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Aqui vai o ranking dos filmes de Quentin Tarantino, do ‘pior’ ao melhor

por: Vitor Paiva

Dono de uma filmografia praticamente sem falhas, não é por acaso que Quentin Tarantino se tornou um dos diretores mais amados e influentes da história recente do cinema – trata-se de um daqueles artistas que em seu pior momento produz algo que, para a vasta maioria dos outros diretores, seria um auge. Tarantino poderia ser acusado de simplesmente requentar influências das mais diversas em seus filmes – como se fosse uma espécie de curador de tendências e estilos. A verdade, porém, é que ele é capaz, como poucos, de evidenciar suas influências como o coração estético de seus filmes e, ainda assim, transformar esse mosaico em algo completamente singular e somente seu.

Elementos tão recorrentes na história do cinema, como cenas de violência extrema, diálogos mordazes e inteligentes, referências pop, montagens inexatas e não cronológicas, até mesmo subversões de momentos importantes da história cultural, social e política real, nada disso foi inventado por Tarantino – mas tudo foi reinventado sob o foco de suas lentes. Desde o início dos anos 1990 e até hoje, são raros os artistas de cinema, em especial que disputam e se localizam no mercado comercial de filmes, que alcançaram uma assinatura tão forte, e uma conexão tão direta com seu público quanto Tarantino – cada filme lançado parece fadado a se tornar icônico.

Tarantino em cena de “Cães de Aluguel”…

Mais do que um curador de tendências e estilos cinematográficos, Tarantino é um grande roteirista, fotógrafo e diretor, que soube como poucos medir o pulso de sua época e transformar pequenas joias do cult em verdadeiros fenômenos pop. Organizar, portanto, uma lista de seus filmes do “pior” ao “melhor” é uma tarefa imprecisa, injusta e impossível – não se trata de efetivamente ranquear filmes ruins em sua filmografia, mas sim, de enaltecer os pontos mais reluzentes, e qualificar obras na perspectiva de todos os filmes do diretor.

…e em “Pulp Fiction”

Para essa lista, selecionamos, inicialmente, os 8 filmes que Tarantino escreveu e dirigiu sozinho – sem incluir “Era Uma Vez em Hollywood”, seu filme que estreia nesta semana no mundo todo e que chega ao Brasil no próximo dia 15 de agosto.

Mas, assim que tivermos assistido ao novo filme de Tarantino, nosso ranking será atualizado. Podem esperar.

Então, vamos à lista?

8. ‘À Prova de Morte’(2007)

Se “Death Proof”, lançado no Brasil como “À Prova de Morte”, é um filme relativamente “menor” na filmografia de Tarantino (o próprio diretor já o reconheceu como seu pior trabalho), ele é a prova da lógica supracitada: na obra de muitos outros diretores, esse filme seria uma verdadeira pérola. Lançado originalmente junto de “Planeta Terror”, de Robert Rodriguez, o filme conta a história de um dublê que assassina jovens mulheres em acidentes de carro encenados, usando seu carro “à prova de morte”. Como de costume, o filme é uma carta de amor ao cinema – em especial aos dublês e à uma época em que as grandes cenas de ação eram realmente realizadas diante das câmeras, de maneira analógica.

7. ‘Os Oito Odiados’ (2015)

A premissa é simples: em 1877, no estado de Wyoming, nos EUA, oito pessoas de passados questionáveis e históricos complicados que os conectam, entre criminosos, caubóis, xerifes, acabam presos em uma espécie de armazém de paragem para carruagens durante uma nevasca extrema. “Os Oito Odiados” é, porém, um filme de Tarantino – e a tensa situação ganha sentido de um thriller de suspense e violência ao longo do filme. Espécie de narrativa paralela a “Django”, o filme trata de questões raciais em um tributo sanguinário aos velhos filmes de caubói – com uma trilha sonora antológica, assinada pelo gênio Ennio Morricone, que o levou a conquistar pela primeira vez um Oscar, em 2016 – corrigindo assim uma das diversas injustiças inexplicáveis cometidas pela Academia.

6. ‘Jackie Brown’ (1997)

Aqui a lista começa a ficar efetivamente complicada, pois “Jackie Brown” é um grande filme – que, por motivos imponderáveis, tornou-se menos impactante e icônico que outras de suas obras. Com um elenco reluzente (com Robert Foster, Pam Grier, Robert De Niro, Samuel L. Jackson, Bridget Fonda e Michael Keaton), o terceiro filme de Tarantino (e o único a ser adaptado de uma obra prévia, um livro de Elmore Leonard, de 1992) é uma homenagem à estética do blaxploitation, gênero de cinema ligado à cultura negra, urbano e de ação da década de 1970. Uma aeromoça, presa transportando dinheiro e drogas, é usada como joguete por policiais para derrubar um chefão do crime – mas um verdadeiro jogo de erros coloca todos contra todos, em um filme em que mesmo o mais experiente e frio dos bandidos é humano e falho.

