Matéria Especial Hypeness

‘Privacidade Hackeada’ mostra que termos e condições da democracia viraram um jogo

por: Kauê Vieira

“Teremos eleições seguras novamente?”, indaga a jornalista britânica e finalista do ‘Prêmio Pulitzer’, Carole Cadwalladr. Ao lado do professor David Carroll e da ex-funcionária da Cambridge Analytica Brittany Kaiser, estrelam documentário que um ano depois do tsunami, expõe as entranhas de um esquema onde você é peça imprescindível.   

Disponível no Netflix, “Privacidade Hackeada” joga luz sob o poder do tráfico de dados de gerar dinheiro e decidir os rumos políticos do mundo. Com a Cambridge Analytica no centro da discussão, a peça mostra como a manipulação pelas redes sociais coloca a democracia em risco.   

O Facebook, de Mark Zuckerberg, mudou os rumos eleitorais no mundo

O jogo de poder

Dissidência do grupo britânico SCL, a Cambridge Analytica é uma empresa criada por Steve Bannon e Robert Mercer em 2013 para ajudar na eleição de Donald Trump e no Brexit. Mas não só isso.

A companhia dirigida pelos ambiciosos Alexander Nix e Robert Mercer seduziu os ouvidos de membros da extrema-direita mundo afora, incluindo o de Nigel Farage, líder do atual The Brexit Party, partido porta-voz do desejo do Reino Unido de deixar a União Europeia. 

Mas será, de fato, um desejo? Como mostra o documentário dirigido por Jehane Noujaim e Karim Amer, a polarização na política britânica aconteceu nas redes sociais. Sobretudo no Facebook.  

Resultado? Queda de dois primeiros-ministros – David Cameron e Theresa May – e a  radicalização do debate, que levou ao o populismo de extrema-direita de Boris Johnson, primeiro-ministro eleito com a missão de liderar o país em uma saída cada vez mais capenga da União Europeia. 

Facebook, Twitter, Instagram, Google, entre outros, você sabe, não se tornaram palco de desinformação, brigas, boatos e divisões à toa. Há um propósito maior: poder. Para isso, é necessário manter a tranquilidade de um porto seguro para o compartilhamento de fotos, momentos alegres e de carência. 

O doc mostra tática usada pela Cambrige Analytica em eleições dos EUA

No entanto, o discurso de gratuidade adotado por Mark Zuckerberg e a turma da blusa de moletom com capuz do Vale do Silício gera trilhões de dólares. Um negócio lucrativo, que te manipula e muda o curso de eleições democráticas. 

“O Facebook sempre será gratuito”, diz o slogan de tio Mark. 

Termos e condições 

Um memorando de 27 páginas desenvolvido por funcionários da Cambridge Analytica que prestaram consultoria para membros do QG da campanha de Donald Trump, como mostrou o The Guardian, criou mais de 10 mil anúncios para atingir todo tipo de potencial eleitor do candidato republicano. 

Brittany Kaiser, uma antiga democrata e ex-membro da campanha de Barack Obama, era um dos pilares do quebra-cabeça manipulatório que levou o multimilionário norte-americano à Casa Branca e transformou as eleições da forma que você conhecia. 

Meu trabalho era apresentar aos clientes em potencial cases de sucesso, e nós usamos o exemplo da campanha de Donald Trump como exemplo do que poderíamos alcançar

A jovem de 31 anos esteve à frente, entre 2014 e 2018, do setor de desenvolvimento de negócios da Cambridge Analytica. Ela, que admitiu ter votado no candidato à esquerda dos Democratas, Bernie Sanders, arquitetou esquema capaz de acirrar ânimos, polarizar cenários e seduzir indecisos. Tudo, claro, nos chamados ‘swing states’, estados com os delegados mais importantes no cenário político dos Estados Unidos. 

A jornalista Carole Cadwalladr alerta para o ódio da extrema-direita

“Meu trabalho era apresentar aos clientes em potencial cases de sucesso, e nós usamos o exemplo da campanha de Donald Trump como exemplo do que poderíamos alcançar”, declarou ao The Guardian. 

Agora diretor da campanha de Trump em busca da reeleição em 2020, Brad Parscale foi responsável pela atuação digital do republicano em 2016. Na época, Parscale criou 5.9 milhões de propagandas no Facebook, em comparação com as 66 mil da adversária Hillary Clinton. 

