Roteiro Hypeness

Joanesburgo: rolê no centro financeiro e cosmopolita da África do Sul pós-apartheid

por: Kauê Vieira

Sou jornalista e homem negro e por isso o continente africano sempre esteve presente em meus pensamentos. Assim que a África do Sul surgiu no radar, comecei a traçar planos para a visita de 10 dias. Não muitos, pois gosto de deixar a vida fluir. Afinal, o que esperar do país conhecido mundialmente por Nelson Mandela, a segregação racial provocada pelo apartheid e o mistério dos safáris? A África do Sul é, de fato, isso? Vamos descobrir…

A ansiedade tomou conta desde o embarque em São Paulo. O coração palpita só de pensar na sensação de pisar no continente de origem de meus ancestrais. Será que passaria por algum possível parente sem perceber?

Joanesburgo é chamada de cidade do ouro. Pôr do sol, se pronuncie!

A África do Sul é dos países mais complexos e interessantes do mundo. Com 79,4% da população formada por homens e mulheres negras, a nação banhada pelos oceanos Atlântico e Índico equilibra a exuberância de alguns dos principais parques naturais do continente, o verde de áreas subtropicais e a efervescência e diversidade de grandes centros como Joanesburgo e Durban.

E o futuro? Lá se vão 25 anos desde a primeira eleição democrática, que eternizou a imagem de Nelson Mandela, não só como primeiro presidente negro, mas símbolo de um país ainda em reconstrução após décadas de sangue e segregação racial provocada pelo apartheid.

A convite do South African Tourism, o Hypeness esteve em três cidades sul-africanas, Durban, Richards Bay e Joanesburgo e nesta primeira parte traçamos um roteiro especial para você preparar a viagem para a cidade mais rica e vibrante da nação arco-íris.

Se você acompanha meu trabalho aqui, sabe que esta imagem racista, digo, estereotipada de que a África é um país, lar de fome e miséria não condiz nada com a realidade. Dei o spoiler nesta reportagem sobre o INDABA, maior feira de turismo do continente.

Vamos lá, Joanesburgo é a cidade mais rica e importante da África do Sul. A metrópole é berço político, cultural e industrial sul-africano. Lá vivem cerca de 4 milhões de pessoas. Mesmo com tamanha fama, Joburg não é capital. O presidente despacha em Pretória, cidade cerca de 30 quilômetros distante.

A chegada de avião em uma manhã gelada (11 graus) e azul de outono dá ideia do tamanho e organização de Joanesburgo. Estradas de grande velocidade, em média 100 km/h, dividem espaço com uma densa camada verde.

Aliás, chamou a atenção do paulistano aqui o equilíbrio perfeito entre urbanidade e natureza. Joanesburgo é dona de uma das maiores florestas urbanas do mundo. Estima-se que a cidade tenha 10 milhões de árvores plantadas. Paisagem possível de ser admirada de um dos vários arranha céus de Joburg.

Organização, essa é a palavra que saltou aos meus olhos desde o desembarque no Aeroporto Internacional Oliver Tambo – nomeado em memória de um dos principais líderes políticos anti-apartheid do país.

Visto, comunicação e transporte

Ao lado do Brasil, a África do Sul faz parte do BRICS, bloco que reúne ainda Rússia, China e Índia. Isso quer dizer que brasileiros não precisam de visto para entrar, deixando a vida muito mais fácil. Só não esqueça de tomar a vacina de febre amarela e levar o comprovante internacional de vacinação. Você tira em um posto de saúde. Sem estresse.

Por falar em facilidade, embora tenha 11 línguas oficiais, o país se comunica em inglês. Placas, pessoas, sinais de trânsito, tudo está na língua tida como universal. É preciso, porém, fazer uma ressalva. Acontece que pela influência da colonização inglesa, o volante dos veículos está do lado direito. Então, por mais que seu cérebro tente, é necessário cuidado redobrado antes de dirigir e atravessar a rua.

Durante os preparativos para a viagem, o que mais me chamou a atenção foi o preço. Viajar para fora do Brasil é coisa de gente privilegiada, sobretudo pelo alto valor. Na África do Sul é um pouco diferente. Por mais que Joanesburgo siga o caminho de altos valores de metrópoles como São Paulo e Rio de Janeiro, o rand – moeda oficial sul-africana – vale quase cinco vezes menos que o real. Então, compre sem medo.

