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Alphonse Mucha: ícone da Art Nouveau ganha mostra inédita no Brasil

por: Gabriela Rassy

Você pode até achar que não conhece Alphonse Mucha (1860-1939), mas não há uma pessoa que nunca tenha se deparado com uma obra do artista tcheco. Apesar de ser a primeira exposição completa deste ícone da Art Nouveau aqui no Brasil, o fato dele ter sido pioneiro na arte publicitária fez com que suas obras estivessem espalhadas pelo mundo.

Em andanças por esse mundão, já me deparei com quadros em diferentes formatos, postais, pôsteres, cartas de baralho e até isqueiro. Sendo uma apaixonada pelas belas figuras de Mucha, andei angariando algumas peças ao longo do tempo e minha casa tem uma pequena exposição desses garimpos. Nada como a seleção de obras exibidas em “Alphonse Mucha: o legado da Art Nouveau”, mas me orgulho da coleção.

Apesar de conhecer o trabalho há anos, foi na mostra que fiquei sabendo a pronúncia de seu nome. O certo seria Alphonse “Murra”, mas, como disse a curadora Ania Rodriguez, “ele será sempre o nosso Mucha”. Podemos manter o CH em paz.

A exposição já passou pela Ásia, Estados Unidos e Europa, sempre com sucesso de público. Aqui no Brasil ela aterriza em São Paulo, de 18 de setembro a 15 de dezembro, no Centro Cultural Fiesp (Avenida Paulista, 1313), com entrada gratuita. Com quatro ambientes, mais de 100 obras cedidas pela Fundação Mucha compõe esta que é a maior coletânea do artista já exibida no país.

Psicologia e Publicidade

A primeira é a ala que traz  as obras mais conhecidas de Mucha. Com o título “Mulheres: Ícones & Musas” o espaço reúne o ponto alto de sua trajetória publicitária. O que ainda no final do século XIX era feito para propaganda, hoje são verdadeiras obras de vanguarda. São essas que você provavelmente já viu dando pinta em ambientes com uma pegada retrô.

Seus cartazes era diferentes de tudo que era feito na época. Se a propaganda fosse de comida, lá estava uma pessoa comendo. Se fosse de aulas de pintura, alguém estaria, claro, pintando. Mas as obras de Mucha chamavam a atenção de uma forma diferente. Primeiro pelas lindas figuras de ninfas delicadas, segundo pelo estudo psicológico que era feito para compor a imagem.

A repetição de linhas, formatos e padrões era totalmente intencional para garantir que o público associasse a obra ao produto. A técnica foi a mesma usada para divulgar os espetáculos da maior atriz da época, Sarah Bernhardt. O primeiro deles foi Gismonda e já lhe rendeu muita popularidade.

Sarah foi escultora também, além de atriz, e encontrou em Mucha alguém que compartilhava de seus ideais artísticos. “Ela tinha uma ideia particular de como os artistas deveriam se apresentar no palco, e Mucha conseguiu capturar esse espírito. Com isso, passou a não apenas produzir os seus pôsteres, como se tornou o diretor artístico de suas peças”, disse Tomoko Sato, curadora da mostra.

O sucesso das obras que ilustravam as peças de Sarah era tanto que as pessoas arrancavam os pôsteres dos muros de Paris para levar para casa. Pense num artista ativista em plena virada do século XX? Esse é o cara! Ele imprimia suas artes em papel comum ao invés do papel de seda para que o maior número de pessoas pudesse ter acesso.

“Eu prefiro ser um criador de arte para as pessoas do que arte pela arte”, Alphonse Mucha

Essa frase proferida em um mundo onde só os endinheirados tinham acesso à arte foi, no mínimo, revolucionário. “Ele começou a aplicar todos os princípios do design gráfico que ele tinha ensaiado no design de produto para criar uma linguagem da arte que pudesse ser facilmente reproduzida e acessada”, explica Ania Rodriguez.

Ele passa então a usar essas reproduções gráficas não mais para a publicidade de espetáculos e produtos, mas para replicar uma ideia artística. Tudo isso tinha um objetivo: que as pessoas pudessem levar suas obras para casa por um preço acessível.

Na segunda sala da exposição, podemos ver algumas das obras que repetem a mesma metodologia. Em “O Estilo Mucha – Uma linguagem visual”, a curadora Tomoko Sato reuniu as ilustrações que reafirmam o estilo do artista, agora sem o viés publicitário. “Ele fazia os designs das obras para que as pessoas pudessem copiar. Tinha uma visão bastante democrática e utópica da arte”, conta o bisneto do artista, Marcus Mucha.