A conta não fecha sem a adição do nome de Steve Bannon. Atualmente flertando com Olavo de Carvalho e Jair Bolsonaro – eleito com auxílio de táticas similares a de Donald Trump – o supremacista branco, ex-estrategista-chefe da Casa Branca e diretor executivo da campanha de Trump foi fundamental para o sucesso da manipulação eleitoral. 

Christopher Wylie disse à repórter Carole Cadwalladr e ao documentário ‘Privacidade Hackeada’, que foi um dos mentores da Cambridge Analytica e do estilo Steve Bannon de ‘dar um nó na cabeça das pessoas’

Canadense, gay, vegetariano e hoje com 29 anos, o jovem emprestou sua inteligência para algumas das mentes mais ambiciosas e maquiavélicas da extrema-direita. 

Brittany, que votou em político de esquerda, deu consultoria para Trump

Christopher possui documentos que mostram conversas entre a Cambridge Analytica e WikiLeaks. A intenção? Criar táticas para distribuir os e-mails roubados de Hillary Clinton – um dos pilares de investigações sobre a participação de Robert Muller, ex-diretor do FBI, e Donald Trump, em conluio com os russos para garantir a Casa Branca ao Partido Republicano. 

“[Steve Bannon] acredita na doutrina de Andrew Breitbart, de que a política está abaixo da cultura. Então, para modificar a política, você precisa mudar a cultura. E a moda é importantíssima para isso. Trump é, basicamente, como um par de Crocs. Como você faz com que as pessoas deixem de repetir: ‘Credo! Horrível’, para usá-los em massa? Era o ponto de inflexão que estava buscando”, revela ao Guardian. 

Dividir para conquistar 

O método é simples: Ódio e medo. Talvez uma lógica propagada pelos filmes de super-heróis. Ora, para que Batman exista, é preciso que o Coringa saia barbarizando tudo por aí. 

A Cambridge Analytica é, digamos, o Comissário Gordon ou Harvey Dent, o Duas Caras. Como preferir. Jair Bolsonaro, Donald Trump, Boris Johnson, Matteo Salvini, Marine Le Pen, entre outros, conseguiram unir a extrema-direita a partir do medo. 

E claro, munindo-se de uma consultoria nada ortodoxa. Sem você perceber, ou realizar o contexto completo, as equipes destes políticos tomaram posse de seus dados para, em seguida, te atingir nos espaços mais vulneráveis. 

De olho na reeleição em 2020, Trump já adotou a estratégia agressiva ao propagar seu racismo. Em comício nos EUA, ele ordenou que quatro congressistas negras ‘votassem para onde vieram’. Detalhe, todas são cidadãs norte-americanas. 

O racismo de Trump contra quatro congressistas negras

Depois, o presidente dos Estados Unidos classificou Baltimore – cidade com maioria negra de, abre aspas: “infestada por ratos”. Os resultados já vieram, em El Paso, cidade com 90% de hispânicos no Texas, um supremacista branco atirou contra pessoas dentro de um shopping. 20 morreram. 

– Videogame é bode expiatório para mascarar xenofobia e ódio por trás de El Paso

Mas não é só pelo ódio. Uma das táticas da Cambridge Analytica e do Facebook eram os quizzes. Em 2017, Michal Kosinski e David Stillwell, encabeçaram um estudo sobre personalidade na Universidade de Cambridge. 

Stillwell criou uma série de aplicativos para o Facebook, com um quiz, ‘My Personality’, capaz de colher informações importantes sobre o usuário. Cerca de 40% dos participantes concedeu acesso ao perfil pessoal do Facebook. Bingo!

A galinha dos ovos de ouro para figuras com Bannon e Christopher. Com isso, era possível medir a personalidade de inúmeras pessoas por meio de curtidas. Conclusão, um defensor do porte de armas pode gostar de comer chocolate branco. 

Em áudios divulgados pela própria Brittany Kaiser, a Cambridge Analytica admite ter usado a tática da divisão para vencer em inúmeros países, como Trinidad & Tobago, Malásia, Quênia e Nigéria

A jornalista Carole Cadwalladr, personagem central na publicização de atividades ilegais, acredita que o trabalho em países em desenvolvimento como os citados serviu para credenciar e preparar a Cambridge Analytica para Estados Unidos e Reino Unido. 

“Sinto que estamos entrando em uma nova era. Governos autoritários estão ascendendo. Todos eles usam políticas de ódio e medo no Facebook. Olhe o Brasil, esse extremista de direita foi eleito. E nós sabemos que o WhatsApp, que é controlado pelo Facebook, está implicado na disseminação de fake news”, reflete. 