Você disse comprar?

Vai por mim, reserve espaço na mala. Você vai voltar carregado de Joanesburgo. Mas, como dinheiro é coisa séria, o bairro de Maboneng é a escolha certa para suas comprinhas.

Este é o pedaço mais descolado de Joanesburgo. Melhor ainda com o quentinho do céu azul e temperaturas de agradáveis de outono. Eu já disse que o tempo nessa cidade é perfeito? Você passa por grandes viadutos para chegar em Maboneng e se prestar atenção, verá um grande grafite de Nelson Mandela ainda nos tempos de boxeador. Fique sempre com a câmera em mãos.

Durante os anos de apartheid, Joanesburgo se tornou uma das cidades mais perigosas do mundo. No entanto, nos últimos anos, em função principalmente da mudança de mentalidade dos mais jovens, a cidade se reergueu e o antigo bairro industrial de Maboneng se beneficiou. Galpões vazios deram lugar a lojas e ateliês de arte.

Localizado ao leste do centro financeiro de Joanesburgo, o bairro oferece uma experiência genuína para os amantes de moda e gastronomia. Barracas administradas por sul-africanos de diferentes grupos étnicos, como os zulus e imigrantes do Senegal, Moçambique e Nigéria vendem batas, camisas estampadas, lenços, turbantes, óculos de sol e lembrancinhas. Já que celebramos a democracia sul-africana, os estandes dividem espaço com lojas mais transadas, dando o ar cosmopolita tão característico de Joanesburgo.

Deu fome? Pode ir sem medo até um complexo de restaurantes no fim da Fox Street – rua principal de Maboneng. Se você quer saborear o espírito multifacetado da metrópole, o que não faltam são opções gastronômicas. Dica: escolha a barraca de comida grega. Para os amantes de pimenta, o frango peri peri – prato de origem moçambicana e que leva molho feito com pimenta, cebola ,sal, páprica, manjericão e orégano. Sugestão: procure um vinho tinto shiraz para acompanhar.

Vinhos, vinhos…

Reserve tempo e espaço (nós já conversamos sobre isso) para os vinhos. Você não vai se arrepender. A África do Sul é um dos principais produtores da bebida no mundo. O hábito é tão difundido por lá, que os jovens ostentam suas taças em baladas, casas de show e restaurantes. Luxo só!

Apesar de ser um país relativamente novo no negócio dos vinhos, os sul-africanos possuem números expressivos. São mais de 450 milhões de litros exportados todos os anos para 80 nações, incluindo o Brasil. 100 mil hectares plantados, principalmente no sul, onde ficam os chamados vinhedos do cabo. 4.500 produtores fazem da África do Sul o nono maior produtor de vinho do planeta Terra. O melhor, como já informei que a moeda local é fraca em comparação com o real, os preços são baixos. Dá pra levar vinho de qualidade por 15 ou 17 reais.

Vinho lembra comida e dá fome. Prepare-se para os quilos a mais. Eita povo que gosta de comer. Em Joanesburgo dá pra ostentar um pouco. Sugiro o Saint, restaurante italiano localizado no bairro Sandton. Ambiente vibrante e que lembra o estilo de bares e restaurantes de Nova York.

O meu olhar afrocentrado logo perseguiu e encontrou pessoas negras estilosas comendo, bebendo e se divertindo. Ai, África do Sul! A entrada é bem servida. Pão italiano, queijo parmesão ralado, tomate cereja e provolone derretido. Para completar, pitadas de azeite e pimenta preta moída.

O paulistano aqui pediu pizza de pepperoni como prato principal e não se arrependeu. Massa crocante, não muito fina e tampouco grossa demais. Molho de tomate na medida certa, queijo e claro, pepperoni em abundância. Dá para duas pessoas. Qualidade de um restaurante quatro estrelas. O Saint é grande e bem dividido, mas tente reservar uma mesa antes para não correr riscos.

Prepare-se para o Museu do Apartheid

Por ser uma cidade cosmopolita e repleta de atrações, Joanesburgo consome seu tempo com facilidade. Então, olho no relógio, porque em Joburg o transporte público não é abundante.

