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Protagonista de cinebiografia diz que Simonal sofreu com fake news: ‘História dele é aprendizado’

por: Janaina Pereira

Ouvir as músicas de Wilson Simonal pode soar diferente para milhares de brasileiros. Os mais jovens conhecem o cantor pela voz de seus filhos, Simoninha e Max de Castro, que na última década cantam seu repertório mundo afora. A geração que tem mais de 35 anos pode ter ouvido uma ou outra música de Simonal e soube, pelos seus pais, da má fama que o cantor carregou ao longo de sua vida. Mas são as pessoas com mais de 50 anos que puderem ver e ouvir um dos maiores nomes da música brasileira – além de presenciar seu declínio artístico e pessoal. Todas essas gerações poderão acompanhar a trajetória do cantor no filme “Simonal”, de Leonardo Domingues, que estreia dia 8 de agosto em todo Brasil.

Lançado dez anos depois do documentário “Simonal – Ninguém Sabe o Duro que Dei”, de Micael Langer, Calvito Leral e Cláudio Manoel, que jogou luz sobre a obra do cantor, o longa de Domingues traz à tona o brilhantismo, o gingado e o charme cativante de Wilson Simonal. Mas também mostra uma das histórias mais controversas da época da ditadura no Brasil.

Nos anos 1970, o cantor foi acusado de mandar sequestrar seu contador que, supostamente, teria cometido um desfalque em sua empresa. O sequestro, cometido pelo DOPS (Departamento de Ordem Política e Social), órgão de censura da ditadura, estampou as manchetes dos jornais, e o cantor foi preso. Inicialmente acusado de extorsão mediante sequestro, teve a pena mudada para seis meses, a serem cumpridos no regime aberto, por constrangimento ilegal. A situação afetou Simonal de diversas formas: o cantor ganhou a fama de dedo duro, sua carreira entrou em declínio e suas músicas deixaram de tocar nas rádios. Ele virou persona non grata no cenário musical, e ficou no ostracismo até sua morte, em 2000, vítima de uma cirrose hepática.

O filme mostra que, de fato, ele tinha contato com o DOPS, mas que a história tratou de julgá-lo de uma forma bastante cruel. Em uma das cenas mais emblemáticas, ao ser consolado por Elis Regina, que comenta sobre como foi tratada ao cantar para os militares, Simonal – que é interpretado por Fabrício Boliveira – comenta: “Mas te perdoaram porque você é branca”. E é a questão racial um dos pontos mais fortes do longa, como exemplifica Fabrício.

“Simonal estava num meio em que somente ele, o Pelé e o (Jorge) Benjor eram negros bem-sucedidos. Acho que só depois de ser preso e acusado de dedo duro, ele passou a ter noção de que estava naquela situação por ser negro. Eu, em qualquer lugar que esteja, sou parado por ser negro e me perguntam o que faço da vida. Eu sou parado pela polícia, querem saber como é que eu tenho carro importado! E eu não preciso ser interpelado o tempo inteiro por causa disso, não preciso ter minha dignidade colocada à prova por isso. Acho que é um pouco do que o Simonal viveu e que permanece até hoje”, analisa o ator, em entrevista exclusiva ao Hypeness.

Boliveira, que fez aulas de canto para dublar as cenas musicais, ressalta que Wilson Simonal foi pioneiro na indústria fonográfica: abriu sua própria gravadora, foi o primeiro artista negro a ter seu programa de televisão, fez o maior contrário da música na área de publicidade e administrou seus negócios – ainda que de forma amadora, o que teria gerado o problema com o contador que resultou em sua prisão por sequestro. Mas, mesmo sendo uma figura singular nas décadas de 1960 e 1970, Simonal pagou um alto preço pelo contexto político em que se envolveu (ainda que involuntariamente e até ingenuamente, como o filme sugere).

Isso resultou em um esquecimento para as gerações seguintes, o que inclui até o protagonista do longa: assim como muitos brasileiros, Fabrício Boliveira também foi descobrindo quem era Simonal nos últimos anos. “Eu conhecia algumas músicas, como “País Tropical”, mas tive acesso mesmo a ele quando trabalhei num filme em que o Max de Castro fazia a trilha sonora. Isso faz oito anos. Foi o Max que me contou a história do pai dele. Então quando o filme veio eu já tinha um desejo de contar essa história também”.

Fabrício Boliveira leu muitas biografias sobre Wilson Simonal para interpretá-lo, e comenta que o filme trouxe vários desafios para sua carreira. “O personagem já é um mar de possibilidades, mas tem ainda o paralelo que o filme faz com a situação do país naquela época”.

