Arte

Foi aqui que pediram um trecho inédito do novo livro de ‘Handmaid’s Tale’?

por: Vitor Paiva

Quando foi lançado, em 1985, o livro O Conto da Aia, da escritora canadense Margaret Atwood (no qual a série The Handmaid’s Tale é baseada) era uma completa ficção distopica, debatendo metaforicamente a exploração e subjugação das mulheres através da história da tomada de poder, nos EUA, de uma seita totalitária cristã. Hoje, assustadoramente a metáfora cada vez mais parece literal em muitas partes do mundo, como um retrato da vida real – inclusive, ou principalmente, o Brasil atual – e, assim, Atwood entendeu que era hora de afiar novamente sua pena e dar continuidade ao livro. Intitulado “The Testaments”, a sequência de “O Conto de Aia” finalmente será lançada em setembro – ainda sem título em português nem data prevista para o Brasil.

A atriz Elisabeth Moss, da série, e a autora Margaret Atwood

Aos 79 anos, a autora já afirmou que o “mundo em que vivemos” é sua maior inspiração para o novo livro. “As notícias se tornaram muito mais extremas. E essas pessoas em Ohio dizendo que a maternidade deveria ser obrigatória? Eles ainda não fizeram isso, estão falando sobre, mas quando as pessoas falam sobre coisas assim, sendo da minha idade, lembro-me que Hitler disse tudo em “Mein Kampf” e depois o fez”, afirmou, em entrevista. “Se eles tivessem o poder, fariam isso. Essas ideias foram tentadas antes. Que tipo de coisa farão a seguir? O que vai acontecer? Eu nunca vi nada parecido. Por um lado, é apenas fascinante e, por outro lado, é bastante chocante”, disse.

Alguns trechos em inglês do novo livro já foram liberados como teasers para o lançamento. Pelo que pouco que é possível ler, parece mais uma vez um mergulho profundo em Gilead e, assim, nos lados mais sombrios do poder, da misoginia, do autoritarismo e da natureza humana – como mostra esse pequeno trecho traduzido abaixo.

“Transcrição de depoimento de testemunha 396A

Você me pediu pra lhe dizer como foi crescer em Gilead. Você diz que irá ajudar, e eu espero que ajude. Imagino que você espere nada além de horrores, mas a realidade é que muitas crianças foram amadas e tratadas com carinho, em Gilead como em qualquer outro lugar, e muitos adultos eram bons, ainda que falíveis, em Gilead como em qualquer outro lugar.

Espero que você se lembre, também, que todos nós temos nostalgia por qualquer bondade que tenhamos recebido quando crianças, por mais bizarras que as condições parecessem a outros olhos. Eu concordo que Gilead irá desaparecer – há muita coisa errada, muita coisa falsa, e muita coisa completamente contrária aos planos de Deus por lá – mas me permita algum espaço para lamentar o que havia de bom que irá se perder.”

A arte do livro em seu lançamento em inglês

Para ler todo o trecho de The Testaments (em inglês) liberado pela autora, acesse a matéria do The Guardian – e prepare-se.

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© fotos: divulgação


Vitor Paiva
Escritor, jornalista e músico, doutorando em literatura pela PUC-Rio, publica artigos, ensaios e reportagens. É autor dos livros Tudo Que Não é Cavalo, Boca Aberta, Só o Sol Sabe Sair de Cena e Dólar e outros amores.

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