Entrevista Hypeness

CEO da Dr. Cannabis fala sobre os benefícios da cannabis medicinal

por: Rafael Oliver

“Todo o brasileiro tem direito a se tratar com cannabis medicinal legalmente, mas ele não sabe disso”. A fala da empresária Viviane Sedola mostra como ainda há muita desinformação sobre um assunto que deveria ser mais divulgado. Ela conversou com o Hypeness e nos contou tudo o que você precisa saber sobre entraves legais, tratamento e benefícios do cannabis medicinal.

Fundadora e CEO da Dr. Cannabis, ela reafirma a importância da discussão sobre o uso medicinal de canabinoides, como o CBD (canabidiol) e o THC (tetraidrocanabinol), em nosso país. E inclusive relembra que o uso medicinal é permitido no Brasil desde 2015 pela Anvisa, mesmo que ainda haja muita burocracia.

Pouca gente sabe da legalidade e, além da falta de divulgação sobre a importância médica das substâncias, ainda há um preconceito muito grande contra quem utiliza esse tipo de medicamento. E isso é algo que precisa ser discutido.

A Dr. Cannabis foi lançada no início de 2018 justamente com objetivo acolher, informar e conectar pessoas, médicos e profissionais que produzem e revendem canabinoides de forma legal, responsável e comprometida. O serviço é gratuito tanto para pacientes como para médicos que se interessam pelo assunto e podem prescrever a medicação.

A premissa da plataforma é de ser um elo facilitador, ligando os dois lados, oferecendo também uma interface de prescrição para os médicos e acompanhamento de todo o processo pela Anvisa para os pacientes, desde a entrada de documentos até a liberação do tratamento. No site, há também informações e indicações sobre produtos e é possível efetuar a compra e importação.

Sedola também percebeu a importância de criar um blog recheado de informações úteis para qualquer pessoa que tenha interesse em entender mais sobre o assunto, já que ainda são espalhados vários mitos quando se trata de uso medicinal da maconha. Um exemplo disso é o grande número de pessoas que pensa que é preciso fumar o cigarro de maconha como tratamento. Em geral, o uso da medicação é sublingual. E pode ser usado, inclusive, durante uma crise convulsiva, com resultados quase imediatos.

Os remédios podem vir em diversas formas, como óleos concentrados com canabinoides, óleos encapsulados, cremes tópicos e outras formas que estão surgindo no mercado à medida que o tema é discutido e estudado no mundo todo. Vale lembrar que na terça, 13 de agosto, o Hypeness participou da 22ª edição do Like The Future, intitulado Cannabusiness: um mercado bilionário.

O processo de tratamento com canabinoides mostra como os benefícios são inúmeros. Um dos casos que Viviane nos contou foi sobre crianças autistas que, após tomarem a medicação, olharam nos olhos da mãe pela primeira vez, conseguiram frequentar a escola e se comunicar com outras crianças e mostraram um aumento no desenvolvimento e na qualidade de vida.

Os canabinoides também ajudam a controlar crises epilépticas. “Quando uma criança tem crise epiléptica ela tem perdas neurológicas, podendo inclusive regredir na habilidade da fala. O controle dessas crises com o medicamento à base de CBD permite o desenvolvimento da criança, além de dar a ela mais qualidade de vida”, conta a CEO da Dr. Cannabis.

O tratamento com as medicações não para por aí e pode abranger grande parte da população! Viviane diz que “40% da população adulta do Brasil tem alguma dor ou uma doença crônica e a cannabis é fantástica para esse tipo de caso”. Os casos normalmente são de doenças que não matam, mas podem debilitar as pessoas para o resto da vida, como fibromialgia, enxaqueca frequente, cólica, endometriose e até sintomas originados por conta de tratamento quimioterápico para câncer.

Em meio a tantos benefícios, muitos países contam não só com o uso legal da medicação à base de cannabis, mas também com suplementos alimentares feitos com CBD, ampla divulgação das medicações, facilidade para tratamento e pesquisas comprovando a eficiência dos medicamentos.

Mas… E no Brasil? Bom, já te contamos que a Anvisa liberou o uso medicinal em 2015. Mas ainda assim é um processo bastante complicado. Neste ano, a agência aprovou duas propostas preliminares que podem liberar o cultivo da planta de Cannabis sativa em nosso país para fins medicinais e científicos, além da produção de medicamentos nacionais com base em derivados da substância. Ambos os textos foram submetidos à consulta pública e os resultados foram divulgados neste mês.

Conforme consulta no site oficial da Anvisa, a primeira proposta “que dispõe sobre o procedimento específico para registro e monitoramento de medicamentos à base de Cannabis spp., seus derivados e análogos sintéticos” mostra o seguinte resultado: 97,7% dos 594 votantes são à favor da regulamentação do uso medicinal da Cannabis no Brasil, e 85,13% se mostraram favoráveis ao enquadramento de produtos à base de Cannabis spp., seus derivados e análogos sintéticos como medicamentos.

A segunda proposta também mostra números positivos para a luta da cannabis medicinal no país. Entre os 560 votantes, 76, 56% avaliam como positiva a Proposta de Requisitos técnicos e administrativos para o cultivo da planta Cannabis spp. para fins medicinais e científicos, e dá outras providências. Já outros 19,42% afirmam haver pontos positivos e negativos no texto.

Diante deste cenário favorável, podemos ver que há esperança de que o tratamento seja cada vez mais acessível no Brasil. E Sedola ressalta: “os efeitos não mentem: as pessoas se sentem muito melhores, é muito seguro e o Brasil precisa ter acesso a isso também”.

Confira a entrevista:

Vivi, conta pra gente: o que é como funciona a plataforma Dr. Cannabis?

