Arte

Quando o amor sai pra dar uma volta e quem se fode é a gente | Do Amor #116

por: Jader Pires

Se tivesse havido algum começo de domingo melhor que aquele, nenhum dos dois iria saber apontar. Tava tudo lindo, um sol gostoso, o canto mais aprazível do parque, debaixo de uma sombra de árvore enorme. Sentaram logo cedo, colocaram as comidinhas sobre a toalha, trocaram risadinhas e lembraram das histórias juntos, as viagens, as bobeiras de casal. Se empanturraram, leram um pouco, ela puxou uma sonequinha com a cabeça no colo dele, recebeu um cafuné perto da nuca, ele se arrepiou com a brisa boa que dançava perto deles às vezes. Se beijaram, falaram baixinho perto do ouvido um do outro, como duas crianças arteiras tramando próximas aventuras. 

Não tinha como ter uma manhã de descanso melhor, entre tantos mal aproveitados, cursos para fazer, família para ver, trânsito que agora abocanhou também os finais de semana, o Michel falando na tevê que foi golpe mesmo. Há muito estavam planejando e, mais ainda, ansiando por um dia assim, de morosidade e íntimos, coladinhos nas carícias, ele com os dedos saltitando nos ombros dela, ela com a mão procurando coisas na coxa dele, fingindo avançar, dando dicas, avisando em enfim, chegando. Apertou-o olhando olhos nos olhos, uma urgência que tirou o fôlego dos dois. Mais beijos, mais línguas, ela também queria ganhar mimos e os dois olharam em volta, recompondo-se, tomando os últimos goles de suco. Mas não dava mais para voltar atrás, desfazer aquela vontade dos dois, e nem precisavam. Pra quê água fria? Estavam só os dois, não tinham nenhum compromisso e nem nada mais interessante para fazer.

Ela queria colocar pra fora ali mesmo, no parque, mas ele queria dar para ela alguns bons momentos de atenção, então segurou a bronca, pediu para que ela aguardasse até chegarem em casa. Os olhos dos dois, injetados, sorrisos juvenis na cara, se atacaram por mais uns minutos porque estava gostoso demais sentir a barra da camisa dele roçando no umbigo dela, como quando eram moleques e se roçavam no quarto com receio de a irmã dela acordar ou os pais delas entrarem no quarto. Mas agora eles podiam mais, bem mais. Então se levantaram, saíram juntando restos de comida e copos usados, a toalha chacoalhada com displicência, pequenas travadas para olharem um para o outro e conformar que, sim, estava acontecendo, que voltariam para uma tarde de putaria em casa, como certo tempo não tinham. Ela disse que, dependendo de como fosse, não ia aguentar esperar até chegar no apartamento, que ele teria que achar um lugar vazio na rua. Ele comentou que, com um pequeno desvio do caminho de sempre, ele poderiam até passar em frente a um motel. E por quê não? Um lugar novo, um ambiente feito só para isso, sem distrações, só pedindo para que um fizesse o que queria fazer com o outro. Interpretar papeizinhos, serem bregas e viscerais. Andavam quase em uma marcha atlética em direção ao estacionamento. Conforme avançavam, trocavam ideias, caprichos, intenções. Poderiam começar algo no carro, avançar para o motel e, no fim do dia, em casa, ainda restaria forças para mais uma brincadeira ou duas!  

Deram as mãos, apertaram ainda mais um tico o passo. Estavam quase no carro. Estavam quase para começar a safadeza do dia. Avistaram o veículo que lhes pertencia, que os levaria ao paraíso (ou ao inferno, claro). Separaram os corpos, distanciaram um do outro, mas só por alguns segundos, só para ela entrar do lado do motorista e ele no passageiro, e ai, mais uma vez, estariam juntos para começar a suadeira ali mesmo na vaga, sem sair com o carro. Mas, quando estavam assim, um longe do outro, ele, para garantir que tudo estivesse em seu devido lugar, arrumou as bolas dentro da cueca e levou o dedo rapidamente até o nariz para, além de inspirar perto dele, pressionasse  polegar contra uma das narinas e, feito jogador de futebol, assoasse um muco verde-claro direto no chão. “Raaaasp”. Ela até ouviu o barulho e, automaticamente, sentiu sua calcinha ficando sequinha sequinha, tipo se tivesse botado a coitada escancarada na janela no verão de trinta e todos. Esturricada.

Nisso, entraram no automóvel e o peso do corpo dela puxou a porta rápido demais, fechando-a com uma batida ensurdecedora, quase lacrando veículo. O ódio daquele homem era ver alguém batendo porta de carro. Enquanto o barulho ainda reverberava lá dentro, o pau dele foi murchando como se tivessem aberto o bocal de um balão de ar. “Pssssshshhhhhh”. Pequenininho. Ínfimo. Ficaram em silêncio uns bons minutos, ela olhando para frente, para o matinho que parecia crescer e aumentar de tamanho em frente à vaga, e ele avistando as pontas sujas de barro do tênis de corrida. Ela deu partida, ele não ligou o rádio. Não se abraçaram, ninguém colocou nada para fora. Passaram em frente a um motel e não pararam. Em casa, subiram o elevador comportados, ele em um canto e ela noutro. No apartamento, ela foi direto para o banho e ele ficou largado, de calção, no sofá. Em poucos minutos ia começar o Domingão˜åo do Faustão. 

O amor. Às vezes parece que ele sai pra dar uma volta.

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Jader Pires
Jader Pires é escritor. Largou a publicidade, a experiência de sete anos em um banco e foi escrever. Começou a ler livros depois dos vinte e teve que correr atrás do tempo perdido. Já lançou três livros: o Ela Prefere as Uvas Verdes e o Do Amor, de contos, e agora, lança o seu primeiro romance, Deserto Negro, já disponível para compra. Siga-o no Instagram! @jaderpires.

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