Arte

Com ‘Os Normais’, Fernanda Young fez história contra a caretice na TV

26 • 08 • 2019 às 10:48
Atualizada em 26 • 08 • 2019 às 11:01
Redação Hypeness
Redação Hypeness Acreditamos no poder da INSPIRAÇÃO. Uma boa fotografia, uma grande história, uma mega iniciativa ou mesmo uma pequena invenção. Todas elas podem transformar o seu jeito de enxergar o mundo.


Ainda sem a dimensão do tamanho da perda, o Brasil lamenta a morte precoce de Fernanda Young. Célebre escritora, roteirista e feminista consciente de sua importância, a mulher de 49 anos morreu na madrugada de domingo (25) em Minas Gerais. 

– Filósofa e ‘rainha’ do feminismo negro Angela Davis vem ao Brasil em outubro

Fernanda Young deixa legado para as artes e liberdade feminina

Fernanda Young se preparava, mais uma vez, para questionar a caretice. O fatídico retiro em Minas Gerais servia como refúgio para a estreia, em 12 de setembro, da peça ‘Ainda Nada de Novo’, que contracenaria com Fernanda Nobre. O espetáculo de José Roberto Jardim aborda a relação homossexual entre duas mulheres artistas. 

Não deu tempo e Young morreu de parada cardíaca provocada por uma crise de asma. O corpo foi enterrado no Cemitério de Congonhas, no domingo (25), em São Paulo.

‘Os Normais’

Para além de supostas polêmicas, Fernanda Young era uma escritora de mão cheia. A carioca se caracterizou pela habilidade de se comunicar com diferentes públicos. Era a capacidade desta brasileira de falar de temas complexos com simplicidade. 

Foi assim em dois clássicos da TV contemporânea. A estreia em 1995 com ‘A Comédia da Vida Privada’, adaptação do texto de Luis Fernando Veríssimo, e o hilário ‘Os Normais’, estrelado por Fernanda Torres e Luiz Fernando Guimarães. 

‘Os Normais’ é fruto do talento de Fernanda Young

 Lançada em junho de 2001, a série retratava o dia a dia de Rui (Luiz Fernando Guimarães) e Vani (Fernanda Torres). Os dois formavam um casal cômico, promíscuo, que se amava e também buscava formas de transgredir padrões sociais.  Sempre com o humor questionador característico de Young. 

Os dois, aliás, lamentaram a perda inesperada da amiga. 

“Ela foi uma pessoa maravilhosa, a quem devo uns dos melhores anos da minha vida”, resumiu Luiz Fernando. 

“Devo muito a ela, à inteligência, ao humor, à originalidade, à coragem dela”, escreveu Fernanda Torres no Instagram. 


Acidez ou realidade?

Fernanda Young sempre foi descrita como uma mulher polêmica. Polêmica ou oposição aos rótulos machistas? Aqui pra nós, sempre que uma mulher teima em seguir a cartilha criada pelo patriarcado, é chamada de ‘polêmica’.

 A diferença com Fernanda é que ela deu de ombros e se apropriou da retórica. Uma das precursoras do debate feminista ainda no início do século 21, a escritora estrelou ao lado de Mônica Waldvogel, Marisa Orth e Rita Lee a clássica edição do ‘Saia Justa’, exibido pelo GNT. 

“Eu tenho uma teoria que até já escrevi a respeito. Todo velho é um filho da p… que envelheceu. Sabe aquela história de que “vaso ruim não quebra”? Pois é, pra mim, velho é um vaso ruim”, disparou certa vez. 

Outro ponto alto da carreira aconteceu em 2009, quando posou nua para a revista Playboy. Sem dar a mínima aos padrões de beleza cunhados por homens, Young estampou a capa da revista masculina em ensaio fotografado por Bob Wolfenson.

O fotógrafo lamentou a morte inesperada da amiga, mas exaltou seu espírito.

“Vai pro céu desafinar o coro dos contentes como sempre o fez aqui embaixo onde farás muita falta”, salientou. 