Existem poucas ofertas além dos ônibus. Trens, que são lentos e não possuem muitas estações e os Gautrain, rápidos e modernos, mas escassos. Então, se joga no Uber ou alugue um carro. Cuidado com a mão inglesa.

PS: os sul-africanos são extremamente pontuais. É bom não se atrasar, porque eles não se importam em demonstrar incômodo. Experiência própria.

Dei rápidas dicas de transporte para você não perder um dos principais atrativos da cidade. Um depoimento de bastidor, o Museu do Apartheid não estava previsto em nosso roteiro inicial. Teríamos que escolher entre Soweto e ele. Impossível. Deu tudo certo no final e estivemos em ambos.

Não perca esse rolê por nada nesse mundo e reserve bastante tempo. Partindo de Maboneng, são cerca de 20 minutos de carro com trânsito bom (algo difícil por lá).

Assim como o bairro de Soweto, o Museu do Apartheid fica afastado do centro nervoso de Joanesburgo. Talvez a ideia de construí-lo em um local ermo e residêncial dê ainda mais significado para a visita. O ingresso para adultos custa, em média, R$ 22 reais (100 rands) e o museu permanece aberto todos os dias das 9h às 17h. Acredite, é preciso chegar cedo para aproveitar. As visitas duram cerca de 3 horas. No mínimo.

Ao receber os ingressos você pode ir pelo caminho dos brancos ou dos negros. Contextualizando, o apartheid é uma palavra do idioma africâner e significa separação. O sistema político de segregação racial esteve em vigência na África do Sul entre 1948 e 1994, sob o comando de uma minoria branca.

Não importa se é mestre no assunto, entrar em um espaço com tamanho significado impacta, impressiona e dá a dimensão do quanto a comunidade negra sul-africana lutou, mas sofreu nas mãos de impiedosos racistas. Antes de entrar, faça um sorteio com os amigos para ver qual bilhete cada pessoa tira. Dependendo do resultado, você seguirá pelo caminho dos brancos (blankes, em africâner) ou não-brancos (nie-blankes, em africâner).

Por questões de direitos autorais, lá dentro não dá pra filmar ou fotografar. A céu aberto, liberado. Na parte de fora, antes de embarcar para uma viagem dolorosa e inspiradora, uma frase de Nelson Mandela.

“Ser livre não é meramente a ausência de correntes, mas viver e respeitar a liberdade dos outros”.

Nos primeiros passos, você descobre, por exemplo, que a raça das pessoas era determinada pela ‘prova do lápis’. A África do Sul é estruturada a partir de um complexo escopo racial. O país foi colonizado pelos ingleses e holandeses (africâners, seus descendentes). Em busca da supremacia branca, pessoas eram divididas entre branco, africano, indiano e coloured (mestiço).

Eram justamente os coloureds os submetidos ao ‘teste do lápis’. O fiscal colocava uma lapiseira entre os cabelos. Se caísse, a pessoa era considerada branca ou mestiça. Se permanecesse, negra ou coloured.

Prefiro não contar algumas coisas para não perder o clima de surpresa. No entanto, o ponto mais impactante é o massacre ocorrido em Soweto. Um vídeo de 20 minutos conta, em looping, a história de resistência e sangue dos que lutaram contra o apartheid. Sim, Mandela, Winnie, Steve Biko, Tambo, Tutu, dividem espaço com anônimos e crianças.

Existe inclusive um tanque de guerra – usado no massacre de Soweto – que pode ser visitado. Ele está com marcas de bala por todas as partes. Antes de chegar ao espaço, você passa por três portas de ferro. São os símbolos da solitária, onde Nelson Mandela passou parte dos quase 30 anos em que esteve preso. A África do Sul pós-apartheid baniu a utilização de solitárias no sistema penitenciário.

Conhecido como Levante de Soweto, o episódio ocorreu em 16 de junho de 1976 e reuniu entre 15 e 20 mil estudantes insatisfeitos com a inferioridade do ensino aplicado nas ‘escolas negras’. Jovens de 13, 17, 18 anos caminharam, de forma pacífica, pelas ruas do subúrbio negro de Joanesburgo.

