Debate

Professor é esfaqueado por aluno em SP. Debater saúde mental nas escolas é urgente

por: Kauê Vieira

O caso envolvendo um aluno de 14 anos, que esfaqueou um professor no CEU Aricanduva,  zona leste de São Paulo, escancarou a urgência de um debate amplo sobre saúde mental dentro das salas de aula.

– Com alegria e sem caretice, Amanda Ramalho desmistifica saúde mental no Esquizofrenoias

CEU Aricanduva, em São Paulo

Descrito como um aluno exemplar e com boas notas no currículo, o adolescente usou uma faca de cortar carne da tia para atingir o professor, que segue internado em estado grave. O jovem também ficou ferido e foi encaminhado ao hospital.

“Na outra sala ele esfaqueou o professor de geografia, depois retornou à sala de aula, avisou o que tinha feito e ameaçou se suicidar. O professor de história conseguiu conter o aluno e sofreu também alguns ferimentos leves”, disse o prefeito de São Paulo, Bruno Covas, em entrevista coletiva. 

O Hypeness conversou com Andrea Ramal, Doutora em Educação pela PUC-Rio. Ela diz que os cursos preparatórios de educadores precisam se atualizar e entrar em compasso com exigências da atualidade, como a própria saúde mental

“É importante lembrar que não é incumbência dos colégios fazer nenhum tipo de diagnóstico ou terapia, mas eles têm, sim, uma função importante nesse sentido. Não é vocação das instituições oferecer tratamento. O papel da escola é perceber sinais e entrar em contato com a família. No entanto, um obstáculo nesse sentido é o fato de os cursos de formação de professores dificilmente abordarem a saúde mental. Os educadores são capacitados para identificar outros transtornos, como dislexia e TDAH (Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade). Esses são mais facilmente descobertos porque o resultado aparece imediatamente na capacidade de aprender. É mais complicado com distúrbios ligados ao emocional”.

Trata-se de um enorme desafio para instituições de ensino, principalmente depois de situações traumáticas como o massacre de Suzano, em São Paulo, que tirou a vida de 11 pessoas em um ataque a tiros.

No Quênia, uma jovem de 14 anos se suicidou depois de ser humilhada pela professora. Jackline Chepngeno tinha menstruado pela primeira vez. 

“Ela não tinha absorvente. Quando o sangue marcou sua roupa, ela foi retirada da aula”, disse a mãe. 

O caso provocou protesto de mais de 200 pais na porta da escola, que ficou fechada. Cinco pessoas foram presas. O episódio de suicídio aumenta a pressão para que o governo queniano coloque em prática projeto de lei aprovado em 2017 exigindo que escolas disponibilizem absorventes gratuitos às alunas. 

Não adianta se enganar, como propõem alguns políticos, pensando que uma arma pode resolver o drama. O buraco é mais embaixo. Um estudo feito pelo Instituto de Psiquiatria da Faculdade de Medicina da USP, em parceria com a Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) e a Universidade Federal do Rio de Grande do Sul (UFRGS), mostra que 80% dos estudantes de escolas públicas lidam com algum transtorno mental. Do total, somente 20% receberam algum tipo de cuidado profissional ou via medicamento.

Falar de saúde mental salva vidas

Para Andrea Ramal, é preciso incentivar um envolvimento maior dos alunos. A Doutora em Educação pela PUC-Rio cita a expressão como forma de cuidar da saúde mental na sala de aula. 

“Pode ser um debate ou uma redação para falar das próprias emoções. E isso tem um efeito muito positivo. No entanto, é preciso cautela. Uma discussão especificamente sobre suicídio entre adolescentes pode ser muito arriscada. Pode dar certo, desde que feita por profissionais com formação para isso. A orientação de um psicólogo ou psiquiatra seria recomendável. Um passo importante é manter uma postura de diálogo, que deve ser adotada por professores, orientadores, diretores e todos os profissionais de um colégio. Quando a pessoa é muito rígida, dificilmente o aluno sentirá abertura para conversar”, assinala. 

Retrocesso 

Em tempos de ameaças à liberdade de expressão, a educação se torna alvo preferencial dos intolerantes. O sistema de ensino brasileiro, que carece de estrutura e investimentos de todas as esferas do poder público, é a menina dos olhos de políticos que se dizem contra ideologias

Quem perde são os alunos, privados de debates fundamentais para o desenvolvimento como educação sexual, filosofia e saúde mental. Propostas como o Escola sem Partido’ não contribuem em nada para o estabelecimento de um ambiente saudável. 

“Os métodos conservadores não ajudam. No entanto, as unidades de ensino que adotam metodologias de ensino ativas, em que atividades de interação são valorizadas, têm mais facilidade de conhecer os estudantes e, assim, dar apoio aos que precisam. O modelo de ensino tradicional, onde o professor é apenas transmissor do conteúdo, não é ideal. Hoje em dia, ele deve muito mais ser um orientador, um dinamizador, um motivador. Se o professor não fica só explicando e explicando consegue fazer uma observação comportamental melhor. A minha dica é que educadores fiquem atentos a qualquer sinal de mudança ou nervosismo nos alunos. Além disso, precisamos fazer da escola um lugar de aprendizagem, de brincadeiras e de fazer amigos, um lugar tranquilo e seguro para as crianças”, ressalta Andrea Ramal. 

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Kauê Vieira
Nascido na periferia da zona sul de São Paulo, Kauê Vieira é jornalista desde que se conhece por gente. Apaixonado pela profissão, acumula 10 anos de carreira, com destaque para passagens pela área de cultura. Foi coordenador de comunicação do Projeto Afreaka, idealizou duas edições de um festival promovendo encontros entre Brasil e África contemporânea, além de ter participado da produção de um livro paradidático sobre o ensino de África nas Escolas. Acumula ainda duas passagens pelo Portal Terra. Por fim, ao lado de suas funções no Hypeness, ministra um curso sobre mídia e representatividade e outras coisinhas mais.

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