Inspiração

Neta de escrava, Virgínia Bicudo foi a primeira mulher a fazer análise na América Latina

por: Vitor Paiva

Para o racismo continuar a existir, é preciso sustenta-lo não só sobre ignorâncias e preconceitos, mas também sobre mentiras, apagamentos e falseamento que fazem com que desconheçamos a própria história de nosso país – e disso foi vítima Virgínia Bicudo, uma das mais importantes sociólogas e psicanalistas brasileiras, que para a maioria de nós é praticamente uma desconhecida. Virgínia foi a primeira pessoa a ser reconhecida como psicanalista sem possuir formação médica no Brasil, além de ser uma pioneira no estudo das relações raciais e do racismo – tendo publicado o primeiro trabalho de pós-graduação sobre relações raciais no país. Seu apagamento é fruto direto do justo objeto de seu estudo: Virgínia era uma mulher negra.

A jovem Virgínia, à época de seu mestrado

Filha de uma imigrante italiana branca e de um brasileiro negro – neta, portanto, de uma escrava alforriada – Virgínia Leone Bicudo nasceu em 1915 na cidade de São Paulo. Antes de migrar para as Ciências Sociais, ela formou-se em Educação Sanitária, em 1932. Foi ministrando aulas de higiene em escolas que ela começou a se interessar pela sociologia – e, em 1945, publicou a dissertação Estudos de atitudes raciais de pretos e mulatos em São Paulo, o primeiro projeto de pós-graduação no Brasil a tratar das relações sociais e raciais no país – e esse não foi de forma alguma o único pioneirismo de Virgínia.

Como a primeira mulher a fazer análise na América Latina – com a Dra. Adelheid Lucy Koch, primeira analista credenciada do Brasil – Virgínia se candidatou, em 1937, a tornar-se membra da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo, efetivando-se em 1945 para se tornar a primeira pessoa não-médica a ser reconhecida como psicanalista no Brasil. Tal pioneirismo não se deu sem resistência: muita gente lutou contra a entrada de Virgínia, que jamais ralentou em seu processo, e viria a se tornar um dos mais importantes nomes pela construção, institucionalização e popularização da psicanálise no Brasil.

Virgínia com o presidente Juscelino Kubitschek em recepção na embaixada brasilieira em Londres

Sua luta era basicamente pra entender e desvendar o sofrimento e a dor que ela própria viveu por conta do preconceito. Do aspecto social e cultural até o sentido mais profundo da psique individual e coletiva, Virgínia enfrentou o preconceito por todas as frentes. “Eu me interessei muito cedo por esse lado social. Não foi por acaso que procurei psicanálise e sociologia. Veja bem o que fiz: eu fui buscar defesas científicas para o íntimo, o psíquico, para conciliar a pessoa de dentro com a de fora. Fui procurar na sociologia a explicação para questões de status social. E, na psicanálise, proteção para a expectativa de rejeição. Essa é a história”, disse Virgínia, em entrevista de 1998.

Virgínia foi efetivamente a primeira psicanalista brasileira com trânsito e publicações internacionais. Infelizmente seu trabalho diluiu-se e acabou um tanto esquecido ao longo do tempo – sua própria história é ilustração da luta que lutou e do preconceito e discriminação que procurou compreender e enfrentar. Faleceu em 2003, aos 88 anos, como uma das mais importantes cientistas sociais e psicanalistas da história do Brasil.

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© fotos: divulgação


Vitor Paiva
Escritor, jornalista e músico, doutorando em literatura pela PUC-Rio, publica artigos, ensaios e reportagens. É autor dos livros Tudo Que Não é Cavalo, Boca Aberta, Só o Sol Sabe Sair de Cena e Dólar e outros amores.

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