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Faroeste nordestino ‘Bacurau’ retrata um país adoecido e à beira de um colapso

por: Janaina Pereira

Uma pequena cidade no sertão de Pernambuco desaparece literalmente do mapa, enquanto uma série de assassinatos começam a aterrorizar seus moradores. É a partir dessa ideia que se desenvolve o roteiro de “Bacurau”, o faroeste (ou western) brasileiro de Kleber Mendonça Filho e Juliano Dornelles, vencedor do Prêmio Especial do Júri do Festival de Cannes deste ano.

Pensado inicialmente dez anos atrás, o filme cai como uma luva em tempos onde as minorias lutam não mais para serem ouvidas, para terem o direito à vida respeitado. Pernambuco é logo ali, mas a história é bem mais universal do que possa parecer e é justamente por mostrar os aparentemente fracos lutando pela sobrevivência que o longa – cujo nome é o mesmo da cidade onde se passa a trama – vem se destacando pelo mundo. Já foram mais de 100 festivais de cinemas e, além do prêmio em Cannes, ganhou como melhor filme do Festival de Munique e vai concorrer no Festival de Nova York, em outubro.

A estreia nacional acontece no dia 29 de agosto, depois de abrir o Festival de Gramado. Embora o filme tenha vários aspectos políticos em suas cenas, o diretor Kleber Mendonça Filho (dos também aclamados “O Som ao Redor” e “Aquarius”), nega essa intenção. “Na verdade, é o momento onde vivemos um avanço do populismo e do fascismo que transforma o significado desse filme, que nunca foi pensado como mensageiro de nada. Na verdade, a ideia de resistência que existe no filme pertence à tradição dos filmes de western, onde uma comunidade pequena, ou um fazendeiro, ou imigrantes precisam se defender de forças externas como foras da lei, índios e o exército americano, ‘numa tremenda confusão’. Isso faz parte de uma tradição do cinema narrativo popular”, disse em entrevista ao Hypeness.

O cineasta acredita que, por ser um filme de gênero, a narrativa acaba apontado para um caminho em que os personagens resistem, mas sem qualquer conotação política. “’Bacurau’ tem essa estrutura, e que bom que ele pode ser interpretado como um ato de resistência, se levarmos em consideração as questões duras que afligem o Brasil e o mundo hoje”.

Na verdade, é o momento onde vivemos um avanço do populismo e do fascismo que transforma o significado desse filme, que nunca foi pensado como mensageiro de nada. Na verdade, a ideia de resistência que existe no filme pertence à tradição dos filmes de western

Mas Bacurau chama a atenção não só pelo roteiro: a deslumbrante paisagem do sertão nordestino (as filmagens aconteceram no Rio Grande do Norte) dá força ao gênero faroeste, que é pouco explorado por aqui. Segundo Juliano Dornelles, que dirige o longa com Kleber e também participou da entrevista, o sertão brasileiro tem tudo a ver com o gênero. “O sertão contemporâneo é um lugar muito colorido e diverso, a forma de se vestir das pessoas recebe hoje influência igual a qualquer outro lugar do mundo, não há mais aquela estética de lugar distante que as “novidades da moda” demoram mais tempo para chegar. Hoje em dia é simultâneo. O sertão é parte integrante do mundo consumidor e essa realidade foi absorvida por nós, no departamento de arte, de caracterização e figurino em Bacurau. Além disso queríamos ter essa ideia de que o filme se passa daqui a alguns anos e isso também foi um direcionamento para a equipe toda que cuidou da visualidade do filme”.

Juliano trabalhou com Kleber Mendonça Filho em seus outros filmes, em diversas funções, mas assina pela primeira vez a direção. Ele conta que nos últimos anos, após a trajetória de festivais e lançamentos pelo mundo de “Aquarius” (o longa de Kleber também exibido no Festival de Cannes, em 2016), eles trabalharam por oito meses seguidos no que seria essa última versão do roteiro de “Bacurau”. “Depois dessa última etapa do roteiro a gente não precisou esperar muito para entrar em pré-produção, o que foi ótimo porque estávamos com o filme muito bem claro nas nossas cabeças. Em paralelo, a produção de elenco e de locações andou sozinha e eu e Kleber fazíamos o acompanhamento após a chegada dos resultados. No set, quase nunca nos dividimos para filmar. Tivemos muita sorte de ter duas equipes de câmera durante metade da filmagem, quatro semanas em que pudemos em situações emergenciais nos dividir e cada um filmar uma cena diferente em locações diferentes, simultaneamente. Mas isso só aconteceu umas três ou quatro vezes durante o filme todo”.