Eis que antes de chegarem ao local de um comício, foram atingidos por bombas de efeito moral e disparos de armas automáticas das tropas de choque. Oficialmente, 93 pessoas morreram. Estatísticas apontam mais de 700 vidas negras ceifadas. O símbolo da repressão é Hector Pieterson (guarde esse nome), morto a tiros com apenas 13 anos de idade.

A fotografia do jovem, já sem vida, carregado por colegas pelas ruas de Soweto, é forte demais para não me abalar. Lágrimas escorrem. Fui surpreendido por um choro incessante e que quase se repete agora, enquanto escrevo estas linhas. As lentes atentas do fotógrafo sul-africano Sam Nzima captaram o momento de dor e que se tornou um dos símbolos da crueldade do regime racista.

O fôlego é refeito com a entrada em cena de Nelson Mandela. O primeiro presidente negro de um país que desde então escolheu apenas mandatários de pele preta, é destacado como o principal responsável pela democracia e o ponto final no apartheid. A saída de Mandela da prisão é retratada com inúmeros retratos, incluindo a famosa fotografia de mãos dadas com a esposa Winnie, em 11 de fevereiro 1990.

Em 1989, o então presidente F.W. de Klerk avançou nas negociações para liberação de Mandela, que não recuou e exigiu o fim do regime segregacionista. Em fevereiro de 1990, você pode ver o discurso no Museu do Apartheid, de Klerk anuncia, para a surpresa de muitos congressistas, o fim do apartheid e o reconhecimento do Congresso Nacional Africano.

Quase no final do roteiro, uma grata surpresa, o primeiro gabinete de Mandela. Assim como sempre pregou durante os 27 anos de prisão, Madiba colocou a diversidade em prática. Além de homens brancos e negros, o time de ministros tinha um terço de mulheres, principalmente negras.

“A liberdade não pode ser alcançada sem a emancipação das mulheres”, Nelson Mandela.

Ufa! O passeio chega ao fim com um olhar para futuro (multicultural) da África do Sul. O privilégio de presenciar o fim de tarde de um dia de céu azul e o canto dos pássaros fazem suspirar e enxergar com otimismo a luta contra o racismo. Afinal, que sorte a nossa de ter Nelson Mandela para se inspirar.

Mais uma dica: vá ao Museu do Apartheid antes de Soweto. Assim, tudo fará mais sentido.

Vamos para Soweto?

Se você chegou até aqui, poderá desfrutar da parte mais significativa da viagem. Soweto. O bairro mais importante para a emancipação negra na África do Sul e lar de dois vencedores do Prêmio Nobel e figuras indispensáveis para colocar um ponto final no racismo do apartheid.

O trajeto dá pistas de como operava o sistema de segregação racial sul-africano. Soweto está distante. O bairro fica cerca de 24 quilômetros do centro de Joanesburgo. Lógica não muito diferente da composição (também racista) de algumas periferias brasileiras.

Soweto é chamado pelos sul-africanos de township, expressão em inglês que pode ser traduzida para o português como favela. Tendo em vista que brancos e negros não poderiam conviver nos mesmos espaços, os responsáveis pelo apartheid estabeleceram esse tipo de moradia. As primeiras casas em Soweto surgiram em meados da década de 1930.

A área é lar de pelo menos 2 milhões de pessoas, 99.9% de famílias negras. Ao final do século 19, grande parte dos moradores eram pessoas (de vários cantos da África) que se estabeleceram ali em busca de ouro. Soweto ainda é cercado por algumas minas até os dias de hoje.

Com a chegada ao poder do partido controlado pelos Africâners em 1948 e o início do apartheid, Soweto começa a ganhar forma. Autoridades de Joanesburgo estabeleceram novas townships na região sudoeste para os negros. Casas padronizadas e acanhadas dão até o hoje o tom do local.

A grande erupção de Soweto se deu em 16 de junho de 1976 (falamos sobre isso na visita ao Museu do Apartheid), quando o governo realizou um massacre que vitimou crianças e adolescentes negras. Inclusive dentro de uma igreja. O caso ficou eternizado pelo assassinato de Hector Pieterson, então com 12 anos.

O jovem se transformou em um símbolo pela liberdade negra e atualmente dá nome para a principal praça do bairro. Além do local de lazer, o espaço abriga ainda um museu.