Ódio acima de tudo, fake news acima de todos 

A Folha de São Paulo mostrou que, durante a campanha eleitoral de 2018, empresas brasileiras contrataram uma agência de marketing espanhola para usar o WhatsApp como dispositivo de disparo de mensagens políticas em massa. Todas a favor do então candidato Jair Bolsonaro (PSL). 

Segundo o jornal, a Novoa – especializada no envio automático de mensagens -, alega ter tido seu software cooptado por campanhas políticas no Brasil. A companhia afirma que tomou conhecimento do caso quando o WhatsApp cortou suas linhas por mau uso. 

Ainda em 2018, o mesmo jornal apontou que empresários injetaram R$ 12 milhões na compra de pacotes de mensagens contra o candidato do PT, Fernando Haddad. Entre os nomes está o de Luciano Hang, dono da Havan. Ele nega, “o que é isso”, indaga aparentando desconhecimento. 

A Folha cita a participação de agências especializadas como a Quickmobile, Yacows, Croc Services e SMS Markets. Oficialmente, a campanha de Jair Bolsonaro registrou a AM4 Brasil Inteligência Digital, que teria recebido R$ 115 mil para as mídias digitais. 

O escândalo provocou mudanças no compartilhamento de mensagens no WhatsApp, que passou de 20 – independente do número de pessoas em grupo (que pode chegar a 256) – , para 5. 

Chamado de ‘Trump dos trópicos’, Bolsonaro esteve com Steve Bannon durante primeira viagem oficial como presidente aos Estados Unidos. 

Trump e Bolsonaro apostam no ódio e fake news

O flerte de Bolsonaro – disseminador de notícias falsas como ‘kit gay’ e ‘foro de São Paulo’ com Steve Bannon é descrito por muitos como a perpetuação dos métodos da Cambridge Analytica no Brasil. 

Como noticiou a Carta Capital, a Cambridge Analytica chegou por aqui em 2017, por intermédio de parceria com o publicitário baiano, André Torretta, da Ponte Estratégia. Nasce a CA Ponte. 

Torretta admitiu o desejo de criar um banco de dados a partir do Facebook e foi sondado pela equipe de Bolsonaro. Ele recusou a oferta. Depois do escândalo do vazamento de dados Facebook, a CA chegou a ser alvo de inquérito no Ministério Público. A investigação está sob sigilo até hoje. 

Privacidade nas redes e direitos humanos 

Por mais que Mark Zuckerberg e o Facebook banquem os surpreendidos, é difícil desassociar a participação da gigante das redes sociais no uso de dados pessoas para eleições e publicidade. 

David Carroll, por exemplo, defende que a privacidade dos dados seja um direito humano. Embora tenha conseguido arrancar confissão de culpa da Cambridge Analytica sobre o roubo de informações pessoais suas, o professor nunca terá acesso ao conteúdo usurpado. 

Tampouco o Facebook dá sinais de desaceleração. Um ano após o escândalo que arrancou o véu da inocência do Vale do Silício, a empresa registrou valorização recorde de 6,88 bilhões de dólares nos quatro primeiros meses do ano. Alta expressiva ante os US$ 4.27 bi do mesmo período de 2018. 

‘Privacidade Hackeada’ expõe os mecanismos, acaba com o conto de fadas, mas deixa claro que não se trata de um único vilão, como a Cambridge Analytica, oficialmente falida. O documentário acena para a urgência do estabelecimento de regras de conduta mais rígidas e que protejam a democracia, maior vítima da terra sem lei desenvolvida pelos responsáveis por revolucionar a comunicação no século 21.  

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Fotos: foto 1: Chip Somodevilla/Getty Images/foto 2: Reprodução/foto 3: Reprodução/foto 4: Reprodução/foto 5: Alex Wroblewski/Getty Images/foto 6: Chris Kleponis-Pool/Getty Images


Kauê Vieira
Nascido na periferia da zona sul de São Paulo, Kauê Vieira é jornalista desde que se conhece por gente. Apaixonado pela profissão, acumula 10 anos de carreira, com destaque para passagens pela área de cultura. Foi coordenador de comunicação do Projeto Afreaka, idealizou duas edições de um festival promovendo encontros entre Brasil e África contemporânea, além de ter participado da produção de um livro paradidático sobre o ensino de África nas Escolas. Acumula ainda duas passagens pelo Portal Terra. Por fim, ao lado de suas funções no Hypeness, ministra um curso sobre mídia e representatividade e outras coisinhas mais.

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