Precisamos falar Sobre

Por que alguns pais estão optando por manter o gênero da criança em segredo após o nascimento

por: Kauê Vieira


Os conceitos de gênero estão em plena ebulição. A orientação sexual não se encaixa mais em moldes ultrapassados. O levante de seres humanos, sobretudo os historicamente marginalizados pela sociedade, mostra que o caminho é pela diversidade.

– Charlize Theron posta foto da filha trans aproveitando as férias

Como bem diz Gilberto Gil, a seta do tempo aponta para frente. A revolução sugere outros rumos, mas apresenta desafios e dilemas para a fluidez dos novos conceitos de família. Um casal no Reino Unido, por exemplo, decidiu esconder o gênero do filho recém-nascido. 

Hobbit Humphrey e Jake England-Johns justificam a opção como incentivo para que o bebê forme seu próprio entendimento de gênero. “Quando falamos em gênero neutro, queremos dizer que devemos nos comportar de maneira neutra em relação à criança, e não torná-la neutra. Nós só queremos que Charlie (nome fictício) seja ele mesmo”, explica Jake à BBC. 

A construção da identidade de gênero se baseia no diálogo

O Hypeness conversou com Vera Iaconelli, doutora em psicologia pela Universidade de São Paulo e autora do livro ‘O Mal-estar na Maternidade’. A profissional reflete sobre os impactos dos conceitos de gênero construídos socialmente na formação de um indivíduo. 

“O gênero é uma construção coletiva que determinada cultura faz a partir de alguns marcadores biológicos e uma série de costumes e práticas da relação do sujeito com o próprio corpo. É sempre algo relativo ao conhecimento e suas mudanças também são afetadas por esse coletivo”, pondera. 

A psicóloga, que também é diretora do Instituto Gerar, sublinha a importância do diálogo nessa obra em constante movimento. “Poder falar sobre esse tema com as crianças é tentar esvaziar tabus que podem estar em torno disso que a gente, em cada cultura, vai chamar de homem e mulher e outros”, acrescenta. 

Diálogo sugere liberdade, experimento e troca de perspectivas distintas sobre um mesmo assunto. Ouvimos a jornalista Carol Patrocínio, mãe de Chico, de 9 anos. Ela contou ao Hypeness que aposta na fluidez na formação da identidade de gênero da cria. 

“As questões de Chico com a identidade vieram de uma forma natural porque a gente permitiu que fosse natural. Que fosse uma descoberta. Fomos conversando sobre tudo que ele testou. Seja a roupa, a maneira de falar sobre si mesmo, seja o pronome, pensar se quer manter o nome masculino ou não. Vendo o que ele tava sentindo para poder ajudar”, diz ela.  

O binarismo não se aplica em um assunto de tamanha complexidade

Enquanto mãe, Carol compreende a maternidade como forma de “mostrar que toda a experiência é válida, desde que não machuque ninguém e que ele [o filho] pode testar”. E completa, “acho que é isso que falta para a gente enquanto sociedade. Ter a chance de descobrir outras coisas”

Com a experiência de quem enxerga o gênero para além do tradicional binarismo de cores, roupas e estilos, Vera, doutora em psicologia pela USP, chama atenção de pais, mães e familiares como um todo para a responsabilidade de não utilizarem marcadores para definir certos hábitos. Trocando em miúdos, fuja de rótulos. 

“Temos uma série de práticas, costumes e hábitos que chamamos de feminino e masculino. Eles, claro, devem ser sempre questionados, pois supõe que os sujeitos se sintam ou desejem formas específicas. Isso não acontece”, explica. 

Ela aponta certa confusão na cabeça das pessoas que associam “marcadores extremamente fluidos”, como homens que optam por calças, saias, cabelos compridos e brinco com construção de gênero. 

“O grave é quando a gente confunde isso com quem o sujeito seria a partir do gênero. Não sabemos quem o sujeito é em um primeiro momento. Como ele se veste, se vai na praia de biquíni, mas vai ao casamento de vestido longo, são apenas convenções”, completa. 

Aliás, este foi o problema enfrentado por Carol, que precisou escrever um texto ‘Por que as pessoas, na internet, se incomodam tanto que meu filho use vestidos?’, em resposta aos ataques recebidos pelo equívoco insistente – já alertado por Vera –  das pessoas associarem moda com gênero. 

“A diferença entre Chico e outras crianças é que ele não acha que o guarda-roupa precise ser comprado inteiramente em um dos lados das lojas de departamento”, disse em um trecho do artigo. 