VS — Todo brasileiro tem direito a se tratar com Cannabis medicinal legalmente, mas ele não sabe disso. E quando sabe entende que é um processo muito burocrático. Então, a Dr. Cannabis cuida de todo esse processo para o paciente, desde encontrar um médico que prescreve o medicamento até fazer todo o processo Anvisa e também a compra importação do produto para sua casa. O serviço é gratuito tanto pro médico quanto para o paciente.

Quais são os pacientes que podem fazer uso dos medicamentos derivados da cannabis?

VS — A resolução da Anvisa, que autoriza os pacientes importarem o produto, não limita nenhum tipo de patologia. Então à rigor, de novo, todo brasileiro tem direito. Claro que as patologias mais graves, como epilepsia, epilepsia refratária, Parkinson, Alzheimer, podem se beneficiar muito disso. Mas pessoas que tratam insônia, depressão, muitas vezes com opioides que são substâncias altamente viciantes — que podem sim levar a óbito, diferente da cannabis, que é muito segura — podem também optar por testar o tratamento com cannabis medicinal de maneira legal.

Como que esse medicamento pode mudar a vida de um paciente?

VS — Olha, tem casos muito animadores de, por exemplo, crianças autistas que olharam nos olhos da mãe pela primeira vez depois de começarem o tratamento com cannabis medicinal, e conseguiram começar a frequentar a escola e ter um desenvolvimento mais próximo de uma criança que não está no espectro autista. Também há pessoas que têm crises epilépticas frequentes e ter o controle disso é algo incrível. Quando uma criança tem uma crise epiléptica, ela tem perdas neurológicas, então se ela tinha aprendido a falar e tem uma crise muito forte, ela pode regredir nessa habilidade conquistada. Se a criança conseguir controlar essas crises — e há casos de crianças que tinham dezenas de crises por dia e zeram ao longo de meses — ela vai ter um ganho muito maior e uma vida muito mais próxima do esperado em termos de saúde.

É legal falar da importância das pessoas se conscientizarem e se mobilizarem, porque mesmo quem não está passando por nenhum problema agora, pode precisar no futuro, certo?

VS — Olha, 40% da população adulta do Brasil tem uma dor alguma doença crônica. A cannabis é fantástica para esse tipo de caso. Normalmente é uma doença que não vai te levar a óbito, mas pode te debilitar para o resto da vida, pois não vai ser curada. Por exemplo, fibromialgia, crises frequentes de enxaqueca, cólica, endometriose… Vários sintomas podem ser atenuados com a Cannabis, inclusive os sintomas adversos de tratamento quimioterápico para câncer. Então muita gente pode se beneficiar. Quando você olha para o mundo, é um movimento sem volta. Diversos países estão regulando. Inclusive, como nos Estados Unidos e em vários outros, esses produtos comercializados como suplemento alimentar, de tão seguros que eles são. E podem atenuar diversos sintomas e beneficiar muita gente.

Muita gente não sabe e confunde os produtos derivados do cannabis com o cigarro de maconha. Qual é a diferença?

VS — Muita! Para você se tratar com cannabis, você não precisa fumar. Esse é um grande mito. Existem hoje óleos concentrados com canabinoide, diversas concentrações, em geral o uso é via sublingual, podendo ser usado inclusive durante uma crise convulsiva e, em alguns segundos, ela pode cessar. O uso frequente faz com que o paciente se estabilize. Há também óleo encapsulado, cremes tópicos para a pele e várias outras apresentações surgindo. No Brasil, os vaporizadores não são possíveis ainda, a Anvisa não libera, mas eles trazem um alívio mais rápido e não têm a combustão, portanto não têm a parte ruim de quando uma pessoa fuma. Enfim, não precisa fumar e não é isso que a gente propõe de forma alguma.

Porque o processo ainda é tão burocrático?

VS — A falta de regulação é que cria a burocracia. A gente tem uma regra de exceção, uma regra excepcional criada pela Anvisa desde 2015. Mas se a gente tivesse uma regulação local, produtos nacionais, uma regra nacional do legislativo, e não só de uma agência reguladora, que é a Anvisa, com certeza esse acesso seria mais fácil, o produto seria mais barato e as pessoas teriam mais conhecimento sobre ele.

Como é que está essa parte regulatória da Cannabis?

VS — A Anvisa, que está muito esclarecida sobre o tema, criou uma proposta de regulação nacional para cultivo e para produção de medicamentos à base de fitocanabinoides, ou seja, a planta mesmo, no Brasil. O legislativo está se movimentando. O Senado Federal está discutindo o tema do uso medicinal da Cannabis. A Câmara também está criando uma comissão especial. Por outro lado, nós temos o governo contestando um pouco essa história, falando no uso de CBD sintético, que é algo que não existe em nenhum outro lugar do mundo e tem riscos menos conhecidos do que os fitocanabinoides, que a gente já sabe que são muito seguros. Não existe nenhum caso de óbito por overdose de fitocanabinoides. É humanamente impossível você chegar a esse ponto. E você tem hoje na farmácia vários produtos que causam mas adicção, que levam de fato as pessoas a óbito quando são usados de maneira indevida e em excesso. Nos Estados Unidos já foi registrada uma queda de 25% nas mortes por abuso de opioides de pacientes em locais nos quais houve a regulação da cannabis. O paciente não morre porque ele quer usar seu medicamento em excesso, ele morre porque está buscando o alívio da dor. Com a cannabis ele não tem esse risco.

Tabela mostra a toxicidade de substâncias mais e menos letais que o álcool.

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Rafael Oliver
Publicitário de formação, com passagens por grandes agências, também atua por vocação na área da comédia. É redator, roteirista e humorista . Encontrou em San Diego, na Califórnia, seu segundo lar. Está sempre por lá. Vive uma busca incessante por novas experiências. E está longe de parar.

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