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Posto aqui esta fotografia da Fernanda Young. Feita para a Playboy em 2009. Pois sei que ela permitiria que eu o fizesse. Em que pese, a gaiola tenha tido a face de um adorno fetichista. E talvez fosse esta nossa intenção à época. Hoje vista, assim, em retrospectiva, a metáfora  de alguém ainda que engaiolada poder dizer: nada me aprisiona, estou aqui nua inteira, altiva, corajosa dona do meu corpo. Fernanda era assim. Só os afetos a prendiam, o resto era alvo de seu crivo e lógica muito particulares. Ela sempre se sentia injustiçada  pelos, como elas os chamava, "coronéis da cultura". De fato, seu comportamento e obra nao cabiam na miríade de compartimentos que  nós na tentativa de nos entendermos procuramos ensacar a todos  em definições pré ou pós concebidas. Se há algo em algum artista que seja digno do uso da alcunha de, é a originalidade. E isso, meus amigos, nela exorbitava. Fernanda nao pertencia a grupos, pois logo arrumaria encrenca. Ela era voz dissonante, às vezes por provocacao e outras por discordância pura. No entanto, na vida real nunca vi pessoa tao generosa, tão praticante dos princípios igualitários. Sempre incorporando  à sua trupe os mais diversos gêneros de gentes que encontrou ao longo de sua breve jornada. Choro a perda de uma amiga muito próxima. A vida nao ta fácil com a situacao toda que esta aí, mas a morte da Fernanda foi golpe.

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No mais, fiquemos com uma das últimas reflexões deste grande nome das artes e cultura do Brasil. 

 

“As pessoas me acham maluca, mas estou observando tudo – de dentro e de fora. Pensam que não percebo as suas falcatruas, mas ser gentil não significa ser otária! Trabalho feito uma vaca, pago essas merdas desses impostos, não vejo uso para eles, escuto que mamo em tetas do governo; divirto as pessoas, ofereço poesia, e lido com ignorâncias proferidas por um bando de escroto que mete Deus nos seus discursos hipócritas. Deito e levanto cansada porque nunca peguei um centavo de ninguém e tudo o que tenho é fruto de TRABALHO. Não herdei, não ganhei, nem sou sustentada! Tenho 4 filhos que estão aprendendo a serem éticos e livres. E o que ouço? É louca! O que vejo? A nossa cultura material e imaterial, a nossa língua, a nossa fauna, flora, sendo esganiçada, sacaneada, por ogros maléficos. Estamos virando uma gente porcaria, afinal “piorar é mais fácil”! E fica tão claro o oportunismo das ratazanas sorrateiras, que veem na “loucura do criador”, achando-nos dispersos, irresponsáveis, ricos, nesgas para sermos passados para trás! Comigo, não! Não! Sei reconhecer um lápis meu em meio a um milhão! Não estive “calada nos últimos 14 anos”, não aceito desaforo! Sou uma mulher de 50 anos que sonhou alto e realizou muito. E estou longe de encerrar a minha jornada nessa orbe! Aos que se interessam: bom proveito. Para os outros: estou pouco me lixando!

⚔️

(Texto escrito no ônibus. Ganho para escrever. Aqui ofereço de graça e com erros. “Flagra” de @e.mym que postou a foto com uma legenda muito mais sábia.)”

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As pessoas me acham maluca, mas estou observando tudo – de dentro e de fora. Pensam que não percebo as suas falcatruas, mas ser gentil não significa ser otaria! Trabalho feito uma vaca, pago essas merdas desses impostos, não vejo uso para eles, escuto que mamo em tetas do governo; divirto as pessoas, ofereço poesia, e lido com ignorâncias proferidas por um bando de escroto que mete Deus nos seus discursos hipócritas. Deito e levanto cansada porque nunca peguei um centavo de ninguém e tudo o que tenho é fruto de TRABALHO. Não herdei, não ganhei, nem sou sustentada! Tenho 4 filhos que estão aprendendo a serem éticos e livres. E o que ouço? É louca! O que vejo? A nossa cultura material e imaterial, a nossa língua, a nossa fauna, flora, sendo esganiçada, sacaneada, por ogros maléficos. Estamos virando uma gente porcaria, afinal “piorar é mais fácil”! E fica tão claro o oportunismo das ratazanas sorrateiras, que veem na “loucura do criador”, achando-nos dispersos, irresponsáveis, ricos, nesgas para sermos passados para trás! Comigo, não! Não! Sei reconhecer um lápis meu em meio a um milhão! Não estive “calada nos últimos 14 anos”, não aceito desaforo! Sou uma mulher de 50 anos que sonhou alto e realizou muito. E estou longe de encerrar a minha jornada nessa orbe! Aos que se interessam: bom proveito. Para os outros: estou pouco me lixando! ⚔️ (Texto escrito no ônibus. Ganho para escrever. Aqui ofereço de graça e com erros. “Flagra” de @e.mym que postou a foto com uma legenda muito mais sábia.) ?

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Foto: Reprodução/Instagram


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