5. ‘Kill Bill – Vol.1 e 2′ (2003)

Há quem ache que “Kill Bill” teria se tornado uma obra-prima ainda mais impactante se tivesse sido lançado como um só filme, mais curto e direto. Lançado em dois filmes por suas quatro horas de duração, seja como for, o fato é que a saga da noiva que acorda de um coma para se vingar dos criminosos que tentaram lhe assassinar no dia de seu casamento (vivida por Uma Thurman) nasceu para ser um clássico. Homenageando filmes de kung-fu, animes, filmes de samurai através de referências pop, cultura trash e uma trilha sonora impecável, “Kill Bill” tornou-se um dos pontos mais reconhecíveis e icônicos esteticamente da trajetória de Tarantino.

4. ‘Django Livre’ (2012)

Lançado em 2012 alcançando imenso sucesso comercial e de crítica (é o filme de maior sucesso de bilheteria do diretor até hoje), “Django Livre” é a segunda investida de Tarantino em revisar a história, vingando-se de horrores reais através do poder da ficção. Vivido por Jamie Foxx, Django é um escravo em 1858, comprado por um caçador de recompensas que oferece sua liberdade em troca de ajuda para capturar seus próximos alvos – e, ao fim, resgatar sua esposa dos grilhões de um terrível fazendeiro. As incríveis atuações de Foxx e Christopher Waltz (como o caçador de recompensas) transformam a jornada pela liberdade em uma verdadeira vingança de um escravo liberto contra os horrores da escravidão.

3. ‘Bastardos Inglórios’ (2009)

Aqui o gesto de revisar a história ganha contornos verdadeiramente absurdos – e, justamente por isso, ainda mais impactantes e redentores de se assistir. Sem pedir licença pelo spoiler, pois se alguém ainda não viu “Bastardos Inglórios” é urgente que se abandone esse texto e corra para a frente de uma tela, a coragem de metralhar Hitler em uma sessão de cinema e colocar fogo no local queimando películas – uma resolução narrativa em princípio óbvia mas em verdade brilhante – como solução para a segunda guerra mundial já valeria o filme. As atuações primorosas (Christopher Waltz está novamente diabólico como coronel nazista) e a justaposição do cenário histórico com o contexto do amor pelo cinema – sem deixar jamais de denunciar e conduzir com peso os horrores nazistas – faz de “Bastardos Inglórios” um dos pontos mais altos da filmografia de Tarantino.

2. ‘Cães de Aluguel’ (1992)

Quentin Tarantino estreou nas telas como uma banda de rock que lança um grande primeiro disco: cheio de estilo, estardalhaço, sem pedir licença, deixando claro que havia um novo nome – um novo paradigma – no cinema da época e desde então. O elenco de “Cães de Aluguel” é quase insuperável, formado por Harvey Keitel, Tim Roth, Chris Penn, Steve Buscemi, Lawrence Tierney, Michael Madsen, Edward Bunker e o próprio Tarantino – como um grupo de criminosos que planeja executar um roubo de diamantes em que tudo terminará de forma trágica. Também contado de forma não-linear, o filme tem na violência explícita e ao mesmo tempo plena em força estética e no charme de seus diálogos sua principal virtude. Uma estreia que fazia jus à posição que Tarantino viria a ter no cinema contemporâneo.

1. ‘Pulp Fiction’ (1994)

Impossível, nesse caso, fugir do óbvio: o segundo filme da carreira de Tarantino, que transformou o diretor em um fenômeno instantâneo, segue insuperável – e provavelmente assim seguirá. Cada cena, cada diálogo, cada ramificação narrativa, praticamente cada take de “Pulp Fiction” se tornou inesquecível. Trata-se de um daqueles raros casos em que uma obra é ao mesmo tempo violentamente influente (tudo parecia ecoar influências de “Pulp Fiction” depois do filme) e, por sua imensa qualidade indo muito além das virtudes estéticas da obra, torna-se também impossível de se reproduzir. A sucessão não-linear de crimes conectados em uma Los Angeles vista por seu submundo, através de uma mistura irretocável de pastiche, humor, violência, em personagens reflexivos e ao mesmo tempo beirando a psicopatia fez de “Pulp Fiction” um dos mais celebrados filmes da história – e o levou a vencer a Palma de Ouro no Festival de Cannes, o mais importante prêmio do cinema mundial, em 1994.

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© fotos: reprodução


Vitor Paiva
Escritor, jornalista e músico, doutorando em literatura pela PUC-Rio, publica artigos, ensaios e reportagens. É autor dos livros Tudo Que Não é Cavalo, Boca Aberta, Só o Sol Sabe Sair de Cena e Dólar e outros amores.

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