“Para honrar os jovens que deram suas vidas em nome da luta por liberdade e democracia”, diz o monumento acompanhado da emblemática fotografia de Hector já sem vida.

Além do memorial, uma das atrações mais esperadas de Soweto é a casa de Nelson Mandela. O líder negro mora na Rua Vilakazi, cerca de 20 metros distantes do Arcebispo Desmond Tutu. Isso faz da África do Sul e de Soweto o único lugar do mundo com dois ganhadores do Prêmio Nobel vizinhos. A casa de Tutu não pode ser visitada por um detalhe simples, ele ainda vive lá.

A Mandela House foi lar de Madiba entre 1946 e 1962 e fica no número 8115, na esquina com a Rua Ngakane. A entrada custa  60 rands e vale muito a pena. Embora seja acanhada, a residência encanta pela delicadeza dos móveis. Algumas coisas foram modificadas, como a parede que dividia a pequena cozinha dos outros cômodos.

O passeio é um mergulho de cabeça na história do líder político e de sua mulher, Winnie. Seguindo uma tradição africana, os cordões umbilicais dos filhos do casal estão todos enterrados no belo jardim nos fundos.

Aliás, foi dentro desta casa que Winnie precisou se defender e proteger as crias dos ataques da polícia do apartheid. A fachada preserva marcas dos coquetéis molotov atirados.

Além das centenas de títulos de honoris causas entregues por universidades mundo afora, a Nelson Mandela House exibe um cinturão de campeão mundial de boxe. Mandela, você sabe, era um pugilista nato, mas teve o sonho interrompido assim que foi preso. Por isso Mike Tyson, Sugar Ray Leonard, entre outros, resolveram entregar o cinturão para Madiba.

Na sala, uma poltrona com marcas do tempo parece trazer Mandela de volta à vida. O sul-africano chegou a conversar com líderes mundiais repousando no cantinho da sala. Nelson Mandela viveu no local assim que saiu da prisão, em 1990, mas permaneceu lá por 11 dias. Aliados temiam por sua segurança.

A Rua Vilakazi reserva muitas atrações para os turistas. Barraquinhas e restaurantes atendem todos os gostos e bolso. Ponto importante para o fomento da economia local.

A comida me lembrou muito a do Brasil. Pedi um prato leve, com batatas (grelhadas e em conserva), arroz, pimenta, salada com pimentão, feijão e uma espécie de purê, que lembra polenta, chamado pap – vai bem acompanhado de um molho de tomate, por exemplo.

O lema em Soweto é simplicidade. Suas ruas encantam pelo domínio e simpatia das pessoas negras. Parece delírio, mas salta aos olhos ver pessoas de pele preta vivendo o cotidiano. Se reunindo e jogando bola na praça Hector Pieterson, cantando nas ruas, indo e voltando da escola.

Soweto é das casas padronizadas, mas é também o símbolo maior do poder negro. É de lá que saíram dois Prêmio Nobel. Dois dos seres humanos mais importantes da história humana. Soweto é lar do Soccer City Stadium – sede da final da Copa do Mundo de 2010 e do cerimonial em memória de Nelson Mandela.

Assim como o Museu do Apartheid, as ruas vivas do bairro mais negro da África do Sul não deixam o passado adormecer, mas apontam para o presente – ainda desigual – sem se esquecer do futuro. Oxalá seja próspero.

Bônus: Museu Maropeng e Caminhada pela Liberdade

O Museu Maropeng é um dos espaços mais empolgantes que já estive. Ele fica cerca de 63 quilômetros de Joanesburgo. Leva, em média, uma hora de carro para chegar lá. Não tem problema, porque a África do Sul é um país lindo e você vai ter tempo suficiente para admirar a paisagem do campo e ver algumas ovelhas pastando.

O Maropeng faz parte do Berço da Humanidade (Cradle of the Humankind) e desde 1999 é considerado Patrimônio Mundial pela UNESCO. A relevância se dá por algo fascinante, foi nesta região de mais ou menos 47 mil hectares onde encontraram alguns dos fósseis de hominídeos mais antigos do planeta.

