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Xô racismo! 10 músicas para entender e sentir a grandeza dos orixás

por: Kauê Vieira

Simone e Simaria protagonizaram uma cena no mínimo controversa. Acusadas de racismo, as sertanejas se recusaram em pronunciar o nome da Iemanjá – orixá homenageada na música ‘Quero Ser Feliz Também’, do Natiruts. 

As duas justificaram dizendo que não conheciam a letra da canção de sucesso. Tá bom. O assunto, claro, diz muito sobre o racismo religioso no Brasil. Candomblé e Umbanda são discriminadas de todas as formas. 

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Iemanjá por Pierre Verger

Seja por meio do preconceito velado ou explícito – caso das dezenas de terreiros de culto aos orixás destruídos Brasil afora. A intolerância religiosa come solta no país. 

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A cada 15 horas, uma denúncia de intolerância religiosa é registrada, segundo levantamento do Ministério dos Direitos Humanos. Isso porque, constitucionalmente, o Estado brasileiro é laico há 120 anos. 

Para refrescar a memória dos que insistem em pregar o desconhecimento, separamos 10 canções que homenageiam e exaltam a beleza dos orixás. Pela liberdade religiosa. Contra o racismo. 

1- Mariene de Castro: Oxóssi/Citação: Ponto de Oxóssi 

Mariene de Castro e os encantos de Oxum

Feita na Bahia, Mariene é um espetáculo. Como boa filha de Oxum, não poderia deixar de cantar para o senhor das matas e companheiro da dona das águas doces. 

“Oxóssi reina de norte a sul

Oxóssi, filho de Iemanjá

Divindade do clã de Ogum

É Ibualama, é Inlé

Que Oxum levou pro rio

E nasceu Logunedé

Sua natureza é da Lua

Na Lua Oxóssi é Odé

Odé, Odé, Odé, Odé”

2- Maria Bethânia – As Ayabás 

Bethânia, aqui do lado de Mãe Menininha do Gantois

Não dá para falar do Candomblé como força cultural sem citar o nome de Bethânia. A baiana iniciada por Mãe Menininha no Terreiro do Gantois, em Salvador, sempre fez questão de exaltar a potência das divindades africanas. 

Nesta composição do irmão Caetano Veloso e do parceiro Gilberto Gil, Maria Bethânia destaca o poder da ayabás – orixás mães e rainhas. 

Para Iansã: 

“Iansã comanda os ventos

E a força dos elementos

Na ponta do seu florim”

Lá veio Obá: 

“Obá – Não tem homem que enfrente

Obá – A guerreira mais valente”

Se lembrou de Ewá: 

“Euá, Euá

É uma moça cismada

Que se esconde na mata

E não tem medo de nada”

E, finalmente, Oxum: 

“Oxum… Oxum…

Doce mãe dessa gente morena

Oxum… Oxum…

Água dourada, lagoa serena”

3- Mateus Aleluia – Cordeiro de Nanã 

Com seus cabelos e roupas brancas cor de algodão. Contraste com a pele negra marcada pela passagem do tempo. Mateus nasceu em Cachoeira, no Recôncavo Baiano, mas pode ser visto passeando de chinelos pelas ruas apertadas de Salvador. 

É do ex-membro de Os Tincoãs a bela ‘Cordeiro de Nanã’. Como o nome já adianta, a canção homenageia ela, que vem, parafraseando Mariene de Castro, no som das chuvas. 

“Sou de Nanã, euá, euá, euá, ê

Sou de Nanã, euá, euá, euá, ê”

Nanã está na água das chuvas. Na terra molhada dos pântanos e brejos. De roxo, andando calmamente, é a materialização da sabedoria. Salubá! 

4- Juçara Marçal e Kiko Dinucci – Atotô 

Juçara e Kiko em registro de Marina Sapienza

Deixemos os clássicos de lado. Por hora. Juçara Marçal e Kiko Dinucci são membros do Metá Metá, mas também costumam trabalhar em dupla. 

Ao lado do violão preciso do paulista de Guarulhos, Juçara canta para ‘o velho’. A faixa do disco ‘Padê’ exalta, com calmaria, Obaluaê. O senhor que cura todas as chagas com um bom banho de pipoca reina soberano. 

A linha de baixo Marcelo Mainieri dialoga com o silêncio. Obaluaê não gosta de algazarra e se move lentamente. Aprecie. 

5- Saudação/Abertura -Rita Benneditto 

“Adorei as almas

As almas adorei”

Rita cantando o Brasil

Já ouviu ‘Tecnomacumba’? O disco é um ode à Umbanda. Uma exaltação ao orixá. O trabalho de Rita Benneditto exalta todos os elementos da religião do Brasil. 

A abertura, com a velocidade de Exu, mistura funk e a fúria de guitarras para celebrar e saudar. De Exu, claro, passando por Ogum, Oxóssi, Obaluaê, Jurema, pombas giras e por aí vai. Eita Brasil plural!

