Desafio Hypeness

Terapia orgástica: gozei 15 vezes seguidas e a vida nunca mais foi a mesma

por: Gabrielle Estevans

Você não leu errado. Foram 15 orgasmos. Seguidos. Não, não foi em uma relação sexual. Foi no meio de uma sessão de terapia orgástica, realizada durante duas horas e um tanto na Casa PrazerEla. Vale dizer que esse artigo não é um publipost e que esse texto, aliás, vem com um certo atraso desde que a experiência, de fato, se consolidou. O motivo? Há muito mais entre o orgasmo e a sexualidade do que supõe nossa vã filosofia. 

O que é terapia orgástica? 

É um processo de desenvolvimento terapêutico que busca despertar o potencial orgástico do corpo. Mais que uma massagem, é um experiência íntima, num espaço seguro entre paciente e terapeuta. Depois de passar pela escuta e pelo acolhimento, a mulher é convidada a ficar nua e é guiada por um processo de consciência corporal seguido da descoberta da energia vital da vulva. 

Deva Kiran*, terapeuta corporal que me acompanhou em sessão, explica que a imersão é uma leitura agnóstica do tantra. “Se a mulher não acredita em chakras e energia, isso não diminui a experiência. Toda mulher tem essa potência orgástica, mas de uma maneira limitada, porque nossas relações não permitem aprofundar”, disse, em entrevista para o site AzMina

Antes de começarmos a sessão, assinei um termo em que dizia estar consciente de que não estávamos em uma prática sexual e, em seguida, Kiran me passou informações básicas sobre o percurso que vivenciaria. Disse que três dispositivos me ajudariam durante o processo: sempre que a mente divagasse, trazer a consciência para a respiração; legitimar o prazer; vocalizar o que quer que fosse — desejos, angústias, gemidos, prazeres, choro, risada. “Ficamos adultas e adultos e tornamos tudo muito sério, inclusive a sexualidade, o sexo. Esquecemos da ludicidade que esses momentos podem ter”, explica Kiran. E, acreditem, contrariando todas as minhas expectativas eu ri, muito. 

A verdade é essa: não é fácil explicar o que acontece nessas duas horas. Para além dos esoterismos de muitas dinâmicas que rolam por aí — e dos charlatanismos, claro —, a terapia orgástica não tem nada de religioso, de ritualístico. Mas, mesmo assim, o que brota de lá é intenso e não termina quando acaba. Todo mundo goza? Não. Mas isso não quer dizer que a experiência será menos proveitosa. Uma amiga que, curiosa, marcou uma sessão dias depois da minha, saiu de lá extremamente mexida com a vivência. E para isso ela não precisou gozar uma vez sequer. 

É desafiador verbalizar, mas algumas conseguem. A cientista e historiadora Palmira Margarida — que viu, em 2016, seu ótimo texto Cheiro de Buceta viralizar por esta internet — experimentou a Terapia e deu um depoimento visceral em seu Instagram

“O corpo, que deveria ser uma festa, com tanta repressão sobre si, acaba por falar e guardar o que não deveria! Como guarda! Stanislavski, Reich, eita, essa galera tá certa. Reich quando falava em “potencial orgástico”? Tava certo! Masturbação feminina deve, pode, é saúde. Eu não vi estrelas na terapia, não teve nada sexual, mas sim, ancestral: vi minhas avós, as senti gritando e saindo de meus poros naquele potencial orgástico todo. A verdade histórica é que o poder orgástico foi colocado no limbo do pecado porque uma pessoa que goza conhece seu poder pessoal e , quem vai segurar uma pessoa dessas? A religião? O capitalismo? Não há como você controlar uma pessoa que sabe o poder que carrega. “Então diga para esses trouxas que potência orgástica é pecado, que não pode enfiar a mão lá.” A doutrinação fez você engolir o choro, o grito, o rosnar. Lá pelo décimo gozo, surgiu um amargo na minha garganta, que se abriu como uma onça faria, dando um grito de ódio, ira, possuída. Eram minhas avós saindo por ali, naquela coisa louca, voando pela sala e dizendo “muito obrigada, conseguimos gritar”. Elas se foram, minhas células agora são mais flexíveis e tanta coisa maravilhosamente assustadora aconteceu nos últimos dias que eu só penso em querer gozar mais! Goze, grite, rosne, entregue-se, pois é seu direito conhecer seu poder pessoal!”

Para mim, a terapia orgástica  foi praticamente uma supernova existencial. Explico. Demorei muito para entender sobre minha sexualidade. Para alguns campos de investigação da psique como a Psicanálise, aliás, a sexualidade é a chave para a compreensão do comportamento e da mente humana — e não necessariamente apenas uma sexualidade baseada nos órgãos genitais, de caráter instintivo ou com fins reprodutórios. Na minha casa, o assunto quase nunca esteve em pauta e, há 14 anos, quando iniciei minha vida sexual, tampouco era tema corriqueiro em rodas de amigas. Antigas experiências sexuais ruins com caras autocentrados, machistas e/ ou heteronormativos minaram minha relação com o gozo, o corpo e o prazer. E cito o prazer — e não só o orgasmo — porque é preciso que tenhamos responsabilidade com essa nova seara que se abre e que já se mostra como mandatória para mulheres. A ditadura do “chegar lá” pode ser tão cruel quanto nunca ter a possibilidade de se explorar, conhecer e descobrir suas preferências e potências. Não é a meta final que deve estar em jogo para nós, mulheres, mas entender o que há por trás da estratégia patriarcal de nos afastar de uma sexualidade sadia e poderosa.

