Matéria Especial Hypeness

A incrível história do cosmonauta que ficou ‘preso’ no espaço porque seu país deixou de existir

por: Vitor Paiva

Toda viagem é capaz de nos transformar pra sempre, e muitas vezes voltamos de uma como se tudo a nossa volta estivesse diferente. Quanto mais longe for a jornada, mais forte é essa impressão: voltar para casa depois de ir a outro país, outro continente, faz parecer na volta como se até mesmo a nossa casa estivesse diferente – e a velha casa de antes da partida não existisse mais. Por mais longe que o leitor tenha ido, porém – Manaus, Canadá, Rússia, Japão – nenhuma história será capaz de superar a experiência do cosmonauta russo Sergei Konstantinovich Krikalev, que por quase um ano esteve preso em uma viagem da qual simplesmente não podia voltar – pois seu país de origem não existia mais. E pior: Sergei não estava em um aeroporto sem poder embarcar ou somente em um país realmente distante, mas sim fora do planeta, em uma estação no espaço sideral.

Sergei Krikalev trabalhando na estação espacial Mir

Se para a absoluta maioria uma viagem ao espaço seria o feito maior de uma vida inteira, para Sergei Krikalev em sua carreira sair do planeta tornou-se quase corriqueiro: ao longo de seus mais de 20 anos de trabalho, o cosmonauta passou nada menos que 803 dias, 9 horas e 39 minutos no espaço em seis diferentes viagens, tornando-se o terceiro ser humano a passar mais tempo fora da Terra. Como se não bastasse, Krikalev ainda completou 41 horas e 8 minutos de “atividades extraveiculares”, quando astronautas ou cosmonautas realizam tarefas e operações fora dos veículos ou das estações espaciais – e ficam essencialmente à deriva, voando no espaço, nas famosas “caminhadas espaciais”.

Astronauta em uma caminhada espacial, fora da estação

Quando embarcou no dia 19 de maio de 1991, Krikalev era um cidadão soviético que pensava somente em cumprir mais uma missão; em seu retorno, porém, ele havia deixado de ser soviético, se tornado russo, e a União Soviética, país onde nasceu, cresceu, estudou, trabalhou e de onde decolou, simplesmente não existia mais.

Também não existia a atual Estação Espacial Internacional (ISS) lançada somente em 1998: Krikalev e a equipe da missão Soyuz TM-2 viajaram em 1991 para a Mir, a primeira estação espacial da história, criada pelos soviéticos em 1986 e desativada em 2001. A previsão já era de que Sergei ficaria de fato por meses na Mir, a fim de realizar 10 atividades extraveiculares, além de reparos na estação e experimentos de longa duração no espaço. Como seu treinamento previa que o cosmonauta atravessasse longos períodos sem gravidade, a 300 km de altura, após cerca de seis meses do início da missão ele aceitou permanecer ainda mais tempo na estação, enquanto boa parte da equipe original voltava pra casa. Enquanto isso, a turbulência em Terra era muito maior do que no espaço, e a União Soviética atravessava um período de transformações radicais.

Mir, a primeira estação espacial, feita pelos russos em 1986

O que não se previa no treinamento de Krikalev, porém, era a conclusão do processo político pela qual seu país atravessava então. No natal de de 1991, a dissolução da União Soviética tornou-se oficial, Mikhail Gorbachev deixou o cargo de presidente  e declarou o fim do país, abrindo caminho para a refundação da Rússia – e enquanto tudo isso acontecia, Krikalev seguia trabalhando na Mir como o último cidadão de um país fantasma.

Krkalev mostrando o efeito da falta de gravidade sobre a água na Mir

A crise provocou um verdadeiro colapso na economia soviética, e os fundos para o programa espacial tornaram-se escassos. Como se não bastasse, a base oficial utilizada em terra pelo programa agora não mais ficava em solo russo, mas sim no Cazaquistão, que se tornou um país independente com o fim do bloco, e passou a cobrar pequenas fortunas pela sua utilização. O único lampejo de sorte de Krikalev durante tal período foi o fato de que sua esposa, Elena, trabalhava no controle da missão em terra, e por isso os dois conseguiam se falar com regularidade. Tudo mais, porém, tornou-se uma incógnita – inclusive o envio de comida e outros suprimentos vitais para a sobrevivência dos cosmonautas na Mir. Em certo momento, no início de 1992, os russos chegaram a tentar vender a estação para os EUA, seus inimigos históricos, mas a NASA não demonstrou maiores interesses.

Krkalev e outros cosmonautas celebrando o ano novo na estação

Somente 311 dias depois de partir, em 25 de março de 1992 Krikalev finalmente voltou para Terra e pôde sentir novamente os efeitos da gravidade e matar as saudades de sua família – pois todo o resto de sua realidade havia se transformado radicalmente. O país de onde decolou havia se repartido em 15 diferentes nações, e até mesmo sua cidade natal, Leningrado, agora se chamava São Petersburgo. Depois de ser carregado para fora da cápsula espacial (os efeitos de tanto tempo sem gravidade sobre o corpo humano demoram para se amenizar, e é normal que astronautas tenham dificuldade para permanecer em pé ou se equilibrar nos primeiros momentos) uma das primeiras coisas que fez em solo, foi tomar uma sopa quente. “Voltar foi muito prazeroso, apesar dos efeitos da gravidade que tivemos de enfrentar, mas psicologicamente a tarefa estava finalizada”, comentou. “Eu senti a satisfação do dever cumprido, e um imenso alívio pelo fim da responsabilidade que carreguei por muitos meses”.

Acima, Krikalev nos primeiros instantes depois de pousar em solo terreno; abaixo, recuperando-se no voo de volta pra casa

Engana-se quem pensa que essa experiência radical afastou Krikalev do trabalho como cosmonauta – e das viagens espaciais. Poucos meses após o retorno ele reiniciou seu treinamento, e em menos de dois anos tornou-se o primeiro cosmonauta russo a viajar junto de astronautas dos EUA em uma nave estadunidense, a US Space Shuttle Discovery, em fevereiro de 1994.

Krikalev vestindo o histórico uniforme que unia EUA e Rússia para sua missão

Após essa missão histórica, Krikalev ainda retornaria ao espaço outras três vezes, decolando para sua última viagem espacial em abril de 2005, rumo à ISS. Depois de receber as maiores honrarias do estado soviético e russo, Sergei Krikalev aposentou-se em 2007, mas nenhuma viagem foi mais simbólica e impactante do que a que começou em 1991, na União Soviética, e terminou em 1992: o endereço e a geografia até poderiam ser as mesmas, mas a realidade do planeta para o qual retornou Krikalev, o último cidadão soviético, quase um ano depois era completamente diferente.

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© fotos: arquivo/divulgação


Vitor Paiva
Escritor, jornalista e músico, doutorando em literatura pela PUC-Rio, publica artigos, ensaios e reportagens. É autor dos livros Tudo Que Não é Cavalo, Boca Aberta, Só o Sol Sabe Sair de Cena e Dólar e outros amores.

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