Eparrey! 

6- Casa Nova/Raiz – Dona Edith do Prato 

Maria Bethânia (sempre ela) ao lado e Dona Edith do Prato

Ai, o Recôncavo Baiano. Terra de sangue negro, descendentes de africanos e do samba de roda. A manifestação mais baiana de todas se tornou fio condutor de Dona Edith do Prato. 

Macumbeira de primeira, ela cantou o povo brasileiro. Sua fé, costumes e comidas. ‘Casa Nova/Raiz’ une o frescor da voz jovem de Mariene de Castro (sempre ela) com a sabedoria de quem já viveu o suficiente. Tem como dar errado? 

Sabe o que é axé? Escute o trecho abaixo para ter uma ideia: 

“Tá na beira do mar nas folhas de sultão

Nos metais de ogunhê vendo raio e trovão

Tá na voz mais bonita que tem graça nas mãos

Por um milagre bem disse será a voz da canção”

7- Charles Ilê – Carlinhos Brown e Ilê Aiyê 

Difícil escolher apenas uma música do bloco afro mais lindo do Brasil e do cantor mais talentoso de todos. Brown e Ilê, juntos na Concha Acústica de Salvador. 

“Ogum onilê

Onilê Ogum”

Só pode ser coisa orixá! Com sua guitarra, todo paramentado, o filho do Candeal exalta Ogum e sua força. Ao mesmo tempo em que mostra a riqueza intelectual do Ilê ao cantar a África e as particularidades culturais de seus 54 países. 

Brown oferecendo pipoca para Obaluaê

“Que realeza, Charles

Beleza negra

Negra marrin

Negra Salim

Salamaleikum, Charles

Salamaleikum

Salamaleikum”

8- Kaô – Gilberto Gil 

Dizem por aí que Gilberto Gil é um orixá. Filho de Xangô, face da Justiça, o baiano caprichou ao homenagear o dono de sua cabeça. 

‘Kaô’, lançada no álbum ‘Sol de Oslo’, do fim da década de 1990, é um mantra. Uma espécie de meditação. Cada toque da voz de Gil, ali, quase nua, emociona. Entra no sangue e dá a dimensão do que um orixá pode significar. 

Gil como Oxalufã para o fotógrafo Daryan Dornelles

“Baobá

Obá obá obá obá Xangô

Obá obá obá obá obá Xangô

Obá obá obá obá Xangô

Obá obá obá obá obá”

9- Afoxé de Oxalá – Roberta Nistra 

Sexta-feira é dia de vestir branco. Respeito ao orixá da paz e sabedoria, Oxalá. Homenageado com sensibilidade no ijexá de Luiz Antônio Simas, cantado aqui por Roberta Nistra. 

Roberta Nistra também canta para Ogum

“Orun Alá

Orun yê

Alá un

Alá Orun

Alá”

10 – Obàtálá – Metá Metá 

Ainda debaixo do alá de Oxalá. E talvez inspirada na tranquilidade da já citada ‘Kaô’, de Gilberto Gil, o Metá Metá deu show. 

Gente que ama amar o Metá Metá

Thiago França e seu saxofone levitam de mãos dadas com as notas de ‘Obatalá’. Poucas coisas conseguem ser mais bonitas e sensíveis. Difícil não derramar uma lágrima. 

Obàtálá, dizem os Yorubás, é criador do mundo, dos homens, dos animais. O ‘Rei do Pano Branco’ foi o primeiro orixá criado por Oludumare. Se delicie com a voz da talentosa Juçara Marçal e pense no colorido lindo da vida. 

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Fotos: foto 1: Pierre Verger/Reprodução/foto 2: Felipe Maior/Reprodução/Instagram Oficial/foto 3: Reprodução/foto 4: Reprodução/YouTube/foto 5: Marina Sapienza/Reprodução/Instagram Oficial/foto 6: Thais Gallart/Reprodução/Instagram/foto 7: Reprodução/YouTube/foto 8: Imas Pereira/Reprodução/Instagram Oficial/foto 9: Daryan Dornelles/Reprodução/foto 10: Reprodução/foto 11: Divulgação


Kauê Vieira
Nascido na periferia da zona sul de São Paulo, Kauê Vieira é jornalista desde que se conhece por gente. Apaixonado pela profissão, acumula 10 anos de carreira, com destaque para passagens pela área de cultura. Foi coordenador de comunicação do Projeto Afreaka, idealizou duas edições de um festival promovendo encontros entre Brasil e África contemporânea, além de ter participado da produção de um livro paradidático sobre o ensino de África nas Escolas. Acumula ainda duas passagens pelo Portal Terra. Por fim, ao lado de suas funções no Hypeness, ministra um curso sobre mídia e representatividade e outras coisinhas mais.

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