Para o ator, a estreia de Simonal na atual situação sócio-econômica-cultural do Brasil também é bastante significativa. “Embora os negros continuem morrendo, hoje eu não preciso fazer esse embate sobre racismo sozinho. Então é bom ter espaço para podermos falar sobre isso”.

O início da fake news

Fabrício Boliveira acredita que Wilson Simonal foi vítima do que hoje chamamos de fake news. “Naquela época já existia fake news, tinha a ditadura… acho que a história dele é um aprendizado para o futuro. Não sei se foi ali que começou a fake news, mas o caso dele é uma fake news. Com o filme, as pessoas vão ter a possibilidade de ver como uma família inteira foi destruída, como um ídolo foi destruído… assim como eu, muita gente não teve o Simonal como referência na infância por causa dessa situação pela qual ele passou. E a gente vê também que o racismo não mudou, o machismo não mudou, e ainda tem essa história de uma possível ditadura chegando e a gente se colocando de um jeito como se isso não estivesse dentro da gente, como se não tivéssemos vivido (a ditadura). Claro que eu não vivi, mas meus pais viveram, e isso está em mim também. E a gente ainda encara como algo bobo, talvez sejamos passivos demais. Então eu acho que o filme vem com essa força, para apontar o que a gente viveu e enxergar isso no presente. A esperança da gente hoje está na arte; eu acredito que a arte vai nos ajudar a enxergar outros caminhos”.

O ator considera Simonal um desbravador. “Ele era um homem de sucesso, uma estrela, com defeitos sim, em relação à mulher e aos filhos, mas foi um cara apagado da história por causa de sua cor. E ainda foi colocado no lugar de vilão, rotulado de delator, de dedo duro. A questão política não existiu e não deixaram ele se explicar. Se fosse hoje, talvez ele tivesse a possibilidade de se explicar, mas na internet tem tanta fake news que não sei se ele teria espaço para isso. Falaram a pouco tempo que racismo não existe nesse país… dizer isso é uma ignorância. O que a gente sabe é que até hoje os negros morrem bastante e são tratados de forma cruel. Mas agora a gente pode falar sobre racismo, com tranquilidade e se posicionando”.

Dos filhos para o pai

O diretor Leonardo Domingues, que trabalhou na pós-produção do “Simonal – Ninguém Sabe o Duro que Dei”, conta que foi com o documentário que ficou esclarecido para ele quem era Wilson Simonal. “Com o sucesso do documentário, e com a música do Simonal tocando em festas e em shows, eu comecei a falar com o Simoninha e o Max de Castro sobre fazer um filme. Isso foi em 2010. Além das ideias para o longa, eles colaboraram com a produção musical, a escolha das músicas, a abordagem e a ordem em que apareceriam no filme”, revela o cineasta, que em Simonal faz sua estreia na direção.

Os filhos de Wilson Simonal, os cantores Simoninha e Max de Castro, sempre participaram ativamente do resgaste das músicas do pai. Para Simoninha, a estreia do filme depois de nove anos do início do projeto vem em boa hora. “Acho que está mais fácil para a geração de hoje, com o país dividido e polarizado, entender porque aquilo aconteceu com ele. Agora, em 2019, entendemos claramente como isso pode acontecer com uma pessoa. E o filme serve de alerta para a sociedade ver que, aquilo que foi feito com o Simonal, pode acontecer com qualquer um”.

Já Max de Castro acredita que existem semelhanças entre o Brasil dos anos 1970 e o de hoje. “Acho que está mais fácil das pessoas entenderem o que aconteceu com o Simonal porque, hoje em dia, se alguém cantar alguma coisa para o Bolsonaro… as pessoas vão pensar ‘esse cara ‘tá’ ferrado’. As coisas estão muito à flor da pele. Embora eu ache que a gente viva períodos semelhantes, eles não são exatamente iguais. Mas, de qualquer maneira, acho que funciona muito como exemplo, para a gente assistir e refletir que isso pode acontecer comigo, com você, com qualquer pessoa”, finaliza.

“Simonal” conta ainda no elenco com Ísis Valverde como Tereza, esposa do cantor; Caco Ciocler como Santana, representante do DOPS e Leandro Hassum como Carlos Imperial.

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Divulgação


Janaina Pereira
Jornalista e publicitária. Especializada em cultura - principalmente cinema - e gastronomia. Desde 2009 cobre os principais festivais da sétima arte, como Veneza, Cannes, San Sebastian, Berlim, Rio e Mostra Internacional de São Paulo. Participou dos livros "Negritude, Cinema e Educação" (escrevendo sobre o filme "Preciosa", de Lee Daniels) e "Guia de Restaurantes Italianos" (escrevendo sobre 45 restaurantes ítalo-brasileiros de São Paulo).

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