“Ele sempre foi um grande defensor de fazer produtos acessíveis. Neste sentido também ele fez manuais de design para transmitir suas experiências do que tinha dado certo no sentido das fórmulas da arte para que as pessoas pudessem usar essas estratégias também”, explica Marcus.

Para Ania, ele foi essencialmente um comunicador, um artista imigrante em Paris que nunca esqueceu das suas raízes eslavas e que sempre tentou fazer de sua arte um meio de transformação. “Ele acreditava profundamente que um entorno belo, digno para o homem, muda algo na pessoa, então ele queria que a arte chegasse ao maior número de pessoas possível”, conclui a curadora.

Artivismo e Política

Quando Mucha volta para a República Tcheca, que ainda buscava a independência do Império Austro-Húngaro, o artista passa a colocar seus talentos artísticos a serviço da nação. A partir desta fase, temos dois estágios. “O primeiro é quando não havia uma nação tcheca e seu trabalho era envolvido com a luta pela independência e o segundo, depois da independência, em 1918, quando ele queria dar todo seu talento para a população eslava produzindo pôsteres, selos e quadros do país já livre”, aponta Marcus.

Segundo o bisneto do artista, Mucha tinha bastante envolvimento político na luta pela independência, mas tinha que ser muito cuidadoso. “Ele tem alguns trabalhos que foram feitos publicamente para arrecadar dinheiro para causas sociais, mas que na verdade eram para financiar escolas que ensinavam o idioma tcheco, que era proibido pelos nazistas”, conta.

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Nos desenhos desta fase, podemos ver ainda diversos elementos da cultura eslava, como figurinos e artigos decorativos do folclore, formas geométricas, curvas, adereços e a quase ausência de profundidade que são clássicos da arte bizantina. O artista tinha assim a intenção de aproveitar a reputação conquistada em Paris para divulgar a força da civilização eslava.

A obra Song of Bohemia (Our Song), de 1918, foi feita pouco antes da independência e mostra três garotas em trajes nacionais. A expressão da garota em primeiro plano evoca uma música para unir o povo tcheco.

Essa e outras obras são também um ensaio daquilo que seria a obra-prima de Mucha: A Epopeia Eslava. A série de 20 quadros gigantes produzida ao longo de quase duas décadas representa o ponto máximo dessa missão política. As ilustrações reais são gigantes e frágeis, por isso são projetadas em uma instalação digital.

“Como artista, Mucha acreditava que a sua missão era comunicar e inspirar ideias para o público geral. Ele queria mostrar que mesmo uma pequena minoria étnica poderia ser reparada sem sentir-se ameaçada. E que todos deveriam respeitar as diferenças”, afirma Sato. “A Epopeia Eslava mostra cenas de guerra, mas sem heróis. A ideia é mostrar que todos perdem com a guerra”, diz a curadora.

Pink Floyd, Mangás e Marvel

Hoje, passados 80 anos de sua morte, Mucha continua a influenciar artistas no mundo todo e mantém sua herança viva em ilustrações contemporâneas. Suas técnicas estão muito presentes no universo dos HQs e dos Mangás, tanto da Coréia quanto do Japão, além de terem influenciado o movimento psicodélico britânico nos pôsteres de bandas como Pink Floyd e Rolling Stones.

Mais atualmente ainda, as referências de Mucha estão até nos mais conhecidos quadrinhos. O artista americano Joe Quesada, que começou como ilustrador, ficou amigo da família Mucha e atualmente é o CCO da Marvel Entertainment. “A influência de Mucha no trabalho criativo dele na Marvel é perceptível em trabalhos como Os Vingadores e Thor”, aponta Marcus.

Alphonse Mucha: o legado da Art Nouveau
De 18 de setembro a 15 de dezembro
De terça a sábado, das 10h às 22h e domingos, 10h às 20h
Galeria de Arte do Centro Cultural Fiesp
Avenida Paulista, 1313 – Cerqueira César (em frente à estação Trianon-Masp do Metrô)
Entrada gratuita

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Imagens © Mucha Trust 2019


Gabriela Rassy
Jornalista enraizada na cultura, caçadora de arte e badalação nas capitais ensolaradas desse Brasil, entusiasta da cena musical noturna e fervida por natureza.

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