Futuro

‘Anti-asilo’ francês reúne mulheres em bem-viver coletivo e chama debate para idosos no Brasil

por: Gabrielle Estevans

Uma feiticeira solitária, comumente retratada como uma mulher bastante idosa e que se traveste em mil disfarces sem nenhuma restrição de gênero: essa é descrição de Baba Yaga, o arquétipo da bruxa eslava. E se, a exemplo de suas aparições no folclore russo, ela é com frequência retratada por seu aspecto sombrio e sua aparência feroz, na França, a persona mitológica serviu para batizar um projeto bastante prazenteiro. Na região parisiense, no município de Montreuil, a Maison des Babayagas reúne mulheres com mais de sessenta anos em um projeto coletivo que promete ir de encontro aos padrões dos já conhecidos asilos.

Para entrar no Babayaga, além de ter de cumprir o requisito de idade mínima sexagenária, é necessário ser francesa ou, em casos de nacionalidade estrangeira, ter uma permissão permanente de residência em território francês. Também é imprescindível que a candidata tenha perfil compatível com a etiqueta Habitat Social, já que a iniciativa está num prédio destinado pela prefeitura a pessoas de menor renda comprovada. Para se manter por lá, a moradora tem de assinar um termo e seguir à risca os valores implementados pela fundadora, Thérèse Clerc, militante feminista de Maio de 68. Entre os pilares do Babagaya, estão cidadania, ecologia, feminismo, laicidade e solidariedade. No topo da lista, a autogestão. Isso significa que, na prática, se por algum motivo uma das mulheres hospedadas por lá perde sua autonomia física ou mental, ela precisará se mudar ou para a casa de familiares ou para espaços como os conhecidos Ehpad, os asilos-padrão da França.

Moradoras de La Maison des Babayagas

Lilia D’Albertas, de 83 anos, é brasileira, mas hoje mora em Paris e diz ter adorado a proposta de viver coletivamente. Nascida paulistana, esteve, no começo da década de 70, à frente da direção de um dos colégios mais tradicionais da capital, o Vera Cruz, instituição, aliás, que ajudou a fundar. Também fazia parte do Ação Popular, organização política de esquerda, e no ano de 1974, fugindo da repressão da ditadura e com medo de ser novamente presa pelo governo militar, mudou-se com os cinco filhos e uma irmã mais nova para a França. O plano inicial era aportar no Chile, onde encontrariam amigos exilados e auto-exilados, mas o golpe dado no país fez com que mudassem de planos. Em terras francesas, casou-se de novo e voltou ao Brasil em 1981, para Florianópolis, carregando um sonho na bagagem: queria oferecer uma educação que pudesse nutrir crianças e jovens com os valores humanos mais profundos.

Foi em 2011, depois de aposentada em mais uma escola que ajudou a erguer, que voltou à França. No dia anterior dessa entrevista, D’Albertas tinha deixado a filha preocupada porque não atendia o celular. “Quando ficamos velhos, os filhos, muitas vezes, ficam em cima, aflitos. Stela me ligou ontem e não atendi, mas era porque, no fim, eu não dormi essa noite, fiquei lendo o livro do Raphaël Glucksmann, escritor e atual político francês. Então eu dormi agora de dia”, conta, rindo, e completa: “O que achei bárbaro é que no Babayaga elas compartilham uma vida em comum. Quando estamos numa idade parecida, sabemos melhor o que está acontecendo uma com a outra”.

No Brasil, a população idosa é a que mais cresce. Segundo dados do Ministério da Saúde, em 2030, o número de idosos ultrapassará o de crianças entre zero e 14 anos. Embora os números sejam significativos, ainda há uma carência enorme de políticas públicas que impactem positivamente a terceira idade. Esse despreparo para acolher a velhice brasileira já é facilmente observável na base da pirâmide. Entre os mais pobres, aumenta o número de idosos desamparados por suas famílias. O governo tampouco cuida dessas pessoas. Segundo o Ministério do Desenvolvimento Social, a demanda por vagas em albergues não para de crescer, mas os espaços, já lotados, não conseguem acolher novas pessoas. Pior: apenas 6,6 dos asilos no País são públicos e mais de dois terços dos municípios não têm abrigo para idosos.

Preparar-se financeiramente para a velhice também não é tarefa fácil. Se a proposta da reforma da Previdência for aprovada, será possível que o idoso pobre antecipe seu benefício — dos 65 anos válidos hoje para 60 anos —, mas reduz drasticamente os valores iniciais pagos — R$ 400, contra os R$ 998 atuais.

Um levantamento do Serasa Experian mostrou que para 77% dos brasileiros, o maior temor da velhice está relacionada a questão de saúde. O receio faz sentido, já que ocupamos, entre 96 países, o 58º lugar no relatório de qualidade de vida elaborado pela Global Age Watch 2014. Aparência física, responsabilidade e energia seguem como preocupações levantadas, logo após a saudabilidade.

Para D’Albertas, apesar das limitações físicas e da energia já não ser mais a mesma, a velhice também oferece outras descobertas. Foi na terceira idade que se apaixonou por ópera e balé. Já viu grandes espetáculos, todos sem sair de casa — ficou maravilhada ao descobrir, zapeando canais de televisão, que hoje em dia há de tudo sendo transmitido. Apesar dos novos interesses, diz sentir falta do modo como, antigamente, a sociedade vivia e resolvia suas questões: “Tudo era coletivo. Você discutia e resolvia com montes de gentes. Não sabemos, ainda, no que vai resultar essa sociedade individualista, no que vão resultar esses jovens que veem o velho como alguém que atrapalha. Que atrapalha porque você precisa ajudá-lo e, bem, as pessoas não querem ser perturbadas”, diz, para logo emendar, que “Stela, que morou 22 anos na África, conta que lá eles respeitam mais os idosos. Param para escutar. Não é um esforço, sabe? Percebo que, às vezes, as pessoas fazem um esforço para me ouvirem. Eu não interesso a ninguém”.

A pedagoga Lilia D’Alberthas, em comemorações na Escola da Ilha, colégio que fundou em Florianópolis

Questionada se educar jovens e adolescentes sobre a velhice faria sentido, a pedagoga é categórica: “Tenho a impressão de que isso não se ensina. Como é que vou fazer com que um jovem, um púbere cheio de vida, projetos e energia pense em envelhecimento? O que deve mudar nisso tudo, citando novamente a obra de Raphaël Glucksmann e o projeto das Babayagas, é pensar num viver coletivo. Em uma vida social em que o idoso faça parte. Só a vida comunitária, a vida em grupo, funciona bem. Essas repúblicas de velhos, eu acho a coisa mais espetacular possível. Melhor do que asilo — uma lugar em que você fica esperando que a morte chegue. Eu acho um absurdo. Não sei o caminho para mudar a forma como vemos e acolhemos os idosos, hoje. Mas, por aqui, vou sempre lendo. Quem sabe eu aprendo alguma coisa?”

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Gabrielle Estevans
Jornalista, escreve sobre gênero, cultura e política. Também trabalha com pesquisa, planejamento estratégico e projetos com propósito e impacto social.

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