Orgasmos múltiplos

Quinze orgasmos, é isso mesmo? Saí de lá estarrecida. Não tanto pela quantidade — embora, claro, seja surpreendente —, mas principalmente pela possibilidades de sensações físicas completamente diferentes de um êxtase para outro. É exatamente aí que a terapeuta trabalha: “Quando temos o primeiro orgasmo, normalmente ficamos sensíveis e queremos parar. Meu trabalho é ir além e entrar nesse universo desconhecido de prazer em que há manifestações com intensidades diferentes”. Durante toda a vivência, duas coisas me surpreenderam: em nenhum momento gozei projetando imagens ou memórias sexuais. Não foi precioso acionar nenhum imaginário. Além disso, também não fiquei presa ao fato de que havia uma pessoa me estimulando. Só fui lembrar, aliás, quando, já ao final, vestida, conversávamos sobre o processo e como os insights que surgiram se entrelaçavam com as demais coisas da vida.

Na minha sessão, Kiran diz que levou sua atenção e dedicação para que eu não ficasse intimidada com meu potencial orgástico — já que é comum nos assustarmos quando vivemos muito tempo com escalas de clímax menos intensos. Kiran tinha razão, eu estava assustada. Amedrontada porque não era só sobre orgasmos ou sobre sexo. Aquilo ali que eu estava vivendo tinha uma profundidade inusitada. A overdose de dopamina me deixou motivada e energizada como há muito não me sentia. Foi aí que eu percebi o poder que existe em uma mulher que faz as pazes com sua sexualidade. É poderoso — e por isso, tantos têm medo. 

Vagina, uma biografia 

Tomo de empréstimo o título do livro de Naomi para esse intertexto. Utilizo porque não há nada que explique melhor a relação da sexualidade com a formação do indivíduo. Saí da Casa PrazerEla** com a certeza de que havia um potencial enorme na minha sexualidade que não estava recebendo a devida atenção. 

Desde pequenas, fomos educadas para sentir nojo da nossa vulva ao mesmo tempo em que a sacralizamos. E os sentimentos que temos em relação à ela estão diretamente ligados ao nosso prazer com o sexo. O sexo tem implicações políticas e sociais. Não é de se estranhar, portanto, que seja usado como ferramenta de opressão. Em um TED inspirador, a jornalista Peggy Orenstein tratou brilhantemente sobre a relação entre o prazer feminino e a sociedade e como é urgente que olhemos para o que ela chama de “justiça íntima”. 

Apesar das pesquisas inconclusivas e escassas, fruto de um cenário cientifico ainda muito dominado por homens, o que já está posto comprova que gozar, para nós, mulheres, pode trazer benefícios imensos tanto física quanto mentalmente. Isso não deveria ser o suficiente para que uma sexualidade saudável fosse estimulada? 

Ilustração da animação Le Clitoris

Em Ruanda, o orgasmo das mulheres é levado tão a serio que é considerado sagrado. O documentário francês Sacred Water investiga a fonte do prazer e percorre os caminhos da ejaculação feminina. Para os ruandeses, o líquido que jorra durante o sexo seria um sinal de fertilidade responsável por toda a vida no planeta e por alimentar lagos, rios e oceanos. Não é só o saber mítico, sexual e medicinal que surpreende. Também impacta como, por lá, o controle social sobre o prazer feminino parece ser bastante reduzido em comparação ao que vivenciamos em terras tupiniquins. 

Entendo o sagrado das águas que podemos despejar. Pela primeira vez, aos trinta anos, numa sessão de terapia orgástica, ejaculei. Numa potência tão forte, tão emocionante, tão profunda e dolorosa — não no sentido físico, mas emocional — que essa experiência jamais passará incólume da pessoa que me tornarei. 

O que senti e compreendi estará sempre a serviço de comunicar às minhas o porquê dos prazeres femininos serem ainda tão reprimidos. Poderia terminar dizendo que este é um texto para que você aprenda a gozar com seu parceiro ou com a sua parceira ou sozinha, mas não é. Este é um texto sobre sexualidade. Sobre como legitimar meu prazer foi uma viagem de ácido para dentro e para tudo aquilo que já vivi e que ficou gravado na memória da minha pele. A sexualidade deve ser vista como uma fonte de autoconhecimento, criatividade e comunicação, já dizia Peggy Orenstein. Por isso tal relato pessoal. Há gente mais versada por aqui capaz de dar panoramas técnicos melhores que os meus, obviamente. Mas se da minha experiência algo valioso puder ser passado para frente, que seja isso: deixe-se conhecer e, conhecendo, valide como legítimo seu prazer. Ou, como diria Kiran, “solte a Eliana e seus dedinhos que existe em você” e permita-se. Prometo, mal não vai fazer.

* Deva Kiran também é criadora do Prazer, Mulher Preta, uma iniciativa em curso da sexualidade autêntica da mulher preta. Para saber mais, acesse o Instagram do projeto

** A Casa PrazerEla oferece dez atendimentos sociais por mês, pois entender que a Terapia Orgástica deve ser acessada pelo máximo possível de mulheres. O Brasil é um país com desigualdades e uma grave disparidade de renda. Por isso, querem proporcionar essa experiência a mulheres que não podem pagar o valor das sessões. Se este é o seu caso, entre em contato com a equipe pelo email contato@prazerela.com

 

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Gabrielle Estevans
Jornalista, escreve sobre gênero, cultura e política. Também trabalha com pesquisa, planejamento estratégico e projetos com propósito e impacto social.

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