A África é o berço da humanidade. Precisamente a África do Sul. O passeio no Museu Maropeng é completo e conta em detalhes a teoria da evolução. Além de exemplares perfeitos (e um pouco assustadores) de nossos ancestrais, há uma linha do tempo partindo do nascer da primeira célula até o desenvolvimento das 1.3 milhões de espécies dos tempos modernos de hoje.

Interatividade é palavra de ordem. Abra espaço na sua câmera, pois fotografias são mais que permitidas. Falando em interação, dentro do Maropeng existe um passeio de barco apresentando – com emoção – elementos como o fogo, gelo e água. Surpresas te aguardam…

O prédio em si é um sonho. A arquitetura é velha conhecida dos amantes de África e lembra uma nave espacial. Ponto positivo, ela se integra perfeitamente ao ambiente local.

O tour ganha mais peso quando você descobre que a Senhorita Ples foi encontrada ali. Os pedaços do fóssil chegaram ao conhecimento humano por volta de 1947 e trata-se, na verdade, de um homem. As cavernas de Sterkfontein também estão no pacote.

Segundo os arqueólogos, Little Foot caiu e acabou morrendo lá dentro. Trata-se de uma espécie de Australopithecus, com mais de 3 milhões de anos. O passeio é guiado, com todos os equipamentos de segurança é possível descer mais de 60 metros. Lá dentro existe um lago de cor linda e hipnotizante. De acordo com a nossa guia, as águas podem chegar a mais de 40 metros de profundidade. Por medidas de segurança, o acesso é proibido.

O mais bacana das cavernas de Sterkfontein é que o trabalho não cessou. Existem partes vetadas para o público, pois arqueólogos e paleontólogos seguem com suas descobertas.

As cavernas de Sterkfontein ficam na Reserva da Natureza Isaac Edwin Stegmann e desde 1958 o local é administrado pela Universidade de Witwatersrand. Ah, cuidado com as cobras, pelo menos é o que dizem algumas placas ao longo do percurso.

Eu precisava terminar o roteiro mais importante de todos os tempos falando de raça e pertencimento. Parecem pessoas de verdade. Será que estão reunidos? São estátuas!

O The Long Walk to Freedom (Longa caminhada para a liberdade) reúne 100 estátuas em tamanho real de líderes políticos como Mandela, Martin Luther King Jr, Mahatma Gandhi, Oliver e Adelaide Tambo e Nelson Mandela, missionários, rebeldes e homens e mulheres que lutaram pela emancipação dos países africanos contra o domínio colonial. Reis e rainhas africanos desde os anos 1700 até o início da democracia sul-africana, em 1994.

“É um local de aprendizado e reflexão sobre a celebração da vida dos que lutaram pela África do Sul ao redor do mundo. Heróis que integram a memória coletiva do planeta”.

A descrição acima bate com o ímpeto de um país que determinado em apresentar uma nova história ao mundo. A África do Sul não esconde seu passado. O país mais desenvolvido do continente negro carrega consigo a responsabilidade de implementar, de fato, a equidade racial e colocar um ponto final na história nefasta do apartheid. Só assim, a nação arco-íris honrará o legado de Nelson e Winnie Mandela, Hector Pieterson, Desmond Tutu, Steve Biko e tantas outras mulheres e homens negros que não abrem mão de seu direito de existir.

Deste lado do Atlântico, deve-se assumir que o sangue que corre nas veias do Brasil é negro. É de África. Mais que valorizar a celebrar o passado, o país mais negro fora do continente de origem da humanidade tem urgência de publicizar o passado para estabelecer relações genuínas com os 54 países africanos e suas diferentes culturas.

A África do Sul pode ser o primeiro passo. Vamos? Ubuntu.

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Fotos: Kauê Vieira


Kauê Vieira
Nascido na periferia da zona sul de São Paulo, Kauê Vieira é jornalista desde que se conhece por gente. Apaixonado pela profissão, acumula 10 anos de carreira, com destaque para passagens pela área de cultura. Foi coordenador de comunicação do Projeto Afreaka, idealizou duas edições de um festival promovendo encontros entre Brasil e África contemporânea, além de ter participado da produção de um livro paradidático sobre o ensino de África nas Escolas. Acumula ainda duas passagens pelo Portal Terra. Por fim, ao lado de suas funções no Hypeness, ministra um curso sobre mídia e representatividade e outras coisinhas mais.

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