Debate

Desenhos de crianças enviados ao TJ restabelecem regulação da polícia na Maré

por: Redação Hypeness

São mais de 1.500 cartas enviadas para a Justiça do Rio de Janeiro. Todas escritas por crianças do Complexo da Maré. Todas, com sinceridade, mostrando o medo causado pela polícia

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A divulgação dos desenhos de helicópteros e a angústia provocada pelo temor dos tiros acontece na mesma semana em que seis jovens- Gabriel, Lucas, Tiago, Dyogo, Henrico e Margareth -, todos negros, morreram durante operações policiais em comunidades na capital fluminense. 

Desde que o governador do Rio de Janeiro, Wilson Witzel, deu licença para matar, o Complexo da Maré viu a poça de sangue aumentar. A organização não governamental Redes da Maré mostra que em 2019 a comunidade teve mais operações policiais. Resultado, número maior de mortes em comparação ao ano anterior. 

Cartas da Maré e o medo da polícia

“Eu tenho que dizer, as operações matam muita gente. É muito triste. Uma vez minha mãe saiu para ver minha vó e ‘deu’ tanto tiro que eu me escondi atrás da máquina de lavar. É isso que eu tenho a dizer”, assinou o pequeno William Lopes. 

– ’80 tiros? Esse país deveria estar pegando fogo’. Emicida explica genocídio negro como ninguém

Ele tem razão de ter medo. De acordo com o estudo realizado por pesquisadores do Eixo Direito à Segurança Pública e Acesso à Justiça da Redes da Maré, apenas no primeiro semestre de 2019, 27 pessoas morreram em conflitos armados. Foram, como diz a Agência Brasil, 15 operações policiais. 

“Senhores juízes, quando vocês mandam ter operação aqui na Maré, os policiais nem avisam. Eles entram de helicóptero dando tiro de cima para baixo”, escreveu outra criança. 

A prática já é conhecida e ganhou apelido dos moradores: ‘caveirão voador’. Em maio, 25 pessoas foram ouvidas pela Defensoria Pública acusando a PM de atirar de um helicóptero. 

“Eles descreveram a ação, a chegada do helicóptero e dos carros blindados. Foi uma operação caracterizada pela letalidade. Nos informaram que era uma situação possível de rendição e que mortes poderiam ser evitadas. O que queremos saber é se essa ação foi marcada pela ilegalidade ou se foi uma dinâmica dentro dos marcos normativos vigentes”, explicou ao jornal O Globo o ouvidor da Defensoria Pública Pedro Strozenberg.

“Ele atira pra baixo e as pessoas morrem”

 

A Secretaria Estadual de Segurança Pública diz que segue “todos os protocolos usados em incursões aéreas de risco no Rio de Janeiro”. 

Licença para matar 

Assim que se acomodou na cadeira principal do Palácio da Guanabara, Wilson Witzel adotou uma postura autoritária e agressiva contra a famigerada ‘guerra às drogas’. 

Wilson Witzel, governador do Rio de Janeiro

Durante evento na Baixada Fluminense, o governador, que defendeu matar quem for pego andando de fuzil, culpou “pseudo defensores dos direitos humanos” pela morte de seis jovens no Complexo da Maré. 

“Pseudodefensores dos direitos humanos não querem que a polícia mate quem está de fuzil, mas aí quem morre são inocentes”, declarou o governador, que ameaçou prender quem fumar maconha na praia, ao mesmo jornal O Globo. 

Ainda não se sabe se os seis jovens foram mortos por criminosos ou pela polícia do Rio de Janeiro. 

A carne negra 

Fato é que as vítimas da violência e do medo da polícia retratado nas cartas dos jovens moradores das periferias da cidade maravilhosa tem cor: são todos negros.

“Nunca posso sair de casa porque tem tiro”

Entre 2007 e 2017, mostrou o Atlas da Violência, cresceu em 33% a taxa de homicídios de negros no Brasil. Ao passo que o índice entre os não negros, incluindo amarelos e indígenas, aumentou 3%. 

O Brasil bate recorde de homicídios, 65 mil em 2017. Pretos e pardos responderam por 75,5% das mortes. Três a cada quatro homicídios. Enquanto isso, o país segue assassinando o seu futuro e acreditando piamente que o abismo de desigualdade social secular provocado pelo racismo se resolve com o emprego da força. Aliás, quem matou Marielle Franco?

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Fotos: foto 1: Redes da Maré/Divulgação/foto 2: Redes da Maré/Divulgação/foto 3: Thomaz Silva/Agência Brasil/foto 4: Redes da Maré/Divulgação


Redação Hypeness
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