Sessão Hype

Glamour, assassinatos e… hippies! Por dentro de ‘Era Uma Vez em Hollywood’, o novo filme de Tarantino

por: Vitor Paiva

Se o mundo sempre foi comandado por senhores bem vestidos mas nem sempre bem intencionados, em meados do século 20, mais precisamente na segunda metade da década de 60, esse jogo parecia fadado a mudar. A força jovem então se impunha incontornável pela primeira vez, em mundo que há pouco havia quase se extinguido com a segunda guerra mundial e a bomba atômica e que, por volta de 1966, ao som do rock n’ roll e  movido pela trágica desilusão com a Guerra do Vietnã, estava sendo tomado por jovens cabeludos que não queriam saber de guerra nem de grana – estavam interessados em paz, sexo, expansão da consciência, LSD e amor.

Os hippies foram o último movimento a querer concretamente mudar o mundo, e apesar da resistência do establishment e até mesmo da polícia, esse desejo de mudança parecia invencível. O sonho florido, porém, começou a se tornar um pesadelo sangrento em agosto de 1969, quando um psicopata chamado Charles Manson se compreendeu como um profeta que precisava começar uma guerra – e cometeu um dos mais célebres e horrorosos crimes do século, assassinando, entre outros, uma das mais reconhecidas e adoradas atrizes de Hollywood da época. Esse é o contexto e o pano de fundo do novo filme de Quentin Tarantino, “Era uma vez em Hollywood”. Com estreia no Brasil no dia 15 de agosto, o filme retrata ao mesmo tempo esse áureo período da indústria do cinema e um assombroso capítulo da história dos EUA em um dos mais terríveis momentos culturais e policiais do país.

 A Hollywood que o filme retrata era ainda uma indústria quase folclórica e cheia de glamour – uma “fábrica de sonhos”, com jovens belos e grandes artistas como centro, e a produção de filmes memoráveis como objetivo, menos empresarial e lucrativa do que hoje.

Ser uma estrela de Hollywood em 1969 não era tanto sobre tornar-se um milionário, mas principalmente sobre viver uma vida dourada e idílica. 

Curiosamente, os crimes cometidos em nome de Charles Manson por sua “família” – uma espécie de seita hippie que via em Manson um líder messiânico – aconteceram poucos dias antes do que se tornaria o maior símbolo da pacífica e comunitária cultura hippie: o festival de Woodstock, ocorrido no estado de Nova York entre os dias 15 e 18 de agosto de 1969. Uma semana antes, do outro lado do país, no dia 9 desse mesmo mês, 5 jovens membros da Família Manson assassinaram friamente cinco pessoas, entre elas a estrela de cinema Sharon Tate, então casada com o diretor Roman Polanski e grávida de 9 meses. 

Não é exagero afirmar que esses crimes foram o início do fim do sonho hippie, ao menos diante da opinião pública dos EUA e do mundo. Os poderosos de terno e gravata tinham agora motivos concretos para criminalizar os hippies – por mais que Manson fosse fruto da loucura e nada mais – e fazer o mundo “voltar” à sua “normalidade”.

Espertamente Tarantino decidiu contar essa história não de forma frontal e direta, mas através de uma testemunha ficcional e transversal, sem precisar se preocupar com a fidelidade aos fatos ou mesmo em traçar um retrato do que ocorreu: a história se concentra principalmente em Rick Dalton (vivido por Leonardo DiCaprio), um ator fictício de sucesso em filmes de caubói dos anos 1950 que, em 1969, encontra-se à beira de seu ostracismo, e seu dublê e amigo Cliff Booth (Brad Pitt). No processo de retomar sua carreira e reconquistar o estrelato, Dalton se vê tão próximo quanto possível de um dos mais terríveis crimes da história do país por um mero acaso: no filme ele é vizinho de Polanski e Sharon Tate. Mirando a câmera na história dos personagens de DiCaprio e Pitt, Tarantino conta os crimes da Família Manson como uma testemunha ocasional da história.

Margot Robbie dando vida à Sharon Tate

Na vida real, os motivos por trás dos crimes, apresentados em corte por Manson e seus “seguidores”, não podiam ser mais torpes e delirantes: segundo o psicopata – que havia se tornado figurinha fácil no cenário musical californiano da época, angariando jovens para sua “família” -, uma guerra racial iria começar nos EUA, que iria derrubar o establishment e ser vencida pela população negra. Essa crença era baseada em mensagens subliminares que sua mente doente encontrou em músicas do “Álbum Branco”, disco dos Beatles lançado em 1968. Segundo sua torta (e racista) profecia, depois da vitória os negros precisariam de um líder: ele próprio. Quando sua profecia não se cumpriu e a guerra não começou, ele decidiu que era preciso “mostrar” o que precisava ser feito – na esperança de que um negro fosse acusado do crime e que a guerra enfim começasse. Por isso ele decidiu assassinar a jovem Sharon Tate e seu grupo de amigos na casa da atriz.

Essa não é a primeira vez que a vida real se derrama para dentro da ficção em uma obra do diretor: “Bastardos Inglórios” tem o nazismo como pano de fundo, e “Django Livre” retrata a escravidão nos EUA – mas sempre com a liberdade e a fúria criativa de Tarantino. Em “Era uma vez em Hollywood”, para seu nono filme o diretor como sempre reuniu um elenco triunfante: além de Leonardo DiCaprio e Brad Pitt, o filme também conta com Margot Robbie (como a atriz Sharon Tate), Emile Hirsch, Margaret Qualley, Dakota Fanning, Kurt Russell e Al Pacino. O elenco também traz o ator Luke Perry – que se tornou famoso pelo personagem Dylan na série “Barrados No Baile” e faleceu em março desse ano – em sua última atuação.

Brad Pitt, Leonardo DiCaprio e Al Pacino em cena do filme

A crítica vem reconhecendo esta como uma das melhores atuações da carreira de Leonardo DiCaprio, e “Era Uma Vez em Hollywood” já desponta como presença garantida em diversas categorias do Oscar do ano que vem. O filme vem sendo visto como uma carta de amor à indústria do cinema e à cidade de Los Angeles por Tarantino, e mais um olhar criativo e visceral por parte do diretor sobre a história – sua visão e maneira de contar sobre um dos mais interessantes e importantes momentos culturais, artísticos e políticos dos últimos séculos. O nono filme de Quentin Tarantino estréia no Brasil com suas 2 horas e 40 minutos no próximo dia 15 de agosto, e a crítica já o celebra como uma das melhores obras da curta porém contundente filmografia do diretor estadunidense.

Publicidade

© fotos: divulgação


Vitor Paiva
Escritor, jornalista e músico, doutorando em literatura pela PUC-Rio, publica artigos, ensaios e reportagens. É autor dos livros Tudo Que Não é Cavalo, Boca Aberta, Só o Sol Sabe Sair de Cena e Dólar e outros amores.

Branded Channel Hypeness

Marcas que apoiam e acreditam na nossa produção de conteúdo exclusivo.



X
Próxima notícia Hypeness:
‘Matrix 4’ é confirmado com elenco original; Morpheus é dúvida