Nordeste intenso e premiado

É do Nordeste que vem os principais diretores da atual e premiada geração do cinema brasileiro. Kleber e Juliano, que são pernambucanos, ressaltam essa força. “Não tenho condições de explicar totalmente um fenômeno como esse aqui nessa entrevista, acho que há muita coisa a ser considerada na nossa história, na nossa cultura e na nossa política para chegarmos a alguma conclusão precisa. O que posso dizer é que o povo nordestino e essa região do Brasil tem um potencial enorme que ainda não vimos até onde pode chegar. Basta lembrar que nos governos de Lula e Dilma, não muito tempo atrás, nós vivemos um pequeno período na história onde o Nordeste passou a receber mais atenção e cuidado por parte do governo e os resultados disso são impressionantes. E não foi apenas na área do cinema e da cultura, mas em qualquer área da economia. O que foi alcançado nesse período pode estar ameaçado agora, mas o resultado disso ainda não chegou ao fim, acredito eu. O povo nordestino tem muita demanda de realização, de grandeza, e para mim é muito claro que tudo que é feito com muito desejo é sempre o que alcança o melhor resultado”, comenta Dornelles.

Um governo que dia após dia perde um pouco mais o pudor de se revelar autoritário e que construiu uma ideia absurda de que o artista é um inimigo da sociedade, um vagabundo, um mal a ser erradicado

“Bacurau” foi um dos dois filmes brasileiros premiados em Cannes este ano (o outro foi de “A Vida Invisível de Eurídice Gusmão”, do cearense Karim Aïnouz), o que mostra a força do cinema nacional, mesmo em momento delicado, onde o apoio à cultura está longe de ser prioridade do atual Governo. Para Juliano Dornelles, a estreia do filme no atual momento do país é uma incógnita sobre o futuro desta e de outras produções nacionais. “Um governo que dia após dia perde um pouco mais o pudor de se revelar autoritário e que construiu uma ideia absurda de que o artista é um inimigo da sociedade, um vagabundo, um mal a ser erradicado. O choque acontece quando a realidade chega batendo à porta com força, como foi o caso da premiação de dois filmes brasileiros em Cannes, o festival de cinema mais prestigioso do mundo. Essa guerra de narrativas está acontecendo e não faço a menor ideia de onde isso vai acabar”.

O povo nordestino tem muita demanda de realização, de grandeza, e para mim é muito claro que tudo que é feito com muito desejo é sempre o que alcança o melhor resultado

Já Kleber Mendonça Filho espera que os jovens vejam “Bacurau” e gostem. “Isso é uma coisa que sempre penso quando lanço um filme, é esperar que jovens vejam e achem que é possível ser artista no Brasil, de maneira livre e fazendo obras que são divertidas, mas que também são fortes e honestas”.

O ator Silvero Pereira, que interpreta Lunga no filme, também conversou com o Hypeness sobre Bacurau. Ele conta que o personagem foi um grande presente na sua carreira. “O fato de trabalhar com todos os envolvidos neste filme foi um processo de muito afeto e aprendizado. A prova disso foi a forma como nos confraternizamos em Cannes ao atravessar o Red Carpet. Esse personagem me mostra fora dos estereótipos do ‘ator LGBT’ que o mercado tenta me encaixotar e me dá a oportunidade de fazer uma personagem como esta, um nordestino com sangue nos olhos pra se armar de paus e pedras contra um sistema opressor, xenofóbico é elitista“.

Silvero reforça o potencial do longa, que é um dos candidatos brasileiros ao Oscar do ano que vem. “Acredito muito na arte como instrumento de questionamentos e provocação social. Não acho que, nós artistas, somos responsáveis por nenhuma mudança direta na sociedade. Entretanto, somos uma forte arma no processo de alertar e fazer pensar. “Bacurau”, pra mim, segue essa lógica. Esse é um filme sobre as entranhas de um país maltratado, adoecido, cheio de veias entupidas e nunca tratadas. Logo, “Bacurau” é tipo um “ataque cardiovascular” prestes a entrar em colapso“.

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Janaina Pereira
Jornalista e publicitária. Especializada em cultura - principalmente cinema - e gastronomia. Desde 2009 cobre os principais festivais da sétima arte, como Veneza, Cannes, San Sebastian, Berlim, Rio e Mostra Internacional de São Paulo. Participou dos livros "Negritude, Cinema e Educação" (escrevendo sobre o filme "Preciosa", de Lee Daniels) e "Guia de Restaurantes Italianos" (escrevendo sobre 45 restaurantes ítalo-brasileiros de São Paulo).

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