“Não há nenhum problema de se chamar menino ou menina, podia ser até outro nome. A questão é quando você supõe que meninos podem determinadas coisas. Meninas não podem. E vice versa. É quando você dá juízos de valor para essas diferenças e não só aponta como diferenças”, opina Vera. 

Diálogo, um clichê do bem 

A oralidade é um conceito trazido ao Brasil por homens e mulheres africanas sequestrados na condição de escravizados. Desde então, a prática de recriar memórias e apresentar novas formas de expressão cultural se confunde com a história do Brasil. A construção da identidade de gênero pode ir pelo mesmo caminho. 

“A gente só pensa de certa maneira porque está acostumado. O diálogo é a base de tudo. Poder questionar. Se questionar e entender que a criança não está ali só para aprender, mas pode te ensinar muito. Aí, quando você transforma a relação de pais e filhos em uma troca, fica tudo maravilhoso. É a partir de entender diferentes realidades e pontos vista que a gente cria um mundo mais diverso”, alerta Carol Patrocínio. 

A Organização das Nações Unidas (ONU) criou a campanha ‘Livres & Iguais’, que apresenta uma cartilha explicando os significados da identidade de gênero e o que é ser transgênero. 

O órgão oferece orientações para a implementação de políticas públicas assertivas por parte dos governos e que os meios de comunicação e leitores como um todo garantam o direito dessa camada da população vitimizada pelo preconceito. 

Carol Patrocínio reforça que crianças estão sempre com olhos e ouvidos atentos. “Filhos são esponjas. Eles tomam com verdade o que veem os pais fazendo”, inicia. 

Charlize Theron e a filha Jackson, de 7 anos

“O que tentei fazer com a educação dos meus filhos foi que eles pudessem me questionar. Que eles sentisse à vontade para perguntar por que eu acho certas coisas. E o por que eu penso de certa maneira. Isso não é bom só pra eles, é bom pra mim para entender onde está o problema dos meus pensamentos”, complementa.  

A compreensão da força da palavra se reflete diretamente na rotina de Chico, filho de Carol. A liberdade esteve presente desde a primeira infância. Chico gosta de vestidos, que os use. Aliás, a jornalista não diminui a sapiência das crianças, que muitas vezes resolvem os ditos ‘problemas’ com simplicidade. 

“A gente só pensa de certa maneira porque está acostumado. O diálogo é a base de tudo. Poder questionar. Se questionar e entender que a criança não está ali só para aprender, mas pode te ensinar muito. Aí, quando você transforma a relação de pais e filhos em uma troca, fica tudo maravilhoso. É a partir de entender diferentes realidades e pontos vista que a gente cria um mundo mais diverso”, enfatiza. 

O casal inglês 

Afinal, a decisão de esconder o gênero do filho adotada pelos pais ingleses é eficaz ou não? Não existe uma resposta precisa, como nos diz Carol. No entanto, a jornalista e defensora de maternidade livre de conceitos de gênero faz uma ressalva sobre a dificuldade da sociedade em aceitar a liberdade. 

É difícil questionar qualquer decisão que outros pais e mães tomem. Eu não faria isso, porque acredito que o gênero é fluido. Começa aí. Nada é fixo na gente. Então, a gente não precisaria olhar dessa maneira para o gênero. E minha escolha é sempre lutar para educar. Para transformar as coisas e não aceitar que me obriguem a tomar caminhos que não gostaria de tomar. Eu, particularmente, não tomaria esse caminho. Porém, eu entendo demais essa atitude, porque é assustador você ter que repetir o tempo inteiro a mesma coisa. A mesma história para que as pessoas simplesmente respeitem que a criança que você está tutorando, é uma criança. Não importa se é um menino ou uma menina, porque não vai mudar nada.

Como uma das profissionais mais respeitadas quando o assunto são nuances provocadas pela complexidade apresentada por cada indivíduo, sobretudo no início do processo de formação das várias identidades, Vera Iaconelli tem ressalvas quando os métodos escolhido pelo casal britânico. 

“Acho sempre muito perigoso fazer a criança de experimento de uma manifestação política. Quando você esconde uma parte do corpo da criança, você cria um tabu em volta dessa parte do corpo. A questão não é esconder se ela tem vagina ou pênis, mas ajudá-la a entender que isso não determina quem ela é. Embora a gente possa ter marcadores coletivos de que um se chama menina e outro se chama menina”, salienta. 

View this post on Instagram

Bom dia! ♡

A post shared by Carol Patrocinio (@carolpatrocinio) on


A partir do seu lugar de mãe, Carol respeita a decisão de esconder o gênero, justificado, segundo ela, pelo cenário hostil.

