narnya.

Aliás, o FIG também é feito de muito after. As casas da cidade receberam o fervor dos inimigos do fim a cada noite pós-show, já com as capas de chuva estendidas. Momentos para o suor tomar o lugar da chuva e nos manter molhadxs madrugada adentro. No Narnya, um brechó reunia peças de artistas em sua maioria pernambucanos enquanto o primeiro andar recebia as delícias da Vila da Conceição, restaurante tocado por mulheres da Ilha de Itamaracá com as indicações: Cozinha de Mar e Mangue. Minha refeição de cada noite, amém.

Como o FIG não é feita só da noite, muitas atrações começavam logo pela manhã, nos convidando a despertar. O lindíssimo palco da cultura popular reuniu grupos de coco, maracatu, tribos indígenas e muita sabedoria em cantos da raíz nordestina. Fico na torcida para que nos próximos anos ele esteja mais próximo e integrado das grandes atrações para passar mais tempo por ali. Só de ver as pessoas dançarem já aquece o coração – e ter mais pertinho deve ampliar esse efeito.

As tardes do Festival de Inverno eram ainda dedicadas às trocas. A Plataforma FIG propôs debates mais do que necessários e que estimularam a conexão entre público e participantes nos dias finais do evento.

A mesa de abertura “Derrubando Fronteiras”, debateu os desafios para uma maior conexão entre Brasil e a América Latina. Nela, Mayra Rizzo, do Conexão Latina; Sara Melguizo, da Revísta Música; e Gabriel Murilo, produtor do Música Mundo debateram mediados por Gutie, do Festival Rec Beat.

“Estes gestos de encontro são os mais poderosos para que façamos está pista paralela ao que o mundo do ‘mainstream’ nos mostra e criar pontes”, disse a colombiana Sara Melguizo. “As rotas econômicas em geral consideram uma só maneira de ser colombiano, de ser brasileiro. Elas precisam que sejamos homogêneos. Creio que o processo e evolução está em nos reconhecermos nesta diversidade. Sabemos quão distintos somos e nos abraçamos. Temos a possibilidade de existir no diferente”, completou.

A mesa que participei levando a experiência do jornalismo digital foi intensa. Tivemos as essenciais presenças da jornalista, professora e pesquisadora Nina Gazire e da jornalista Renata Simões para debates caminhos da imprensa neste mundo digital. O apocalíptico conhecimento de Nina nos fez refletir sobre a dominação de grandes grupos dentro da disseminação de conteúdo online e até sobre palavras que adotamos sem perceber que já existiam – lembrando que fake news nada mais é que uma mentira. Que debate!

Por fim, a última parte da Plataforma FIG abriu para a experiência em curadoria e direção artística com alguns dos produtores de grandes festivais. Pedro Seiler, do Queremos; Marcio Caetano, do Maloca Dragão; e Priscila Melo, da Eletrônica Viva Produções; mediados por André Brasileiro (PE), falaram sobre as diferenças entre curadoria, programação e direção artística, além dos critérios usados para a programação de um festival.

Priscila Melo, curadora da Plataforma FIG, falou sobre equidade na hora de escolher a programação de um festival. “É preciso pensar nisso, ainda que aconteça naturalmente, é preciso que as programações sejam equilibradas”, disse a produtora que atualmente promove o Festival Elas por Elas, no Rio Grande do Norte, dedicado a reunir apenas mulheres, do backstage ao palco. “Como representar todas num palco? Temos que pensar em todas as subjetividades das mulheres: pretas, nordestinas, trans, todas”, concluiu.

Entre as ruas, conexões se formaram. O aprendizado da experiência neste gigante dos festivais traz um respiro. É a cultura de resistência, de ser nordeste, ser mulher, preto, índio. De se ver, como disse Sara, e se reconhecer na diferença. Rumo à 30ª edição e sem arredar o pé. Avante!

Plataforma FIG em conexão Plataforma FIG em conexão

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Fotos destaque:

Mariene de Castro e Lia de Itamaracá por Felipe Souto Maior / Secult PE - FUNDARPE
Maracatu Maracambuco por Jan Ribeiro/ Secult PE - Fundarpe

Fotos texto:
Gabriela Rassy
Leo Caldas / FUNDARPE
Felipe Souto Maior / Secult PE - FUNDARPE
Jan Ribeiro/ Secult PE - Fundarpe
Victor Jucá / Secult PE - FUNDARPE


Gabriela Rassy
Jornalista enraizada na cultura, caçadora de arte e badalação nas capitais ensolaradas desse Brasil, entusiasta da cena musical noturna e fervida por natureza.

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