“Então, infelizmente no mundo de hoje, faz sentido você esconder qual é o gênero do seu filho ou sua filha para que essa criança tenha mais chances de ter uma vida com amplitude. Como eu disse é uma escolha minha. Eu escolhi lutar e abraçar outras famílias porque eu sei o quanto é difícil quando você se depara com algo que ninguém fala sobre. É um tabu. Tudo que você vai encontrar pra ler e tentar encontrar uma luz são textos acadêmicos e você não tem tempo e saco. A gente tá no Brasil, a educação é péssima”, encerra.  

Além do elevado número de mortes com motivações homofóbicas, o preconceito mina o desenvolvimento psicológico de uma criança. A era das redes sociais reforça tal preocupação. Cenários agressivos e ameaçadores com estes sugerem a intervenção de um profissional de saúde mental. É quando o diálogo em família já não supre a carga vinda para além dos limites do núcleo familiar. 

O profissional da saúde mental tem duas funções: uma quando há sofrimento reconhecido pelo sujeito ou pelo entorno. Você procura o profissional porque alguma coisa não está se resolvendo sozinha. Para que a criança, o adolescente ou o adulto possam encontrar um espaço de escuta. 

A psicóloga acrescenta, “debater dentro de casa, poder conversar com os pais, brincar com gênero e poder questionar é uma coisa familiar. Não tem a ver necessariamente com o tratamento. Se a pessoa está passando por uma transição, tomando hormônios, tendo que lidar com pressão social e família, hoje em dia, isso ainda requer cuidados por conta da pressão social”.

Falando em acesso à internet, recentemente o Hypeness conversou com o Pedro Hartung  – advogado e coordenador do programa ‘Prioridade Absoluta’, do Instituto Alana. Ele alertou sobre os impactos das redes na vida de crianças e adolescentes

Diversidade de ideias. O caminho é por aí

“Por serem plataformas criadas para adultos ou maiores de 13 anos, o conteúdo é impróprio e inadequado e pode trazer uma série de elementos e temas que necessitam de mediação com a criança. Por exemplo, estereótipos e padrões de beleza ou o incentivo ao hiperconsumo de muitos aplicativos que, pelo modelo de negócio, se tornaram verdadeiros espaços mercantis”

Já listamos alguns exemplos de gente que aposta na pluralidade para a formação identitária e de gênero. A atriz Charlize Theron deu detalhes de como é a relação com Jackson, de 7 anos, adotada pela atriz sul-africana em 2012. 

“Eu também achava que ela era um menino. Até que ela olhou para mim aos 3 anos de idade e disse: ‘Eu não sou um menino’. Então aí está. Eu tenho duas lindas filhas que, como qualquer mãe, quero proteger e ver prosperar. Eles nasceram quem são e exatamente onde no mundo ambos se encontram enquanto crescem, e quem eles querem ser, não é algo para eu decidir”, afirmou ao Daily Mail. 

A complexidade do tema não pode e nem deveria ser suprida em uma única reportagem. A visão de uma profissional, Vera Iaconelli e uma mãe, Carol Patrocínio – ambas comprometidas com novos caminhos para contemplar a diversidade -, dão esperança de um futuro menos nocivo. 

“A gente sonha que uma dia não tenha mais necessidade de tanto tratamento. Quanto mais essas coisas vão sendo encaradas como uma possibilidade entre outras, melhor. Eu entendo que o profissional entra quando alguma coisa não tá legal. Ou quando a pessoa precisa de apoio para fazer o processo de transição, de reconhecimento. Ou mesmo quando ela não tá transitando”, amarra Vera.  

Publicidade

Fotos: foto 1: ONU/Reprodução/foto 2: Reprodução/foto 3: Reprodução/Daily Mail/foto 4: EBC


Kauê Vieira
Nascido na periferia da zona sul de São Paulo, Kauê Vieira é jornalista desde que se conhece por gente. Apaixonado pela profissão, acumula 10 anos de carreira, com destaque para passagens pela área de cultura. Foi coordenador de comunicação do Projeto Afreaka, idealizou duas edições de um festival promovendo encontros entre Brasil e África contemporânea, além de ter participado da produção de um livro paradidático sobre o ensino de África nas Escolas. Acumula ainda duas passagens pelo Portal Terra. Por fim, ao lado de suas funções no Hypeness, ministra um curso sobre mídia e representatividade e outras coisinhas mais.

Branded Channel Hypeness

Marcas que apoiam e acreditam na nossa produção de conteúdo exclusivo.



X
Próxima notícia Hypeness:
Com 25 medalhas, Simone Biles dá um bico no racismo e entra para história